A HISTÓRIA DA COLUNA DE REVOLTOSOS EM SÃO MIGUEL

Autor – Rostand Medeiros

O ano de 1926 iniciava de forma tranquila para a pequena cidade de São Miguel, mas pelo Brasil afora fortes tensões e graves problemas políticos cresciam desde 1922.

Em 1924 estouram vários levantes armados pelo país, com os mais sérios ocorrendo em São Paulo e no Rio Grande do Sul.

Grupo Escolar Padre Cosme, em São Miguel, um ano após a passagem dos Revoltosos pela região - Fonte - Livro "João Rufino-Um visionário de fé", pág. 65

Estes movimentos eram sempre motivados pela insatisfação generalizada da jovem oficialidade militar em relação a política do então presidente da República, o mineiro Artur Bernardes. Este era um homem de temperamento complicado e extremamente autoritário. Como exemplo podemos comentar que durante a gestão Bernardes, todo o seu período governamental, do primeiro ao último dia, foi realizado com o país em estado de sítio.

Foto aérea de São Miguel na atualidade - Foto - Prefeitura Municipal de São Miguel - Fonte - Livro "João Rufino-Um visionário de f´é", pág. 367

As forças do governo em pouco tempo esmagam estas ações, mas os grupos revoltosos de São Paulo e do Rio Grande do Sul resistem e formam duas colunas revolucionárias. Os paulistas eram comandados pelo general Miguel Costa e os gaúchos pelo tenente engenheiro Luís Carlos Prestes. No dia 11 de abril de 1925 os dois grupos se encontram próximos a Foz do Iguaçu. Deste encontro os revoltosos, como ficaram conhecidos na época, decidem realizar a “guerra de movimento”, marchando pelo interior do Brasil, permanecendo na luta até a população se sensibilizar com o exemplo destes guerreiros, ajudarem a derrubar o despótico governo de Artur Bernardes e criar uma nova ordem.

Notícia sobre a invaso de São Miguel - Fonte - Coleção do autor

No início de fevereiro de 1926, dez meses depois de deixarem a fronteira com o Paraguai e cruzarem grande parte do país, a Coluna está deixando o estado do Ceará e seu caminho segue em direção ao Rio Grande do Norte, mais precisamente a São Miguel.

O então Governador potiguar, José Augusto Bezerra de Medeiros, sabendo da aproximação da Coluna de Revoltosos, informa ao coronel João Pessoa de Albuquerque, então Presidente da Intendência de São Miguel, cargo equivalente atualmente ao de prefeito, que os Revoltosos se aproximavam de sua cidade. Um curto telegrama informava que o grupo de revoltosos era composto de “70 combatentes”.

A Ladeira do Engenho, local do combate entre os revoltosos e os defensores de São Miguel - Foto - Rostand Medeiros - Fonte - - Fonte - Livro "João Rufino-Um visionário de f´é", pág. 269

Foi formado então um contingente para interceptar o grupo na conhecida Ladeira do Engenho, um antigo caminho que ligava a região serrana ao Jaguaribe, no Ceará.

O advogado, atualmente residente na cidade de Coronel João Pessoa, Nivaldo Moreno Pinheiro, comenta que seu pai, o comerciante João das Chagas Moreno, mais conhecido como “Joca Gato”, participou da resistência. Homens da cidade se reuniram em seu ponto comercial, um bar conhecido como “bodega de Joca Gato”, onde o grupo aproveitou para tomar algumas “lapadas” de cachaça para dar o combustível da coragem. O proprietário do bar estava preocupado e questionou o grupo se os homens da cidade de São Miguel que se dispunha a lutar contra os Revoltosos, possuíam armamento e munição em condições adequadas? Ao invés de debaterem seriamente sobre a dúvida informada pelo precavido vendeiro, este foi sumariamente perguntado “-Se estava com medo?”. Diante destas discussões, “Joca Gato” nada mais perguntou, nem esperou por novos debates. Apenas foi em casa, pegou seu rifle Winchester, farta munição de calibre 44, lubrificou sua arma e partiu juntamente com um grupo, que os pesquisadores locais apontam como sendo superior a vinte homens armados.

Ata da então Intendência de São Miguel, sobre os Revoltosos - Fonte - Coleção do autor

Sobre esta questão, a ata da “Sessão Ordinária da Intendência Municipal de São Miguel”, datada de 3 de maio de 1926, elaborada três meses após a passagem da Coluna de invasores, lista nominalmente vinte “patriotas”, mas informa haver “alguns outros” membros que faziam parte do grupo de defensores da cidade. Este importante e histórico documento se encontra atualmente nos arquivos da prefeitura municipal de São Miguel.

Já Raimundo Nonato é categórico ao afirmar em seu livro que os “patriotas” foram vinte civis e quatro policiais do destacamento de São Miguel. Este grupo potiguar foi reforçado por mais quatro homens do vizinho município cearense de Pereiro.

No total, apenas vinte e oito combatentes.

Aspecto da trilha da Ladeira do Engenho - Foto - Rostand Medeiros

Do outro lado os números são diversos. O documento elaborado pela municipalidade de São Miguel aponta que a Coluna de Revoltosos era composta de 2.000 homens. Os que se debruçaram sobre o assunto apontam um número mais modesto, entre 450 a 1.000.

O advogado Nivaldo Moreno Pinheiro em uma solenidade quando era prefeito da cidade de Coronel João Pessoa - Fonte - Livro "João Rufino-Um visionário de fé", pág. 132

Mas voltando ao dia 3 de fevereiro de 1926, que São Miguel jamais esqueceu, Nivaldo Moreno informa que o grupo se posicionou na “cabeça”, no alto da ladeira do Engenho, já em território da vizinha cidade cearense de Pereiro, aguardando os “70 Revoltosos”, como dizia o documento do governo estadual.

O que os valorosos defensores avistaram do alto da sua privilegiada posição, a uma altitude em torno dos 650 metros, nem de longe se parecia com o reduzido grupo anteriormente informado. Diante dos seus olhos se avolumava uma grande quantidade de combatentes, mostrando-se como um verdadeiro exército em marcha.

Mesmo diante desta multidão motivada, armada, a maioria fardada de uniformes de cor kaki, lenços vermelhos ao pescoço e extremamente calejados na guerra de guerrilha, o grupo de combatentes de São Miguel não titubeou.

O primeiro a atirar teria sido Francisco da Costa Queiroz, o “Chico Queiroz”. Ele teria disparado não contra o grosso de um dos quatro grupos que formavam a Coluna, mas contra um contingente de umas trinta pessoas, que efetuavam a averiguação do terreno, em busca de possíveis inimigos. Os jornais antigos existentes no Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte afirma que o grupo de defensores de São Miguel ainda conseguiu atingir e matar um dos revoltosos.

Mas a resposta dos experientes seguidores de Miguel Costa e Luís Carlos Prestes foi uma intensa chuva de balas. Um dos revoltosos atirou a poucos

metros da trincheira dos defensores com duas armas curtas. Os rebeldes recuaram deixando alguns materiais. Por sorte o grupo de defensores de São Miguel se protegeu atrás de várias pedras.

Logo outros membros da Coluna retornavam para novo combate. Os defensores da cidade serrana recuaram, se entrincheirando em uma casa e, segundo Raimundo Nonato, sustentaram forte tiroteio por duas horas.

A conhecida “Cruz do Revoltoso”. Segundo a tradição oral da região neste lugar estaria enterrado um membro da Coluna Prestes - Foto - Rostand Medeiros - Fonte - Livro "João Rufino-Um visionário de fé", pág. 271

 Diante do volume avassalador de fogo efetuado pelos membros da Coluna, que cercava a casa, além da noite se aproximando, o grupo onde estava “Joca Gato” percebeu que a sua resistência era inútil e todos fugiram deste local.

Nas primeiras horas do dia 4 de fevereiro de 1926, um novo grupo de doze defensores voltou para fustigar a Coluna de Revoltosos.

O grupo partiu armado de rifles, comandados por Manoel Vicente Tenório, tendo sido reunido em São Miguel, quando o fazendeiro Manuel Antônio Nunes, utilizou uma prática comum na época e atualmente esquecida nas cidades do

sertão; com um búzio marinho, ele “buzou”, alertando e chamando as pessoas na casa do coronel João Pessoa, para seguirem para a luta.

Resto do antigo engenho, que serviu de abrigo aos defensores de São Miguel contra os Revoltosos - Foto - Rostand Medeiros

Era noite fechada quando no sítio Crioulas, a alguns quilômetros da cidade, os defensores defrontaram-se com um contingente de trinta rebeldes. O tiroteio foi rápido, mas rendeu para os defensores a prisão do revoltoso Policarpo Gomes do Nascimento.

Este era natural do Maranhão, onde havia aderido às hostes revoltosas quando da sua passagem pelo seu estado natal.

O dia vinha clareando quando este grupo de defensores retorna a São Miguel com o prisioneiro. Tenório está com mais dois outros companheiros quando na entrada da cidade estoura um novo tiroteio. Apesar da reação dos defensores, este grupo de rebeldes era mais numerosos e o chefe Tenório recebeu dois

balaços de fuzil na coxa esquerda.

Agora não tinha mais jeito, a Coluna de Revoltosos entrou em São Miguel.

Fonte - Coleção do autor

Ao adentrarem a cidade, primeiramente um oficial em um cavalo negro percorria as ruelas e gritava para que o povo não tivesse medo, que eles lutavam para derrubar um governo podre.

Depois um grupo vai direto á a agência dos correios onde destroem a estação telegráfica, para evitar a transmissão de informações à polícia em Pau dos Ferros. Estas informações foram transmitidas pela micaelense Zenaide Almeida Costa, autora do livro “A vida em clave de dó”. Na época da invasão Zenaide era uma criança, que juntamente com a família, foram alguns dos poucos habitantes de São Miguel a ficarem na cidade e testemunharem os fatos.

Logo uma grande quantidade de cavaleiros, com algumas mulheres, que acompanhavam seus homens pelos sertões afora, entraram na pequena cidade. Tiros eram dados para o alto e um grupo acampou diante da casa da família de Zenaide.

