RAIMUNDA CÍCERO – A ESQUECIDA ARTESÃ DO BARRO DE CAICÓ, NOTÍCIA EM UM DOS GRANDES JORNAIS DO BRASIL

Autor – Rostand Medeiros

Quem observa os antigos jornais do eixo Rio – São Paulo na década de 1970, percebe que não eram muitas as notícias vinculadas sobre o pequeno e distante Rio Grande do Norte.

Normalmente o que a grande imprensa do centro sul do país informava sobre a terra potiguar estava mais focado em desgraças, principalmente as secas, enchentes, alguma coisa de política local e fatos pitorescos desta terra que aparentemente tinha tão pouca representatividade.

Jornal do Brasil, 9 de janeiro de 1978

Por isso me chamou atenção uma interessante reportagem realizada na cidade de Caicó, pela jornalista Lena Frias e o fotografo Alberto Ferreira, do então poderoso Jornal do Brasil, o conhecido JB, do Rio de Janeiro.

Publicada em 9 de janeiro de 1978, não teve como tema central as histórias genealógicas que tanto orgulho causa na elite local, ou as querelas políticas da maior cidade da região do Seridó, ou sobre uma nova enchente, ou uma grande seca.

O que a jornalista Lena buscou e o Alberto focou com sua máquina, foi a história de uma mulher simples, negra, de poucas letras, chamada Raimunda Cícero da Conceição. Uma grande artista do barro tirado daquela terra ressequida pelo sol.

Segundo Jordão de Arimatéia, artista plástico e escultor potiguar, Lena e Alberto vieram a Natal a convite do jornalista Wolden Madruga, para conhecer o trabalho que Jordão realizava no Edifício Rio Mar, que consistia na criação de um grande entalhe de barro e cimento, com 4.000 metros de área. Ao conhecer a jornalista, Jordão lhe narrou vários aspectos interessantes sobre nossas artes e entre estes comentou sobre o trabalho extremamente original de Raimunda Cícero em Caicó.

Jornalista capacitada, Lena percebeu que ali tinha uma grande matéria e com o apoio de Wolden Madruga, foi organizada a viagem a Caicó. Jordão de Arimatéia acompanhou os jornalistas do JB nesta viagem.

UMA ARTESÃ ÚNICA

Raimunda e sua arte

Raimunda Cícero da Conceição nem de Caicó era. Elas nasceu em 1933 e veio ao mundo na paraibana cidade de Bananeiras e um dia (quando ela tinha nove meses) e sem que explicasse a razão, sua família deixou a fértil região do Brejo Paraibano e seguiu para o seco sertão do Seridó Potiguar. Narrou que desde criancinha fazia peças de barro para brincar, sendo ensinada pela sua mãe.

Raimunda recebeu os profissionais de imprensa com um delicioso suco de manga, enquanto espantava seus inúmeros filhos para puder conversar com os estranhos e tentar compreender tanta curiosidade daqueles periodistas pelo seu trabalho artesanal, que ela denominou de “caqueira”.

Segundo a periodista, as louças de barro feitas por Raimunda “sem colégio, nem escola!”, no seu conjunto era “pura harmonia” e possuíam uma “elegância natural” que deixou Lena verdadeiramente embasbacada. Basta ler no que ficou gravado nas páginas do jornal.

Na opinião da jornalista, mesmo sem Raimunda Cícero querer, a sua arte era uma referência, onde a mistura do solo seco e árido do Seridó dava as suas peças de barro uma composição, uma textura, que foi classificada de “fina” e também “única”. Chamou atenção o fato de Raimunda moldar suas peças sem planejamento prévio, sem desenho nenhum. Fazia tudo de “cabeça”.

A artesã contou que para chegar ao ponto ideal de sua matéria prima, buscou misturar areia pilada com barro, mas não deu certo. Depois incorporou flores da caatinga e até tentou uma receita bíblica com leite e mel. Mas a coisa só deu certo quando misturou o barro com a pedra sabão pilada. Segundo a jornalista Lena, a pedra sabão que ela conheceu no Seridó seria mais “mole” que o mesmo tipo de rocha proveniente das Minas Gerais.

Sinceramente, eu nem sabia que existia pedra sabão no Seridó!