Igreja de São Miguel Arcanjo, com a fachada igual a época do ataque dos Revoltosos - Foto - Manuelito, através de material cedido pelo historiador René Guida - Fonte -- Livro "João Rufino-Um visionário de f´é", pág. 287

Segundo Nivaldo Moreno, os líderes dos revoltosos ficaram na casa de Manoel Vieira de Carvalho, que buscou receber o grupo da melhor forma possível. Outros membros foram ao cartório público, retiraram praticamente toda a documentação, fizeram uma pilha diante do prédio, jogaram querosene sobre a papelada e atearam fogo. Outro grupo ateou fogo em documentos diante da prefeitura.

Nivaldo conta que os invasores solicitaram ao então tesoureiro municipal, Chico Dias, a chave do cofre da prefeitura. Ao tentar entregar a chave, o tesoureiro foi obrigado ele próprio a abrir o cofre da municipalidade e o material que se encontrava no interior foi examinado pelos revoltosos. Membros do grupo obrigaram pessoas da comunidade a lavrar um termo onde apontavam o que continha este cofre. Foi encontrado dinheiro, que foi contado, listado, mas nada foi retirado.

Antiga Cadeia Pública de São Miguel, edificação com mais de 200 anos, que viu a Coluna passar diante de suas portas. Foto - José Guadêncio Torquato - Fonte - Fonte - - Livro "João Rufino-Um visionário de f´é", pág. 357

Segundo o advogado, algumas pessoas indicaram para um grupo retardatário e revoltosos que determinados proprietários de casas comerciais afirmavam ser contra as causas que motivavam aquele grupo contra o Governo Federal, ou que este ou aquele dono de loja havia participado do tiroteio na Ladeira do Engenho.

Ao tomarem conhecimentos destes relatos, muitos destes inverídicos, alguns revoltosos promoveram diversos saques em várias casas comerciais de São Miguel. Foram espalhadas pelas poeirentas ruas de terra batida farta quantidade de produtos. Peças de tecidos foram abertas, a farmácia de Chico Queiroz foi saqueada, gêneros alimentícios subtraídos e em outros locais a cena foi se repetindo. Segundo a edição do jornal natalense “A Republica”, de 10 de fevereiro de 1926, o número de casas comerciais atingidas foi de dezessete. Para Nivaldo Moreno, inúmeras pessoas, algumas até mesmo com determinado nível financeiro de São Miguel, se aproveitaram da situação.

Nezinho Moreira, quando criança ficou frente a frente com os Revoltosos, nunca esqueceu que utilizavam lenços vermelhos no pescoço - Fonte - Livro "João Rufino-Um visionário de f´é", pág. 330

Um grupo de batedores seguiu da cidade em direção a fazenda Riacho Fundo, analisando o caminho por onde seus companheiros deveriam prosseguir. Ao chegar neste local foi feito um contato e ocorreu uma troca de tiros com um contingente da polícia militar do Rio Grande do Norte comandado pelo tenente Juventino Cabral. Este pelotão policial havia saído de Pau dos Ferros, sendo composto por vinte homens e haviam levado oito horas para chegar ao Riacho Fundo.

Como resultado do encontro armado, um jovem morador deste sítio foi morto por disparos feitos pela força governamental, com balaços que lhe atingiram a cabeça.

Para a polícia potiguar, diante da realidade de se combater um grupo lutador e motivado, que superava todo o contingente policial potiguar da época, o melhor a fazer era dar meia volta em direção a Pau dos Ferros. Nesta cidade, esperando a chegada dos revoltosos, se encontrava um contingente de 150 homens armados e sob as ordens do major Luís Júlio, então comandante do Regimento de Polícia Militar.

Sítio Riacho Fundo, local do combate entre os membros da Coluna e a Polícia Militar do Rio Grande do Norte - Foto - José Correia Torres Neto

Para os rebeldes, o tiroteio no Riacho Fundo aparentemente motivou o grupo a seguirem pôr uma rota que os levaria para os sítios da Serrinha de João Paulo e Pau Branco.

Segundo Raimundo Nonato, se não tivesse ocorrido os confrontos na Ladeira do Engenho, nas Crioulas, na entrada da cidade e o encontro armado com a polícia no Riacho Fundo, provavelmente o tempo que os revoltosos ficariam em São Miguel seria mais longo. Ou como resultado destes combates a Coluna, ao invés de seguir em direção a Paraíba, poderia ter tomado o rumo de outras cidades potiguares, que seriam interessantes de serem conquistadas, como Pau dos Ferros, Apodi, Mossoró, ou até mesmo Areia Branca e seu importante porto.

Os historiadores que se debruçaram sobre este assunto não concordam com esta versão. Para eles a entrada da Coluna no território potiguar era apenas uma passagem para os estados vizinhos e não tinham o intuito de atacar outras localidades potiguares.

Os líderes dos revoltosos esperavam que os oficiais do Exército Brasileiro, Souza Dantas, Seroa de Melo e Cleto Campelo, todos ligados a causa revolucionária, conseguissem rebelar os seus respectivos quartéis e aderissem ao grupo de combatentes revolucionários. Os dois primeiros militares estavam lotados na capital paraibana e o último em Recife. Mas as tentativas de rebelião destes militares fracassaram.

Membros do batalhão criado para defender Caicó dos membros da Coluna - Fonte Livro "Era uma vez em Caicó", de Marcelo Rocha Coelho

Já o então deputado federal e futuro governador potiguar, Juvenal Lamartine de Faria, temeroso que diante de alguma ação bélica da polícia da Paraíba, houvesse a possibilidade dos revoltosos retornarem ao Rio Grande do Norte pela região do Seridó, organizou grupos de defesa em Caicó, Serra Negra do Norte, Jardim de Piranhas, Parelhas e outras localidades. Em Caicó, a mais importante cidade da zona seridoense, o grupo de defensores ali criado foi pomposamente chamado de “Batalhão Patriótico de Caicó”, ou “Batalhão Treme Terra”. Este era formado, segundo o pesquisador Adauto Guerra Filho, autor do livro “O Seridó na memória de seu povo” (2001), por um contingente que chegava a 300 combatentes. Para muitos, Juvenal Lamartine aproveitou a passagem dos revoltosos para ganhar politicamente com o fato e assim ratificar sua indicação como futuro governador potiguar. Fato que ocorreu em 1927.

Juvenal Lamartine a frente do Batalhão de Caicó - Fonte - Coleção do autor

O certo é que a partir das notícias do combate no Riacho Fundo, o grosso dos combatentes rebeldes converge em direção ao sítio Pau Branco.

Uma parte do contingente de milicianos revoltosos passou na mesma estrada que hoje passa exatamente defronte a sede da fazenda São Gonçalo, pertencente à família de João Alves de Lima, o João Rufino, o nosso biografado.

A Coluna de Revoltosos seguiu em direção aos atuais territórios dos municípios potiguares de Venha Ver e Luís Gomes, onde o trajeto utilizado aparentemente foi através dos sítios Bananeira, Formoso, Bartolomeu e depois Venha Ver, na época uma fazendola com algumas casas na beira de um açude.

A rezadeira Maria Bernarda de Aquino, conhecida como Dona Cabocla - Foto - Rostand Medeiros

Nesta cidade, segundo relatos da conhecida rezadeira Maria Bernarda de Aquino, conhecida como Dona Cabocla, através do que seus pais lhe contaram, enquanto o grosso da tropa seguia adiante, alguns membros da Coluna acamparam próximos ao açude, aonde chegaram a permanecer alguns poucos dias na região, inclusive com suas mulheres. Estas utilizavam lenços e panos na cabeça de cor vermelha, mostrando orgulhosamente que faziam parte do grupo rebelado.

Logo os revoltosos mataram vários porcos para sua alimentação e não molestaram ninguém. Estavam sempre com um vigilante permanentemente de plantão e andavam todo o tempo “equipados”, com suas amas e munições prontas para o uso imediato.

Uma mulher de Venha Ver, conhecida como Josefa, ou Zefa de Zé Lauro, ajudou as mulheres dos rebeldes com lavagens, concertos de roupas e preparação de alimentação. Como pagamento pelo seu trabalho ela ganhou farta quantidade de dinheiro, tecidos, redes, lençóis, roupas prontas e utensílios variados.

A cidade de Venha Ver - Foto - José Correia Torres Neto

Para Dona Cabocla a pobreza naquela época era tão grande que sua mãe, Maria das Dores de Jesus, comentava que com este material, a família de Zefa de Zé Lauro se tornou “rica” do dia para a noite em Venha Ver.

Após saírem deste lugarejo, a Coluna de Revoltosos seguiu em direção a propriedade Cacos (ou Cactos), e após passarem pela Ladeira dos Miuns, estiveram na região dos sítios Tigre, Imbé, São Bernardo, Feira do Pau e na pequena área urbana da cidade de Luís Gomes.

Praça central da cidade de Luiz Gomes - Foto - Rostand Medeiros

Em Luís Gomes se repetiram as “ações revolucionárias”, com uma sequência de saques de casa residências e comerciais. Foram provocados incêndios no cartório e na agência dos correios. Já no dia 6 de fevereiro, os revoltosos deixaram Luis Gomes e o Rio Grande do Norte, adentrando na Paraíba.

Depois de deixarem terras potiguares, a Coluna de Revoltosos combateu ainda por vários estados brasileiros.

Cruzeiro nas proximidades da Ladeira dos Miuns, local de passagem dos revoltosos - Foto José Correia Torres Neto - Fonte - Livro "João Rufino-Um visionário de f´é", pág. 277

Exatamente um ano após passar por São Miguel, a 4 de fevereiro de 1927, o grupo cruzou a fronteira com a Bolívia, onde foi dissolvido.

Já seus líderes tomaram rumos diversos. Luís Carlos Prestes, o mais conhecido e respeitado de todos, inspirou o mito do “Cavaleiro da Esperança”, que durante anos alimentou aspirações das camadas médias urbanas por uma vida melhor. Em 1930 Prestes adere ao comunismo e continua fiel a esta ideologia até a sua morte em 1990. Com o passar dos anos, conforme a popularidade do antigo comandante crescia, o exemplo de sua liderança e ideais se tornam conhecidos, a Coluna de Revoltosos é esquecida e se torna a Coluna Prestes.

Para São Miguel e região, este foi o mais importante acontecimento histórico ocorrido no século passado.

Mesmo diante de um inimigo extremamente experiente e poderoso no número de combatentes, mesmo com invasão da cidade pelos revoltosos sendo inevitável, a postura de seus defensores demonstra a capacidade de luta do seu povo e merece ser lembrada sempre.

Fonte - Coleção do autor

Entretanto, na opinião deste pesquisador, este momento histórico é timidamente recordado pela comunidade e consequentemente pouco conhecido pelos habitantes mais jovens de São Miguel.

Na região oeste potiguar é notório o enorme sucesso do trabalho de resgate da memória, em relação à resistência da população da cidade de Mossoró contra o bando do cangaceiro Lampião, no dia 13 de junho de 1927.

Entretanto não podemos deixar de comentar que no dia do ataque de Lampião a esta cidade, um número em torno de 200 defensores em armas estavam preparados, em diversas barricadas, para defender Mossoró contra um grupo de cangaceiros que girava em torno de cinquenta membros.

Capa do nosso trabalho onde está inserido este artigo - Fonte - Coleção do autor

Proporcionalmente a “Capital do Oeste” teve uma nítida vantagem. Já no caso de São Miguel, sem contar o tiroteio na fazenda Riacho Fundo, protagonizado entre revoltosos e policiais, nos outros três entreveros antes da Coluna adentrar a cidade, o número máximo de defensores foi apenas de vinte e oito homens.

Mesmo fracionada, os revoltosos chegaram a esta região serrana com um número muito superior ao de cangaceiros que atacaram Mossoró. Além do mais, sem desmerecer o fato, mas não se pode esquecer que Mossoró se defendeu de cangaceiros. De bandoleiros que praticavam a rapinagem e o sequestro em larga escala. Mesmo levando-se em conta a capacidade de combate dos homens de Lampião, São Miguel tentou a defesa, considerada impossível, contra um número muito maior de calejados e motivados combatentes. Homens e mulheres comandados por alguns dos mais corajosos, idealistas e preparados grupos de oficiais que o Exército Brasileiro já formou.

Noite de autógrafos em São Miguel - Fonte - Coleção do autor

Os quatro dias da passagem do bando de Lampião em território potiguar, teve um enorme saldo negativo. Foram assassinatos, diversos sequestros, suspeitas de estupros, roubos, saques e outros tantos delitos.

Nos dias da passagem da Coluna Prestes no Rio Grande do Norte, é inegável que os revoltosos saquearam casas comerciais, em busca de medicamentos e materiais para a continuidade da luta. Várias foram às apropriações de equinos para a continuidade de sua marcha e, antes deles terem matado alguém, tiveram um dos seus combatentes morto na subida da Ladeira do Engenho.

Show do grande Raimundo Fagner em São Miguel no dia do lançamento do livro - Fonte - http://doutorseverianonews.blogspot.com

Para quem estuda o fenômeno de banditismo social ocorrido no Nordeste do Brasil entre 1820 e 1944, conhecido por cangaço, conversar com os raros sobreviventes ou suas famílias, tentar uma entrevista com muitas destas pessoas, muitas vezes é tratar de um assunto delicado, difícil e complicado, diante do que as pessoas passaram nas mãos de bandidos da pior espécie.

Já ao tratarmos do tema Coluna Prestes em São Miguel, ocorre uma situação totalmente inversa. Na região da serra as pessoas têm orgulho em contar que a “Coluna passou na minha casa”, como os descendentes de João Rufino têm ao comentarem sobre a passagem de membros da Coluna Prestes diante de sua propriedade na fazenda São Gonçalo.

Festa de lançamento, com exposição fotográfica - Fonte - Coleção do autor

Para as pessoas da região, diferentemente de Lampião, os revoltosos possuíam um ideal, eram educados, tinham um objetivo.

Apesar de serem movimentos históricos distintos em diversas características, pelo que aqui foi descrito, em nossa opinião, este momento histórico deve ser lembrado na região de São Miguel com maior ênfase, para evitar o seu total esquecimento.

Este texto é parte integrante do livro “João Rufino-Um visionário de Fé”, páginas 268 a 280, de nossa autoria. Est obra foi lançada em São Miguel-RN, em abril de 2010, com o ISBN nº – 9788590942412, editado pela Caravela Selo Cultural, de Natal-RN.

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A IMPONENTE CASA GRANDE DA FAZENDA TRIGUEIRO

Fazenda Trigueiro em 2005. Fonte - http://www.flickr.com/photos/53023424

EXEMPLO ÙNICO DAS VELHAS CASAS DO SERTÃO – PEREIRO, CEARÁ

Autor – Rostand Medeiros

Quando estava realizando a pesquisa para a elaboração do meu livro “João Rufino-Um Visionário de Fé”, em uma ocasião tive de seguir para a região do Jaguaribe no Ceará, na tentativa de compreender as origens da família do homem que criou o grupo industrial de torrefação de café chamado Santa Clara/3Corações.

Seguia nesta viagem com os amigos Francisco Pessoa Sobrinho, mais conhecido em São Miguel como Mazinho e o Técnico da Emater Joaquim Rêgo.

Ao adentrarmos o Ceará pela área territorial da cidade de Pereiro, que se limita com São Miguel, seguimos pela sinuosa estrada CE-138. Em certo ponto fui informado que uma casa de fazenda, pintada na cor branca, de estilo moderno, era a Fazenda Campos, pertencente ao pecuarista Mardônio Diógenes, na época ainda vivo. Este homem ficaria marcado na história da região por um sério conflito entre famílias, ocorrido entre as décadas de 1970 e 1980.

Lateral da grande casa

Quando mal começávamos a entabular um diálogo para que eu pudesse conhecer um pouco mais desta história, a nossa direita passou uma grande casa, que logo me chamou a atenção. Pelo aspecto, sem dúvida nenhuma era uma casa de fazenda bem antiga, mas que se mostrou bem conservada.

Surpreso, fui informado pelos meus companheiros de viagem que esta era a casa grande da propriedade Trigueiro, pertencente a família Diógenes e que a mesma era muito antiga, tendo sido erguida por escravos.

Guardei a informação para visitar o local em uma ocasião futura.

Período da Construção

Em abril de 2010, na época do lançamento do meu livro em São Miguel, quando tive oportunidade de passar vários dias naquela bela cidade serrana potiguar, decidi realizar uma visita a sede da Fazenda Trigueiro. Nesta ocasião, uma tarde de sábado, fui sozinho e, por não conhecer seus proprietários, não sabia se eles se interessariam de mostrar a sua residência para um estranho saído lá de Natal.

Parte frontal

Ao adentrar o pátio, a minha visão foi tomada pela grande altura da lateral da vetusta e imponente casa grande.  Certamente um dos poucos exemplares de sua época ainda de pé e sendo habitada por descendentes diretos da mesma família que construiu o local.

Do curral de gado saiu um cidadão de riso farto e semblante tranquilo, que me recebeu da melhor maneira possível. Este era José Dênis Vieira Diógenes, mais conhecido como Zé Dênis, que não colocou nenhum obstáculo em apresentar o velho casarão.

Em meio ao diálogo na grande mesa da sala de jantar, soube algumas interessantes informações daquele local preservado no tempo. Segundo Zé Dênis, a casa grande foi construída pelo seu antepassado Manoel Diógenes Maia e teria sido concluída em 1794, a 216 anos atrás. Toda a edificação foi realizada por escravos. Estes traziam a areia utilizada para a construção desde as margens do Rio Jaguaribe, distante da Fazenda Trigueiro 35 quilômetros. Consta que nesta época o proprietário possuía nada menos que 115 escravos.

Uma chave típica da parte interna do casarão

Um dado interessante é que a Fazenda Trigueiro foi edificada praticamente na mesma época em que a povoação que ficaria conhecida como Serra do Pereiro crescia.

Consta que em 1777 deu-se a chegada à região de Manoel Pereira e de sua família, atraídos pelas terras férteis propícias a agricultura, com inúmeras fontes naturais de água potável e clima agradável com chuvas regulares. As principais atividades econômicas que caracterizaram esta época era a plantação de milho, feijão e a criação de bovinos e esta produção seguia para o município vizinho de Icó. A área onde Manoel Pereira buscou para cuidar de sua família passa a ser conhecida primeiramente como Serra do Pereira, passando depois a Serra do Pereiro. Depois o lugar foi desmembrado de Icó e elevado à categoria de vila pela lei provincial nº 242, de 21 e outubro de 1842, com a denominação de Santos Cosme e Damião da Serra do Pereiro.

Uma das vistas da janela

Ao longo do século XIX houve na região o crescimento da plantação da cana e da produção de algodão. Ambos os produtos alcançaram altos índices de produtividade até a metade do século XX.  Consta que a rapadura produzida na serra do Pereiro era conhecida pela sua ótima qualidade

Imponência

No grande casarão de 38 cômodos e 45 portas e janelas, Zé Dênis narra que seu avô Napoleão Diógenes Paes Botão foi outro grande impulsionador do crescimento econômico da Fazenda Trigueiro e da região.

Napoleão Diógenes Paes Botão

Já seu pai, José Diógenes Maia, mais conhecido na região como “Coronel Zé Diógenes”, já falecido, foi político, mas deixou a atividade para se dedicar exclusivamente a agropecuária. Nesta área obteve muito sucesso, chegando a possuir quase trinta propriedades em várias localidades. Economicamente Zé Diógenes comandava a região que ia da fronteira com o Rio Grande do Norte até a localidade onde passa o Rio Figueiredo. Casado duas vezes, Zé Diógenes foi pai de quatorze filhos, sendo que o primeiro casamento, com a Senhora Tereza Dantas, trouxe ao mundo nove filhas.

Zé Diógenes, esposa e filhas

Mas voltando ao casarão, Zé Dênis não sabe dizer com exatidão se o telhado existente ainda é o original. Ele acredita que sim, em todo caso me apresentou uma pesada e grande telha, que lhe foi informado ser original do imóvel. É uma peça de uns 50 a 60 centímetros de comprimento, por uns 25 centímetros de diâmetros, com as marcas dos dedos de quem as fez, provavelmente a mais de duzentos anos.