FELIZ COM SEU TRABALHO

O resultado daquele trabalho deixava a artesã Raimunda Cícero tão feliz, ao ponto dela comentar que muitas vezes “tinha vontade de chorar” quando uma “loiça” ficava pronta, com sua original cor pardo-avermelhado.

No preparo de suas louças

Consciente da situação de sua família em solo caicoense, Raimunda colocou bem claro para a jornalista que durante muito tempo eles viveram nos sítios dos “brancos”, trabalhando como empregados e ganhando muito pouco.

Ficou nesta situação até 1953, quando veio morar na “rua” de Caicó. Ou seja, se mudou para a zona urbana.

Raimunda, também conhecida na cidade como “Raimunda Coelho”, ou “Raimunda Louceira”, se casou duas vezes. A segunda foi com um cidadão conhecido como Chico Faísca, que no final da década de 1950 seguiu para o Planalto Central e labutou, como milhares de brasileiros, na construção de Brasília.

Neste ponto a história de Raimunda Cícero lembra a de Dona Lindu, a mãe do ex-presidente Lula, que saiu do sertão de Pernambuco levando a filharada, para tentar encontrar o marido que havia seguido para o Sudeste em busca de trabalho e não deu mais sinal de vida para a família no Nordeste. Mas diferente da mãe de Luís Inácio Lula da Silva, que encontrou o marido com outra mulher, a artesã Raimunda Cícero encontrou o seu marido, que havia virado Candango, e retornaram para o sertão potiguar trazendo o primeiro filho – Paulo Roberto.

LUTA PELO RECONHECIMENTO

Na data da entrevista, seu companheiro Chico Faísca tomava conta da “microempresa” que vinha das mãos habilidosas de Raimunda. Ele narrou a jornalista Lena que tinha que ficar ao lado da mulher, pois ela poderia saber fazer as louças, mas não sabia vender. Segundo ele, se deixasse na mão de Raimundo ela era “enganada” devido a sua simplicidade e recebia quase nada pela sua arte.

Mostrando sua arte

Arte esta que já não se restringia apenas as casa dos caicoenses.

Já havia peças de Raimunda Cícero no Rio, São Paulo e até mesmo nos Estados Unidos, Itália e França. Ela já havia participado de exposições em Natal e o seu trabalho já havia proporcionado um aumento na renda familiar.

Segundo a reportagem, na época da entrevista, a família aplicava os ganhos das louças na construção de uma casa no centro da cidade. Mas é relatado que esta mudança não era bem vista por parte de algumas pessoas que viviam na área, que era então considerada o setor mais valorizado da principal cidade seridoense. Essa situação irritou muito Chico Faísca e no início trouxe tristeza a sua família de origem humilde. Mas com o tempo as coisas estavam se acomodando.

A repórter deixou registrado que na época da entrevista, a elite local já considerava de bom alvitre ter aquelas louças de barro originais, como finas peças de decoração nos principais cômodos de suas casas.

Era uma grande mudança. Raimunda e seu marido afirmaram que no início, na feira da cidade, era até difícil que os feirantes  deixassem que eles “arriassem” o balaio com suas peças de barro. Tudo por ser a arte de Raimunda Cícero considerada “diferente” do que era feito na época. Atitude que Chico Faísca classificou como “fanatismo” e que aquilo “não valia de nada”.

Na verdade o que aconteceu com a artesã Raimunda Cícero e a sua original maneira de dar forma ao barro, foi uma situação que até hoje é muito comum em terras potiguares. Aqui, tudo que é feito pelo povo local, principalmente quando vem dos mais humildes, só tem algum valor quando os de fora enaltecem e se curvam diante da originalidade e maestria dos nossos artistas, artífices e artesões. E os de fora não podem ser paraibanos, pernambucanos e nem cearenses. Estes são vizinhos!

Se for alguém da Bahia que enalteça nossa arte popular, pode até ter algum valor. Mas bom mesmo é quando o elogio vem de pessoas que vivem abaixo do paralelo 15, localizado ao sul do equador. Melhor ainda se for do estrangeiro. Aí é coisa fina!

O QUE FICOU?