Ele informa que a madeira existente no teto, linhas, ripas e escadas ou são originárias de pau d’arco, ou de aroeira, ou angico. Todas árvores nobres da flora nordestina, mas atualmente são praticamente extintas na região. Neste quesito ele não tem dúvida de afirmar que toda a madeira interna da casa é original, daquelas que “cupim não rói”. Já a madeira das pesadas e grossas ripas que compõem as portas e o assoalho do sótão são todas feitas de cedro.

Zé Dênis mostrando a largura das paredes externas da casa

O sótão da casa é um caso a parte de tão grande. Acaba sendo uma outra casa dentro da casa. No “olhômetro” eu nem me arrisco a dizer a metragem daquele enorme compartimento. Ali, segundo Zé Dênis, ficavam anteriormente os escravos. Depois do fim do regime de servidão, os Diógenes trouxeram para o sótão trabalhadores contratados e junto a estes viviam alguns homens que faziam a proteção da propriedade, os famosos “cabras” . Outra função do sótão era a guarda de grandes quantidades de produtos rurais em seis quartos, além de queijo.

Coisas do “Outro Mundo”

Desde o primeiro momento que vi a casa grande do Trigueiro, os amigos Mazinho e Joaquim Rêgo me falaram que na região se sabia que no lugar apareciam almas penadas, visagens, choros e barulhos sem motivo aparente. Durante meu período em São Miguel, se por acaso surgia em alguma conversa uma referência sobre coisas do “outro mundo”, era certo que as histórias da Fazenda Trigueiro entravam na conversa.

Sótão do casarão da Trigueiro

Durante a minha visita a casa Zé Dênis confirmou que os fatos eram reais e me passou algumas informações.

Não era raro os moradores ouvirem sons de instrumentos musicais sendo tocados, em “apresentações” que duravam horas. Ele comentou que os homens que faziam a proteção do lugar, gente disposta, que só andavam armados, se borravam de medo com estes fatos e não raro um desses “cabras machos” iam embora ligeirinho da fazenda. Zé Dênis me mostrou um dos cômodos da casa que, segundo contam, morreu no local de forma inexplicável uma pessoa que ali adentrou.

Local onde eram acondicionados os queijos produzidos na fazenda. As pequenas “meias luas” aqui mostradas, eram ali colocadas para evitar que ratos chegassem aos produtos

O negócio cresceu ao ponto de sua mãe, Delcides Vieira Diógenes, a segunda esposa de Zé Diógenes, ir procurar frei Damião de Bozano, em uma das ocasiões em que ele passou pela região serrana realizando uma de suas “Santas Missões”, lá pelos anos entre 1974 e 1976. O famoso frade capuchinho recebeu D. Delcides e então recomendou simpatias e missas para as “almas do outro mundo”. Logo a situação melhorou.

Uma das simpatias de frei Damião para afastar as aparições era derramar água benta em três cantos que ele indicasse na casa.

Orgulho e Luta

Outra visão do sótão da Fazenda Trigueiro. Uma grande estrutura em "L"

Zé Dênis e sua família tem um grande orgulho em viver neste local. Chama a atenção o nível de consciência que eles possuem sobre a importância da casa grande da Fazenda Trigueiro em termos históricos e sabem que locais como aquele são raros nos dias atuais. Eles se sentem muito bem em receber visitantes que desejam conhecer o bicentenário imóvel, principalmente alunos de universidades. Ocasionalmente a família Diógenes recebe visitas de membros de órgãos governamentais, que tem ideias de incluir a residência rural em roteiros turísticos. Mas na prática Zé Dênis e seus familiares não contam com a ajuda de ninguém para manter o histórico imóvel. Ele me informou que é uma luta manter uma casa tão grande.

A família sabe que, mesmo com toda a importância histórica e as características únicas da Fazenda Trigueiro, a burocracia brasileira é extremamente complicada quando o assunto é apoiar a manutenção de um imóvel privado. Mas Zé Dênis segue na esperança que possa ser dado a imponente casa um destino que seja positivo tanto para a família Diógenes, quanto ao imóvel, que possui inegável importância para a comunidade de Pereiro e o estado do Ceará.

Zé Dênis e seus familiares. Conciencia e orgulho em morar na Fazenda Trigueiro

Depois de fotografar o interior da casa fui embora tranquilo e feliz. Enfim, em um país com pouco mais de 500 anos de história pós descobrimento, não é todo dia que visito uma casa bicentenária, com tamanho peso histórico para a compreensão da vida privada da elite agrária sertaneja.

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1934-LUÍS DA CÂMARA CASCUDO VISITA SÃO MIGUEL

São Miguel

Luís da Câmara Cascudo[1]

O auto torneja a lombada irregular das serras que se continuam, asperas e verdes, emergindo das nevoas matinais e frias. Subimos, ao ronco de oito cylindros uivantes, rompendo um ventania acre, que cheira a juremas e se aquece na terra vermelha. Rampas e aclives brutos surgem ao ímpeto da carreira phantastica, calcando a rodovia serpenteante do lugar. Não Passamos dois minutos no mesmo nivel. Vinte e quatro quilômetros atravez da cordilheira silenciosa. Num alto, semeadas esparsamente nas subidas de outros contrafortes apparecem as casinhas de São Miguel, rebanho immovel e branco, que a capella pastoreia…

Districto de paz em 1859, freguezia em 75, villa em 11 de dezembro de 1876, comarca reestabelecida em 1919. São Miguel justifica a imagem classica de um comboio de surrões mal arrumados. O casario trepa atropeladamente nos altos e baixos, obrigando gymnasticas e tendo calçadas de dois e meio metros de altura. Newton Azevedo Maia, o promotor, mora num arranha-céu de porta e janella.

Luís da Câmara Cascudo

A figura popular é a do patrono onomastico do grupo escolar, o padre Cosme, Cosme Leite da Silva, ordenado em 1846, constructor da capella, chefe político e verdadeiro juiz-de-paz nesse nucleo de eternas brigas sangrentas. O padre Cosme morreu em 11 de dezembro de 1909, deixando fama espalhada de acolhedor e santo varão.

 S. Miguel tem esse nome porque a lagôa que o denominou foi deparada num dia do santo, general das celestes phalanges. Justifica o orago a paixão que todos têm pela velhissima imagem que o padre Tertuliano Fernandes tem a bondade de ir mostra-me, abrindo a capella adormecida sob aquelle sol glorioso.

No altar, caso unico, estão os dois oragos. O velho e o novo mais bonito e rutilante com sua armadura medieval. Estão juntos porque os fieis não admittem o exilio do velho poderoso. Em 1921, querendo pagar uma promessa, o Sr. Francisco da Costa Queiroz, retirou-o a noite. Foi uma revolução. No outro dia, centenas de homens estavam em armas, doidos de raiva e ameaçando esvaziar todas as casas das cercanias até encontrar o perdido padroeiro. S. Miguel apressou-se em reaparecer e a paz cahiu dos ceus escaldantes.

São Miguel, como venho olhando pelas estradas, parece com Patú e Luiz Gomes, na quantidade de cruzes que marcam o sítio das mortes violentas. É uma vila que teve brado de guerra nos annaes da valentia preterita.

Em dezembro de 1895, meu Pae, então alferes Francisco Justino de Oliveira Cascudo, commandou o fogo contra “Moita Brava”, cangaceiro famoso pela violencia das investidas e certissimo de ser inviolável porque andava com um Santo Antonio de ouro ao pescoço. Morreu alli perto do cemiterio novo, numa casa de janellorio vasto. O tiroteio foi á noite. Derribado com tres tiros mortaes, escorado no bacamarte inutil, vomitando sangue, ainda recebeu meu Pai com derradeira bravata, inocua e tremenda: - Num entre qui morre…  

E fechou os olhos agonisando.

Antiga fachada da igreja de São Miguel

Francisco Severiano Sobrinho aponta a casa onde passou os ultimos momentos o jagunço José Brasil, caçado durante anos, numa teimosia de fanatismo. Esse José Brasil matou o rico Francisco José de Carvalho, dono do “Potó”, e cortou o cadaver, junta por junta, numa paciencia de magarefe. Antonio Monteiro de Carvalho, filho do morto, desilludido de vingar seu pai, usou de uma tactica feudal. Procurou Manoel Joaquim de Amorim apaixonado de sua irmã e prometteu-lhe a mão que lhe fôra recusada, se o ajudasse a prender o assassino. Amorim procurou Brasil num afã que só o Amor explica. Acabou depois de varias guerrilhas segurando-o em Pedras de Fogo, segundo uns, ou Goyanna, segundo outros. Trouxeram José Brasil com todos os mimos. Chegando a S. Miguel, dançaram. Pela manhã levaram o matador para uma pedra chata que ainda está perto da capella. José Brasil pediu um padre para confessar-se. Monteirinho, filho do assassinado, respondeu rispido.

-Você não deu confessor a meu pae!…

E atiraram em José Brasil, como numa sussuarana.

A promessa foi mantida. Manoel Joaquim de Amorim se casou com Anna Fausta de Carvalho.

O actual prefeito de S. Miguel, Sr. Manoel Vieira de Carvalho, é neto do velho Amorim, expressão tradicional de coragem. Vivera entre tiros e barulhos, discutindo palmos de terra a descarga de clavinotes. Manoel Vieira apontou me a calçada de onde seu avô matara o ricaço José Bezerra de Medeiros, chamado “Bezerra Matuto”, com dois tiros. No dia 16 de agosto de 1899, Firmino José de Medeiros, filho de Bezerra Matuto, matava Amorim, que completara 78 anos.

Uma propriedade próxima a São Miguel é a data dos “Quintos dos Infernos” e todos os seus proprietáarios sucumbem a arma branca ou de fogo. Manoel Joaquim foi dono dos “Quintos”. João Pessoa de Albuquerque, outro proprietário, caiu morto a 24 de maio de 1928. Outro senhor dos “Quintos”, Manuel Ferreira de Carvalho, morreu numa festa de S. João, em lucta, a 23 de junho deste 1934. A quem caberá a herança sinistra?…

O juiz da comarca, Dr. Janúncio Nobrega, gentilmente fez-me as honras da villa, localizando os pontos dos embates. Apesar de todas as garantias, eu começo a esperar um encontro típico, tinidos de facas e estouro de bacamartes boca-de-sino, daqueles que eram carregados com pregos, pedras e pedaços de ferros. Mas a gentileza de todos faz esquecer a tradição tempestuosa. As horas passam leves, no ar silencioso.

   Quando desço, aos saltos do auto veloz, trago lembranças, notas e laranjas. A serra desdobra sua perspectiva senhorial e massiça. A lufada requeima como uma coivara. Parece nascida do coração impetuoso e bravio dos homens do velho São Miguel, terra amavel e guerreira, como outrora, nos tempos romanticos em que se amava com guantes de ferro.


[1] 1 – Transcrição da reportagem realizada por Luís da Câmara Cascudo, publicada na primeira página do jornal “A Republica”, edição de 31 de agosto de 1934, após uma visita deste famoso escritor a São Miguel. Texto reproduzido conforme o original.

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“OS QUINTOS DOS INFERNOS”

A HISTÓRIA DO COMBATE ENTRE O CANGACEIRO

MOITA BRABA E O ALFERES CASCUDO EM SÃO MIGUEL-RN 

Em 1889, após a proclamação do regime republicano, o Rio Grande do Norte teve aclamado como seu primeiro governador o médico e jornalista Pedro Velho de Albuquerque Maranhão, onde o mesmo passou apenas 19 dias à frente desta função. Este foi surpreendido com a nomeação do bacharel Adolfo Afonso da Silva Gordo para chefe do executivo potiguar e teve de deixar o governo.

Pedro Velho

Seguiu-se um período de instabilidade política, muito prejudicial ao desenvolvimento do estado. Sucederam a Pedro Velho oito governadores e uma junta governativa durante dois anos e três meses, até que este retorna ao poder, eleito pelo Congresso do Estado em 22 de fevereiro de 1892.

Este novo governo representou o fim da instabilidade política, consolidando o regime republicano no Rio Grande do Norte e criando as bases para Pedro Velho dar início a atuação da oligarquia Albuquerque Maranhão.

Em meio a toda esta efervescência, com esta alternância de lideranças no executivo estadual, alguns setores políticos do Rio Grande do Norte, buscando ampliar, ou ocupar espaços nas cidades do interior, passaram a agir de forma agressiva contra seus adversários na luta pelo poder, chegando a casos de práticas de violências contra seus opositores e a terem sob suas ordens grupos de cangaceiros.

Um destes locais foi à cidade de São Miguel.

A Conflituosa Cidade na Serra

A região onde se localiza a cidade potiguar de São Miguel, antigamente conhecida como vila de São Miguel de Pau dos Ferros, está fincada no alto da serra do mesmo nome. A evolução política tem início em junho de 1859, quando o lugar passa a ter um Distrito de Paz, e chega a município com a Lei estadual n° 776, de 11 de dezembro de 1876, desmembrando-se de Pau dos Ferros.

Foto aérea da cidade de São Miguel na atualidade. Fonte-Prefeitura Municipal de São Miguel

A cidade e a região sempre foram marcadas por inúmeros casos que estiveram envoltos em violência e sangue. Na história do lugar não faltaram exemplos de assassinatos por questões políticas, lutas pela posse de terras, uso de pistoleiros abatendo inimigos em tocaias e ataques de cangaceiros.

Várias são as razões para explicar a ocorrência de conflitos no alto da serra.

Entre estes podemos citar a luta pela posse das terras férteis, que umedecidas pela altitude elevada, facilita o desenvolvimento de uma produção agrícola em épocas de seca e consequentemente a ganância dos latifundiários. (1)

Outro ponto a ser levado em consideração está associado à localização geográfica de São Miguel. Estando posicionada entre três estados, esta cidade sempre foi um local de passagem de forasteiros, de boa ou má índole. Para aqueles que tinham contas com a justiça, à região possuía inúmeros locais de difícil acessibilidade, proporcionando a existência de diversos esconderijos naturais. Outro facilitador para ocorrência destes casos está relacionado à distância de quase quinhentos quilômetros que separam esta cidade da capital do estado, Natal, e das autoridades constituídas.

Quem mais se beneficiou com esta situação foram os coronéis locais, que sem maiores esforços, conseguiam contratar farta “mão de obra especializada” composta de homens violentos, que “há muito estavam debaixo do cangaço”. Formando verdadeiras milícias, fortemente armadas, mostrando aos inimigos a força de determinada facção e deixando a população em permanente clima de terror.

Várias fontes oficiais relatam os problemas ligados à violência na região. Em 1853, o então Presidente da Província do Rio Grande do Norte, Antônio Francisco Pereira de Carvalho, comenta que “Esta província, confinando com a do Ceará e Paraíba, em longa extensão e lugares, por onde se desfilam algumas serras, é o valhacouto de quantos malfeitores há no seu limite”, conforme se lê abaixo (2).

Trecho de um relato governamental sobre a criminalidade na região

Já outro antigo dirigente potiguar, Olynto José Meira, na sua Mensagem de 1863, ao justificar a designação de um delegado para impor a ordem na região, declarou que “a comarca de Pau dos Ferros, limítrofe com as províncias da Paraíba e do Ceará, um dos menos ordeiros, ou talvez o mais turbulento de toda província, aonde desde longa data sei que os furtos de cavalos, as ofensas físicas e os assassinatos têm sido praticados quase em larga escala” (3).

1 – O ponto culminante do Rio Grande do Norte, a Serra de São José, com 831 metros de altitude está localizado entre os atuais municípios de Luiz Gomes, São Miguel, Coronel João Pessoa e Venha Ver. Segundo o Anuário Estatístico do Rio Grande do Norte, edição 2004 e publicado pelo IDEMA – Instituto de Desenvolvimento Econômico e Meio Ambiente do Rio Grande do Norte.

2 – Ver a Mensagem do Presidente da Província do Rio Grande do Norte, Antônio Francisco Pereira de Carvalho, 1853, pág. 04.

3 – Ver a Mensagem do Presidente da Província do Rio Grande do Norte, Olynto José Meira, 1863, págs 58 e 59. Por esta época, o então município de São Miguel tinha a sua comarca baseada no vizinho município de Pau dos Ferros.

Valentia

A situação em São Miguel e região eram tão peculiares que em algumas ocasiões, os fortes do lugar se sentiam tão poderosos no alto da serra, que chegavam a criar tremendos embaraços para as autoridades constituídas.

Como exemplo temos a controversa figura de Francisco Moreira de Carvalho, comandante do Partido Conservador em São Miguel. Notícias dão conta que desde 1868, Carvalho havia praticado, ou influenciado os seus correligionários a agir de forma arbitrária e violenta contra os integrantes do Partido Liberal na região. Ele foi julgado e condenado por homicídio, mas devido a sua posição e ligações políticas, estava livre e protegido pelos outros poderosos locais.

Em 1874, o então presidente da província, João Capistrano Bandeira de Mello Filho, conhecido como “Doutor Bandeirinha”, ordenou um basta à situação e mandou prender o alferes. Em sua “Fala” a Assembleia Legislativa, o presidente teceu fartos elogios ao 2º sargento José Paz da Silva Banda, pela detenção do alferes (4).

Mas se Carvalho realmente foi preso, passou pouco tempo, pois durante a grande o período da chamada “seca de 77” (entre os anos de 1876 e 1879), mais precisamente em 27 de janeiro de 1879, vamos encontrá-lo à frente de um grupo de moradores de São Miguel, na cidade de Areia Branca, para reivindicar a entrega de gêneros alimentícios aos flagelados da sua região. Ao chegar à cidade salineira, o líder dos flagelados busca as autoridades, mas os gêneros alimentícios não são entregues. Entretanto ele toma conhecimento que em um depósito de mercadorias do governo havia alimentos em abundância e que certas pessoas estavam desviando o que lhe fora prometido. Liderando um grupo de retirantes, Carvalho incita uma revolta, sendo necessário à vinda de uma força policial com quarenta militares de Mossoró e dezenas de civis fortemente armados. Houve enfrentamento e derramamento de sangue, deixando um saldo de vinte mortos e inúmeros feridos. Entre as vítimas estava o delegado de Mossoró, Manuel Rodrigues Pessoa, além de alguns soldados e o maior número de vítimas foi registrado no lado dos mais necessitados. O então presidente da Província do Rio Grande do Norte, Eliseu de Souza Martins, enviou para Areia Branca o Chefe de Polícia, Joaquim Tavares da Costa Miranda, com uma tropa formada por cem policiais e assim foi possível controlar a situação.

Se para alguns a figura de Francisco Moreira de Carvalho é de um déspota, autoritário, um marginal que zombava das autoridades com a sua impunidade, para muitos outros ele era tido como um herói. O escritor Raimundo Nonato, sem citar fontes, informa que antes do episódio sangrento em Areia Branca, ainda durante o período da Guerra do Paraguai, Carvalho arregimentou sessenta filhos da serra de São Miguel para combaterem o ditador Solano Lopez. Ele mesmo teria se oferecido para lutar em terras paraguaias e por esta razão recebeu do império o título de “alferes”. Ainda segundo Raimundo Nonato, outra boa ação do alferes Carvalho foi ele ter sido um entusiasta abolicionista na região, apoiando os surtos libertários ocorridos no Ceará e Rio Grande do Norte em 1883 (5).

O alto da serra sempre se caracterizou por produzir valentes, que em situações extremas realizaram ações que marcaram época e chegaram até nossos dias, não como relatos de frios assassinatos, mas quase como lembranças de antigas gestas medievais.

Luís da Câmara cascudo em 1923

É Câmara Cascudo quem comenta, sem especificar a data, nem a razão, que um certo pistoleiro de nome José Brasil, matou e esquartejou em vários pedaços José Francisco de Carvalho, o rico proprietário do sítio “Potó” e depois fugiu.

O filho do falecido, Antônio Monteiro de Carvalho, sem coragem para perseguir o assassino, utilizou um artifício verdadeiramente interessante para “lavar a honra”. Ele procurou Manoel Joaquim de Amorim para resolver a situação. Amorim, um dos valentes de São Miguel, era apaixonado pela filha do falecido fazendeiro, mas aparentemente não tinha muitas esperanças de seus desejos de união com a jovem serem realizados. Monteiro de Carvalho sabendo desta situação propôs ao esperançoso Amorim que se este prendesse a João Brasil, teria a honra de desposar sua irmã.