Mas voltando para 1978. Encontramos a informação que um conjunto normal de peças feito por Raimunda para seus clientes incluía 12 pratos, 12 copos, três travessas, três conchas, uma moringa, uma farinheira, uma molheira e tudo saia por CR$ 600,00 (Seiscentos Cruzeiros). Isso era pouco menos da metade do salário mínimo da época, que estava na faixa de CR$ 1.560,00 (Ver o site – http://www.uel.br/proaf/informacoes/indices/salminimo.htm). Vale frisar que fora de Caicó os preços destas peças disparavam.

No final da reportagem a jornalista Lena informava que Raimunda Cícero não apenas criava e vendia suas peças, mas igualmente transmitia a várias pessoas de sua cidade a sua arte e a sua original maneira de misturar barro e pedra sabão.

Uma das pessoas que aprendeu seu ofício foi certamente o Chico Faísca. Apesar da reportagem do JB não afirmar que ele era artesão, existe uma informação emitida por ocasião de seu falecimento, em decorrência de um aneurisma cerebral, no dia 20 de outubro de 2011, onde o mesmo foi considerado um “famoso artesão de louças” e o seu trabalho era “conhecido em todo Estado e pelo Brasil afora” (Ver – http://www.robsonpiresxerife.com/blog/notas/morreu-chico-faisca-de-caico-o-artesao-da-louca-de-barro/).

Em relação à Raimunda Cícero da Conceição nada mais encontrei e não sei se a sua arte continuou a gerar frutos. Espero que sim.

OS PAIS DA MATÉRIA

Sobre os dois jornalistas que seguiram para Caicó para realizarem esta matéria, descobri que foram duas grandes, talentosíssimas e respeitadas figuras da imprensa nacional.

Lena Frias se chamava Marlene Ferreira Frias e nasceu em 1944. Foi uma das mais importantes jornalistas de música e cultura brasileira. Ligada ao samba e choro, mas sobretudo a cultura brasileira em geral. Seus trabalhos primavam pela pesquisa e a importância do tema para sociedade. Seus artigos evidenciavam um saber de quem percorria o Brasil de ponta-a-ponta. Considerava a cultura Brasileira um valor de identidade. Dedicava-se a tudo que pudesse revelar as matrizes desta identidade.

Em foto de Regina Zappa, vemos Lena Frias (a direita, com os braços cruzados) em uma comemoração na redação do JB. Fonte – http://albumfotojotabeniano.blogspot.com.br/2010/07/lena-frias-reporter-do-caderno-b-faz.html

Trabalhando no Jornal do Brasil, foi autora nos anos de 1970, de reportagens de grande profundidade e de alto teor investigativo sobre a Cidade de Deus (comunidade na Zona Oeste do Rio de Janeiro), sobre o fenômeno do Black-Rio (black-music criada no Rio de Janeiro na década de 1970; formada pela mistura do funk, soul, samba e jazz), dentre diversas outras pérolas do jornalismo no período.

Era divulgadora e entusiasta de artistas populares como Clementina de Jesus, Candeias, dentre diversos outros. Com Hermínio Bello de Carvalho e Nei Lopes escreveu o livro Mãe Quelé, sobre a vida e obra de Clementina de Jesus. Militante incansável da cultura afro-brasileira, Lena levava este conhecimento ao público através de um texto refinado e recheado de cadência.

Faleceu de câncer de mama a 12 de maio de 2004. (Ver – http://www.mulher500.org.br/acervo/biografia-detalhes.asp?cod=47).

Já o fotografo Alberto Ferreira, nascido na Paraíba, foi editor de fotografia do Jornal do Brasil entre 1966 e 1988, tendo chegado ao diário quatro anos antes. Alberto ganhou o Prêmio Esso de Fotografia de 1963 com a foto “O rei se curva ante a dor que todo o Brasil sentiu”, registrando a contusão de Pelé no jogo contra a Tchecoslováquia, na Copa de 1962. Em 1965, compensou o registro da dor de Pelé com a foto de uma majestosa bicicleta, em jogo contra a Bélgica, no Maracanã. Esta imagem (abaixo) virou selo dos Correios.

Famosa foto de Alberto Ferreira

Alberto faleceu em 2007. (Ver – http://portal.comunique-se.com.br/index.php/editorias/3-imprensa-a-comunicacao-/58754-morre-alberto-ferreira-fotografo-do-jb-por-25-anos.html#).

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