Segundo Cascudo, Amorim saiu então “pelo oco do mundo”, “com uma determinação que impulsiona os apaixonados”. Acabou por prender o assassino, segundo uma versão em Pedras de Fogo, na Paraíba e segundo outra, na cidade pernambucana de Goiana. O certo é que Amorim, coberto com a glória dos valentes, trouxe o matador a São Miguel.

Houve festas e danças pela captura do sicário, que assistia a tudo amarrado em um tronco. Com o dia amanhecendo levaram José Brasil para uma pedra chata, perto da capela do padroeiro São Miguel. O assassino então pede um padre para se confessar, mas rispidamente Antônio Carvalho nega, alegando a Brasil que ele “não deu confessor a meu pai!” e fuzila sumariamente o matador diante de numerosa plateia.

A promessa a Amorim é cumprida e este se casa com Anna Fausta de Carvalho (6).

4 – Ver a Mensagem do Presidente da Província do Rio Grande do Norte, João Capistrano Bandeira de Mello Filho, 1874, pág. 12. Sobre a passagem do “Doutor Bandeirinha” como chefe do executivo potiguar, ver Cascudo, Luís da Câmara. “História do Rio Grande do Norte”, MEC, 1955, pág. 182.

5 – Sobre o conflito em Areia Branca ler a Mensagem do Presidente da Província do Rio Grande do Norte, Rodrigo Lobato Marcondes Machado, 1879, pág. 4. Outra fonte é a Dissertação de Mestrado em Meio Ambiente, apresentada pelo Bacharel em História, Francisco José Pereira da Silva, da UERN – Universidade do Estado do Rio Grande do Norte. Sobre a participação de Francisco Moreira de Carvalho na Guerra do Paraguai e no apoio a luta abolicionista na região, ver Nonato, Raimundo. “Os revoltosos em São Miguel (1926)”. Rio de Janeiro, Ed. Pongetti, 1966, págs. 19 e 22.

6 – Ver o jornal “A Republica”, edição de 31 de agosto de 1934, pág. 01. Câmara Cascudo visitou São Miguel no mesmo ano da publicação desta reportagem, quando percorreu várias cidades do interior potiguar como participante da comitiva do Interventor Mario Câmara, que realizava esta viagem com o intuito de inaugurar obras realizadas em sua gestão. Como resultado desta viagem, Cascudo escreveu o livro “Viajando o Sertão”, mas não comenta nada sobre sua visita a São Miguel. Esta interessante reportagem aponta outras valiosas informações sobre esta cidade serrana.

As Lutas Políticas em São Miguel e o Cangaceiro Moita Braba

Alguns anos depois da união com a família Carvalho, Manoel Joaquim de Amorim alcança o poder de uma das facções políticas da cidade serrana, o que significava criar ou entrar em confusões, e decide montar uma espécie de guarda para sua proteção. Entre os membros do seu séquito de segurança está um cangaceiro que todos chamam de Moita Braba (7).

Para Luís da Câmara Cascudo ele se chamava Antônio Moita Braba, já Raimundo Nonato informa que ele seria Manuel Joaquim Moita Braba. Mas os dois escritores potiguares concordam que este cangaceiro era perigoso, violento, astuto e valente. Teria nascido na Paraíba, mais precisamente na cidade de Sousa. Era mameluco, tinha em torno de trinta anos e desde os dezesseis já era um “homem de armas”, tendo praticado em torno de quinze mortes.

O aspecto dos cangaceiro da época de Moita Braba deveria ser próximo do cangaceiro aqui apresentado

Sua área de atuação sempre foi pequena, bem como o número de membros do seu bando. Quando uma região estava fervilhando de soldados a sua procura, passava a fronteira e buscava esconderijo em outra região. Desde o início da década de 1880 circulava entre Sousa, Belém do Arrojado (hoje a cidade de Uiraúna), e as vilas da região do Rio do Peixe, na Paraíba, passando por Luís Gomes, Pau dos Ferros e São Miguel, no Rio Grande do Norte, até o Pereiro e Icó, no Ceará.

Era sempre protegido pelos poderosos do lugar, trabalhando para quem melhor lhe pagasse, sendo útil para impor a lei dos mais fortes nas épocas eleitorais e assegurando o poder aos seus chefes, entre eles Manoel Joaquim de Amorim. Contudo, nunca foi um vassalo que se prendia exclusivamente a quem lhe pagava, era fiel até o momento em que ele achava que valia a pena ser fiel. (8).

Apesar da sua “extensa ficha” já ser certamente conhecida das autoridades, somente em 1892 Moita Braba passa a chamar a atenção dos mandatários do governo em Natal.

Eram dez da manhã de uma segunda-feira, dia 14 de novembro, quando o rico fazendeiro José Bezerra de Medeiros, conhecido como “Bezerra matuto”, acompanhado de dois advogados e alguns seguranças, chegavam à sede da intendência da vila de São Miguel para participar de uma audiência. Antes de entrar no local estas pessoas são atacados por um grupo de dez homens, mas apenas o fazendeiro é sumariamente alvejado e morto. Os matadores seguiam ordens de Amorim em pessoa, tendo Moita Braba como o segundo em comando (9).

Velha igreja de São Miguel, onde se rezou muito pelo fim da violência

As razões da morte de “Bezerra matuto” são as de sempre; terras, lutas pelo poder local, demonstrações de força, etc.

O mandante Amorim é pronunciado em março de 1893, mas em flagrante ato de desrespeito a justiça, continua a viver tranquilamente na sua fazenda Quintos, localizada a dezessete quilômetros de São Miguel. Amorim gozava da proteção de políticos do lugar, além de contar com a falta de empenho das autoridades judiciárias de Pau dos Ferros em cumprir com suas obrigações, no caso o juiz Paulino de Araújo Guedes e o delegado de São Miguel e grande “defensor da legalidade”, o controverso alferes Francisco Moreira de Carvalho (10).

7 – Sei que no livro “Flor de Romances Trágicos”, de Luís da Câmara Cascudo, no capítulo onde ele comenta sobre a morte deste cangaceiro, ele nomeia este celerado como “Moita Brava”. Entretanto, em janeiro de 2007, quando estive na região buscando garimpar alguma informação sobre estes episódios, mesmo depois de 113 anos, só escutei os moradores locais nomeando-o “Moita Braba” e assim preferi mantê-lo. Ainda durante as pesquisas na região, pude perceber que poucas pessoas conhecem sobre os episódios ocorridos na Fazenda Quintos e sobre a morte de Moita Braba. As informações que consegui, através do relato de poucas pessoas idosas, muito pouco, ou quase nada acrescentaram ao que as antigas fontes escritas me proporcionaram.

8 – As informações mais detalhadas sobre este cangaceiro se encontram nos livros de Nonato, Raimundo. “Os revoltosos em São Miguel (1926)”. Rio de Janeiro, Ed. Pongetti, 1966, págs. 19 e 22 e Cascudo, Luís da Câmara. “Flor de romances trágicos”. Natal, EDURF, 1999, págs. 85 a 90.

9 – Na Mensagem do Presidente da Província do Rio Grande do Norte, Pedro Velho de Albuquerque Maranhão apresenta em 1893, na sua página 4, informa que o tiroteio ocorreu no dia 10 de novembro, uma quinta-feira. Contudo o relatório do então Chefe de Polícia Interino, Olympio Manoel dos Santos Vital, apresentado praticamente um ano depois, na primeira página da edição de “A Republica”, de 10 de novembro de 1894, comenta que a data do incidente foi o dia 14. Em minha opinião sigo o relatório do Chefe de Polícia, pois o mesmo esteve apurando os fatos na região dos conflitos. Já os protetores de “Bezerra matuto”, segundo Nonato, R. Op. Cit., pág. 20, eram cangaceiros cearenses do grupo do chefe “Peixoto”.

10 – Nonato, R. Op. Cit., pág. 20, informa que Manoel Joaquim de Amorim chegou a ir a julgamento, que o mesmo não resultou em nada. Entretanto, o então Chefe de Polícia Interino, Olympio Manoel dos Santos Vital, em seu relatório ao governador Pedro Velho e apresentado em “A Republica”, de 10 de novembro de 1894, nada comenta sobre este possível julgamento. Igualmente as edições dos jornais editados em Natal na época, tampouco fazem alusão a este fato. Já a pífia atuação das autoridades judiciárias no caso Amorim é igualmente comentada e fortemente criticada no mesmo relatório de Olympio Vital. Na Mensagem que Pedro Velho apresenta em 1893, na relação dos delegados de polícia designados pelo governador Pedro Velho, consta o nome do alferes Carvalho como o titular desta função na cidade de São Miguel.

“Os Quinto dos Infernos”

Entretanto este crime é a gota d’água para o governador potiguar Pedro Velho. Este passa a exigir mais empenho das autoridades para dar um basta à situação de desordem e intranquilidade na região (11).

Somente no fim da tarde de 31 de julho de 1894, oito meses após a morte de “Matuto bezerra”, o alferes Carvalho parte de São Miguel para a fazenda Quintos. Junto à “autoridade” seguem Firmino José Bezerra de Medeiros, conhecido como “Néo Bezerra” e filho de “Bezerra matuto”, além de outros nove homens que “vão cumprir a lei”.

Estas pessoas possuíam um histórico um tanto estranho para a função. Entre eles estava Joaquim Avelino, pronunciado por crime de defloramento, outros tidos como desordeiros e o próprio Moita Braba.

Seja por alguma desavença com seu agora ex-patrão Amorim, por esperteza, ou outra razão, o certo é que este cangaceiro fez parte do grupo que sitiou a fazenda Quintos e tentou prender seu proprietário. O mais estranho é que o cerco da fazenda Quintos põem lado a lado o filho do assassinado “Bezerra matuto” e alguns membros do mesmo grupo que perpetraram o assassinato do seu pai.

Já é noite quando “os homens da lei” cercam a propriedade e intimam o velho Amorim a se entregar. Mesmo cercado ele não se intimida, manda chumbo como resposta a ordem de prisão e o tiroteio estoura, seguindo por toda à noite.

Pela manhã outras dezessete pessoas se juntam ao grupo do alferes Carvalho, cresce então o conflito e o cerco à propriedade ganha força. Lá dentro Amorim busca proteger uma filha, uma neta, dois netos, um genro e um empregado. Os homens válidos fazem fogo através das “torneiras” existentes nas paredes (12).

O pipocar das armas ecoa pelas serras, a população da região fica irrequieta para saber o que está acontecendo, é o assunto em voga.

Segundo a tradição oral da região, esta seria a velha casa da fazenda Quintos, local do combate.

Dentro da casa os defensores fazem fogo ao menor sinal do surgimento de algum atacante na sua alça de mira. Amorim possui estoque de munição e mantimentos para lhe assegurar alguns dias de resistência, um túnel oferece acesso à água de um açude próximo. Já os atacantes têm todo tempo do mundo. Atiram em toda casa, nas grossas janelas e portas de madeira. Buscam alvejar algum defensor que se mostre de alguma forma e a troca de ofensas e impropérios é constante.

Literalmente a fazenda Quintos se transforma nos “Quintos dos Infernos”.

Acredita-se que Amorim contava com a possibilidade de algum aliado atacar o pessoal do alferes Carvalho pela retaguarda, mas o próprio fato do seu ex-segurança Moita Braba está ao lado dos atacantes, aponta como provavelmente o valente Amorim já não possui o mesmo poder de outrora.

O certo é que depois de cinco longos dias após o início do cerco, com a munição escasseando e a tensão no limite, Amorim e outros companheiros fogem pelo dito túnel, alcançando um local onde aparentemente existia um engenho de rapadura e de lá, encobertos pela vegetação, conseguem fugir.

Os que permaneceram na casa gritam solicitando garantia de vida ao alferes Carvalho. Este concede o salvo conduto, mas como se acompanhava de homens motivados tanto pela vingança, quanto pelo desejo da rapinagem, a sede da fazenda Quintos é invadida. Objetos são então roubados, baús são arrombados, móveis quebrados e outras coisas destruídas. Até as alimárias existentes na propriedade são utilizadas para o transporte dos produtos do saque e finalmente o grupo de atacantes incendeiam a sede da propriedade. Entre os prisioneiros de destaque estão Ismael José de Carvalho e Olympio Cesário de Moura, respectivamente genro e neto do proprietário dos Quintos.

Região da fazenda Quintos

Amorim busca abrigo em uma fazenda nas imediações do município potiguar de Luís Gomes, provavelmente sob a proteção de algum poderoso do lugar. A população desta cidade limítrofe com a Paraíba fica assustada com a sua presença, este então segue para o estado vizinho e as autoridades desconhecem o seu paradeiro.

Firmino Bezerra, um irmão e outros que participaram do cerco, talvez até acompanhados de Moita Braba, partem armados para várias localidades da região com um recado bem claro; aqueles que fornecerem abrigo ao assassino do seu pai e seus asseclas vão ter que enfrentar a fúria de suas armas.

A região está vivendo um clima de terror. Vários buscam armas para a defesa de suas propriedades. Já outros que vivem mais isolados buscam juntar-se a parentes em sítios mais povoados ou nas pequenas vilas e cidades (13).

11 – Quase dois meses depois da morte de Moita Braba, quando os ânimos na região estavam mais tranquilos, os jornais publicam uma nota emitida pelo governador Pedro Velho, informando que desde setembro de 1894, a população da região solicitava um maior empenho por parte do governo para pôr fim ao clima de medo que imperava na vila de São Miguel. A população estava particularmente apreensiva com a “presença de cangaceiros, circulando livremente pelas ruas, em grupos e fortemente armados”. Ver o jornal “A Republica”, edição de 16 de fevereiro de 1895, p. 01.

12 – Amorim já contava com 73 anos na época do tiroteio. As chamadas “torneiras” eram aberturas feitas, ou “broqueadas” como se dizia, nas paredes das antigas propriedades dos coronéis do sertão, onde se destinava a obter um campo de visão para parte externa, visando realizar disparos contra os adversários com uma arma de fogo.

13 – Sobre o cerco, a consequente depredação da fazenda Quintos e a fuga de Amorim, ver principalmente Nonato, R. Op. Cit., págs. 20 a 23 e o relatório de Olympio Vital publicado em “A Republica” em 10 de novembro de 1894.

A Ação de Pedro Velho e o Fogo Contra Moita Braba

Ao receber as notícias da região, Pedro Velho toma uma decisão drástica, decide mandar para a região o próprio Chefe de Polícia Interino, o desembargador Olympio Manoel dos Santos Vital. Este vai acompanhado de uma força policial com 30 homens, sob o comando do capitão Joaquim Lustosa de Vasconcelos, tendo como subcomandante o alferes Francisco Justino de Oliveira Cascudo.

Justino Cascudo, sua esposa e seu filho Luís

Esta força partiu da capital em meados de setembro, todos comissionados, equipados e sabiam que não havia prazo determinado para retornarem. Isto tudo em uma época na qual a forma mais rápida de transporte para São Miguel era embarcar em um navio a vapor até Areia Branca e o resto do percurso feito através de toscas estradas de barro, em cima de um cavalo (14).

O desembargador Olympio Vital era um calejado conhecedor das práticas jurídicas e administrativas, com uma extensa e respeitável folha de serviços prestados ao país. Tinha então 55 anos, era baiano, natural de Feira de Santana, formado pela Faculdade de Direito de Recife desde 1860, exerceu diversos cargos de respeitabilidade no período monárquico, tais como Promotor Público em Salvador, Chefe de Polícia no Ceará e por cinco meses foi Presidente da Província de Sergipe. Com a proclamação do regime republicano foi nomeado desembargador do recém-criado Tribunal de Justiça do Rio Grande do Norte, tendo sido designado presidente interino desta instituição (15).

Olympio Vital chega à região em 2 de outubro de 1894 e o seu relatório mostra as enérgicas ações impetradas por ele.

Foi aberto um inquérito sobre o caso da fazenda “Quintos”, o alferes Carvalho foi sumariamente destituído do cargo de delegado de polícia de São Miguel, tendo sido nomeado como seu substituto o alferes Cascudo. Já em Pau dos Ferros e Luís Gomes, respectivamente são designados como delegado o capitão Joaquim Lustosa e o cidadão Joaquim Moreira da Silveira.

Casa onde funcionou a cadeia pública de São Miguel

O teor do relatório é duro, onde Olympio aponta a nefasta ação do alferes Carvalho, sobre a proteção que os políticos ofereceram a Amorim e a ineficiência das autoridades judiciárias. Além da preocupação que havia na região por Amorim estar solto, ameaçando várias pessoas. O Chefe de Polícia aponta que se perdeu uma ótima oportunidade de prendê-lo. Ele solicita então o apoio das polícias da Paraíba, Pernambuco, Ceará e Piauí para a prisão do fazendeiro.

Moita Braba e seu grupo é outra preocupação de Olympio. Este continuava circulando pelas fronteiras estaduais e pelas serras, extorquindo mantimentos dos fazendeiros em troca de tranquilidade. Impetuoso e valente, o cangaceiro e seu diminuto bando afrontam de forma clara as autoridades estaduais na noite de 14 de outubro, quando é relatado a Olympio que o grupo havia chegado armado em uma casa próxima de São Miguel e até mesmo circulado tranquilamente pelas ruas do lugar. A polícia é mandada em seu encalço, mas Moita Braba e seus homens já haviam saído da pequena urbe (16).

Após o retorno de Olympio Vital a Natal, o alferes Cascudo continuava mantendo suas funções junto com a sua força policial (17). Seu braço direito era o veterano policial, cabo Sebastião Gomes Cajueiro (18). Apesar da presença da polícia, o clima era tenso e apontava para outro conflito.

Na noite de 22 de dezembro Moita Braba, acompanhado dos cangaceiros José Rufino e Joaquim Avelino, chegam primeiramente a casa de Felisberto de Paula Monte, um pouco afastada do centro de São Miguel. Mesmo sabendo da presença da coluna policial, o destemido cangaceiro comenta para as pessoas do lugar, com muita fanfarronice, que estava ali para “-Dar uma surra de peia no oficial”.

Depois o grupo segue para a residência de um vizinho de Felisberto, Remígio Moreira de Carvalho, que buscou demover o cangaceiro desta ideia e fazê-lo ir embora com seus homens. A casa de Felisberto ficava próxima ao chamado “cemitério novo” e possuía muitas janelas.

Sabendo da “visita” de Moita Braba a São Miguel, o alferes Cascudo ordena ao seu grupo de policiais se aprontarem e seguir para o combate. O oficial, junto com o cabo Cajueiro e mais oito soldados cercam a casa e intimam o cangaceiro e seus companheiros a se renderem. A resposta foi um tiro certeiro e mortal no peito do soldado Teodósio Francisco do Nascimento. O tiroteio começa, em meio a bravatas, palavrões, cantigas e ameaças, com os dois lados trocando chumbo. O grupo de Moita Braba ofereceu tenaz resistência e acordam toda a serra com os disparos.

Nota sobre a morte de Moita Braba

Segundo Câmara Cascudo, vinte minutos após o início do combate, Moita Braba pede ao Alferes que deixasse sair da casa as mulheres da família de Felisberto. Este atende prontamente e o grupo deixa a morada. No meio destes, vestido com roupas femininas e carregando uma criança, segue Joaquim Avelino. O irônico é que este mesmo cangaceiro, anteriormente pronunciado por crime de defloramento, fugia utilizando as mulheres da casa como escudo. Consta que o mesmo saiu para buscar ajuda e realizar um ataque pela retaguarda da polícia. Se assim foi, ele não cumpriu a sua parte e desapareceu.

Como os tiros que saiam de dentro da casa cada vez mais se espaçavam, a polícia invade o local. Dentro encontram José Rufino morto, já Moita Braba estava coberto de sangue, com três ferimentos, a arma destruída por um balaço, agonizando e vomitando sangue. Câmara Cascudo, através do relato do seu pai, comenta que o cangaceiro ostentava no peito ensanguentado uma imagem de ouro com a esfinge de São Francisco e ainda teve forças para ameaçar: – “Num entre qui morre….” (19).

14 – Sobre o teor da nota do governador Pedro Velho, sobre o envio do Chefe de Polícia e da tropa de apoio para a região, ver o jornal “A Republica”, edição de 26 de janeiro de 1896, p. 01.

15 – Ver Gosson, Eduardo Antônio, “Sociedade e Justiça – História do poder judiciário no Rio Grande do Norte”, DEI- Departamento Estadual de Imprensa, Natal, 1998. Págs. 67 a 74.

16 – Relatório de Olympio Vital publicado em “A Republica” em 10 de novembro de 1894. Pág. 01. Interessante notar que logo na publicação deste relatório, na sua parte final, o desembargador Olympio informa publicamente que a longa viagem havia debilitado a sua saúde e solicitava a sua saída do cargo de Chefe de Polícia Interino. Ele é então substituído pelo também desembargador Francisco Salles de Meira e Sá.

17 – O então alferes Francisco Justino de Oliveira Cascudo é atualmente mais conhecido como “coronel Cascudo”, sendo lembrado basicamente como pai do folclorista Luís da Câmara Cascudo, que muito enalteceu a sua figura. Mas ele fez uma interessante carreira na Polícia Militar do Rio Grande do Norte. Nascido no município potiguar de Campo Grande, no dia 26 de novembro de 1863, foi mascate na região de Mossoró. Em julho de 1892, com o apoio do líder político de Campo Grande, Luís Pereira Tito Jácome, foi designado alferes do então Batalhão de Segurança, sendo logo designado para missões no interior. Algum tempo depois do combate em São Miguel, em 1899, o alferes Cascudo participa da ação que desmobiliza o movimento messiânico que tem início na Serra do João do Vale. Deixa a polícia em 1900, torna-se comerciante em Natal, depois deputado estadual, proprietário de jornal na cidade e de outros negócios. Foi a primeira pessoa a abrir um comércio exclusivamente destinado a venda de automóveis na cidade (marca Ford) e participou de vários movimentos comerciais, políticos e sociais de Natal. Falece em 1935. Ver “400 nomes de Natal”, coordenação de Rejane Cardoso, edição da Prefeitura Municipal de Natal, 2000. Págs. 157 e 158.

18 – Um ano depois do tiroteio com o bando de Moita Braba, o valente cabo Cajueiro participa de mais um combate contra um pretenso bando de cangaceiros errantes. Em 24 de dezembro de 1895, às nove da noite, em meio às comemorações pelo nascimento de Jesus Cristo, na pequena vila de Triunfo, atual município de Campo Grande, um grupo de quinze indivíduos invade o local. Eles são comandados por Izidoro, “celebre criminoso”, como afirmam os documentos da época, de Brejo da Cruz, Paraíba. Estes atacam o pequeno destacamento de quatro militares que realizava uma patrulha pelas ruas do lugar. Os militares não se intimidam e o grupo é rechaçado. Como resultado o chefe Izidoro é morto, cinco outros membros do bando são feridos e presos. Já entre os policiais ficam feridos o soldado Manoel Izidoro de Nascimento e o cabo Cajueiro, que não resiste e morre no dia 9 de janeiro de 1896. Ver a Mensagem do Presidente da Província do Rio Grande do Norte, Joaquim Ferreira Chaves Filho, 1896, pág. 05 e o jornal “A Republica”, edição de 15 de janeiro de 1896, p. 02.

19 – Sobre o combate e a morte de Moita Braba, ver Cascudo, Luís da Câmara. “Flor de romances trágicos”. Natal, EDURF, 1999, págs. 85 a 90. O jornal “A Republica”, edição de 31 de agosto de 1934, pág. 01. Mensagem do Presidente da Província do Rio Grande do Norte, Pedro Velho de Albuquerque Maranhão, 1893, págs. 3 e 4.

Novos Arranjos, Velhos Problemas

Com a morte de Moita Braba, a entrada do novo ano de 1895 encontra a região em uma situação mais calma.

As autoridades em Natal decidem fazer mudanças na região. Coloca o juiz de Pau dos Ferros, Paulino de Araújo Guedes em disponibilidade e iniciam o processo de escolha do novo juiz para a comarca a qual São Miguel pertencia. Para o seu lugar, em seção ocorrida em 13 de março de 1895, sob a presidência do desembargador Jeronymo Câmara, a escolha recaí sobre o então promotor de Canguaretama, João Dionísio Filgueira (20).

Apesar do passado violento, a população da cidade de São Miguel prima por receber da melhor forma os visitantes, onde a vida segue calma e tranquila.

Chama a atenção à escolha de um juiz com apenas 25 anos, diplomado pela Faculdade de Direito do Recife há apenas um ano, que então exercia suas funções de promotor em uma cidade localizada a pouco menos de cem quilômetros da capital e é transferido para exercer esta nova atividade em uma cidade situada a mais de quatrocentos. Entretanto Dionísio era natural de Pau dos Ferros e de família influente. Era filho de Dr. Manoel Hemetério Raposo de Melo e de Dona Umbelina Fernandes de Melo, proeminentes membros da sociedade local. Ele conhecia a região, as pessoas, e contava com o apoio do governador Pedro Velho.

Para quem pesquisa nas páginas dos antigos jornais potiguares do período, observa que a nomeação e transferência de juízes e promotores eram notícias que não chamavam a atenção e poucas eram vistas nas primeiras páginas dos periódicos. Entretanto a nomeação e transferência de Filgueira ocasionaram várias notas nas primeiras páginas de “A Republica”, onde o teor das mesmas são basicamente fartos elogios à figura do novo magistrado e externando os parabéns pela sua nomeação. Ele tinha sessenta dias para assumir o seu cargo, a partir da data da publicação de sua nomeação pelo governador Pedro Velho, dia 14 de março de 1895 (21).

Vale ressaltar que naquela época, o jornal “A Republica” era o periódico do governo, onde este servia tanto para a edição de notícias do dia a dia, bem como realizava as funções de publicações de atos governamentais, tal como hoje é feito pelo “Diário Oficial”.

Mesmo com toda carência em relação à questão de transportes, além da urgência que o caso exigia quarenta e três dias após sua nomeação, os jornais informam que o juiz Filgueira chegava a Pau dos Ferros e novamente ele foi notícia nos jornais da capital. Um correspondente local comentou que “no sábado, 27 de abril, chegou a esta vila o novo juiz de direito”, que o mesmo havia sido recebido “com entusiásticas manifestações de festas e regozijo”. Tecia fartos elogios e informava que já no dia 1 de maio de 1895, que na época ainda não era feriado nacional dedicado ao dia do trabalhador, o juiz estaria em São Miguel para visitar o lugar.  Vemos através do teor da nota, como a elite política de Pau dos Ferros e região desejava uma solução para os conflitos na serra de São Miguel.

Aparentemente o governador Pedro Velho buscava através do principal jornal que circulava no estado, mostrar a importância que a nomeação do juiz Filgueira tinha para o governo, fortalecendo a posição do magistrado junto aos políticos da conturbada comarca, imprimindo uma nova ordem para a região, buscando acomodar as forças políticas locais e debelar o medo que existia (22).

Durante algum tempo a região de São Miguel some das páginas dos periódicos e dos documentos oficiais, mas muitas feridas continuam abertas e no futuro outros conflitos vão existir.

Em 16 de agosto de 1899, o filho de “Bezerra matuto”, Firmino José Bezerra de Medeiros, consegue pessoalmente matar com dois tiros Manoel Joaquim de Amorim, o assassino do seu pai e proprietário da fazenda Quintos. A honra de sua família foi “lavada com sangue”.

Notícia da morte do Coronel João Pessoa

Coincidentemente os futuros proprietários da fazenda Quintos morreram todos de forma violenta, efetuadas ou por disparos de arma de fogo, ou a ponta de faca. Em 24 de maio de 1928 é assassinado o líder político João Pessoa de Albuquerque e em 23 de junho de 1934, o novo proprietário, Manoel Ferreira de Carvalho é igualmente morto em luta. (23)

Estas velhas lutas marcaram a serra de São Miguel, tanto que até hoje, o povo da região denomina a antiga propriedade Quintos como “Quintos dos Infernos” e quando alguém está nervoso ou irritado, eles logo comentam; “-Tá igual ao Moita Braba”.

20 – A forma de escolha deu-se através dos votos dos desembargadores, onde em uma lista tríplice constava, além do nome do promotor Dionísio Filgueira, os então promotores de Macau e da própria Pau dos Ferros, respectivamente Manoel Xavier da Cunha Montenegro e Caetano Guimarães de Sá Pereira. Ver “A Republica”, edição de 31 de março de 1895, p. 02.

21 – Sobre a nomeação do juiz Filgueira em “A Republica”, na parte de “Actos Offciaes”, e notícias de sua transferência nas edições dos dias 16 e 23 de março de 1895.

22 – Ver edição de 31 de maio de 1894, de “A Republica”, pág. 01.

23 – Ver O jornal “A Republica”, edição de 31 de agosto de 1934, pág. 01.

Conclusão

Lendo os jornais da época, bem como os relatórios oficiais, percebe-se que a enérgica ação por parte do governador Pedro Velho no problemas de São Miguel, alterou os métodos políticos da região. Mesmo sem maiores detalhes, as antigas fontes de pesquisa deixam claro que os coronéis buscaram se resguardar diante das autoridades, desfazendo os bandos de capangas e cangaceiros que gravitavam ao sabor dos cobres dos fazendeiros.

O caso de São Miguel é interessante de analisar, pois mostra que o principal governador potiguar do início do período republicano, aparentemente não aceitava tão facilmente à utilização de violências, armas e capangas por parte dos coronéis em suas demonstrações de poder e proteção. Neste caso em particular, como se observa pelo tom das notas existentes nas mensagens governamentais e nos jornais, nitidamente havia o repúdio quando estes poderosos do sertão utilizavam, como “mão de obra especializada”, o serviço de cangaceiros oriundos de outros estados.

De certa forma estes fatos ocorridos em São Miguel,  ajudam a explicar a razão do porque o fenômeno do cangaceirismo não proliferou tão fortemente no Rio Grande do Norte como em outros estados.

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