FOTOS DA PRISÃO DE ANTÔNIO SILVINO

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A prisão de Antônio Silvio em 1914

O aprisionamento de Lampião não se me afigura impossível. Nada importa diga ele que prefere a morte. Antônio Silvino também o dizia, mas, apenas se viu baleado, foi o primeiro em fazer questão de mansamente se entregar à justiça. Restabelecido ulteriormente, voltaram-lhe no presídio os ímpetos brutais, como na manhã em que, entre descomposturas do calão mais vil, sacudiu um pão na cara de um desembargador.

Antonio Silvino preso.

Antônio Silvino preso.

Quando a captura de Lampião parece a tanta gente sonho irrealizável, vem a propósito recordar como se deu a de seu terrível predecessor.

O que desgraçou Antônio Silvino foi a perseguição sem tréguas que lhe moveu uma de suas vítimas mais humildes. Bem diz o povo que “não há inimigo pequeno” e que “mutuca é que tira boi do mato”…

Sargento Alvino, promovido a alferes após a captura de Antonio Silvino

Sargento Alvino, promovido a alferes após a captura de Antonio Silvino

José Alvino Correia de Queiroz era obscuro comerciante no sertão de Pernambuco, quando Antônio Silvino lhe saqueou o pequeno estabelecimento. Reduzido à miséria, jurou vingar-se e entrou a polícia daquele Estado. Acreditaram nos seus propósitos e fizeram-no sargento.

Inteirado de que Silvino transitaria por certa faixa do município de Taquaritinga, o Sargento Alvino buscou informações de João Vicente e Joaquim Pedro, moradores naquelas paragens. Ambos negaram a pés juntos ter qualquer conhecimento a respeito. Mas, tão jeitosamente o miliciano conduziu as investigações, que a esposa de João Vicente o orientou:

- Quando o Sr. chegar à casa de nosso vizinho, o Joaquim Pedro, e encontrar as mulheres torrando galinhas ou fazendo comedoria de sobra, pode apertar o pessoal que o “capitão” Antônio Silvino está escondido perto, no mato…

O oficial Theophanes Ferraz Torres, comandante da volante que capturou Silvino. Valente e destemido, seria um grande perseguidor de Lampião.

O oficial Theophanes Ferraz Torres, comandante da volante que capturou Silvino. Valente e destemido, seria um grande perseguidor de Lampião.

No dia esperado, 27 de novembro de 1914, os policiais, sob o comando do Alferes Teófanes Torres e do Sargento José Alvino, estavam no local referido, de nome Lagoa Laje.

Assim que penetrou na residência de Joaquim Pedro, o Sargento Alvino se encaminhou diretamente para a cozinha, atrás de cuja porta se lhe deparou pendurada uma banda de ovelha. E viu chegar desconfiado, pelo quintal, um rapazola com um tabuleiro à cabeça, cheio de tigelas, colheres e pratos. Interrogado, o recém-vindo explicou, titubeante, que havia ido deixar comida a uns “trabalhadores”, num roçado.

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Concomitantemente, o Alferes Teófanes submetia Joaquim Pedro a interrogatório, e este negava que soubesse do paradeiro de Silvino.

Aparece o sargento e, depois de falar na ovelha morta e de mostrar o tabuleiro com os restos de comida, pede permissão para forçar o velho sertanejo a não continuar mentindo. Ato contínuo, tranca-lhe, numa alcova, a mulher e os filhos e ordena que os soldados desembainhem os sabres.

Nos antigos jornais e revista por mim pesquisados, esta foto consta como sendo a força policial que lutou e capturou Antonio Silvino, mas muitos pesquisadores apontam como sendo o próprio bando de Antonio Silvino.

Nos antigos jornais e revista por mim pesquisados, esta foto consta como sendo a força policial que lutou e capturou Antonio Silvino, mas muitos pesquisadores apontam como sendo o próprio bando de Antonio Silvino.

Nesse momento, mais nervosa, uma filha do ameaçado pede, da alcova:

- Meu pai, por caridade, descubra logo!

Joaquim Pedro roga que não lhe batam e justifica-se, alegando que logo não disse a verdade por temer a vingança de Silvino, no caso de a polícia o não prender ou matar. E confessa que o celerado está escondido não longe dali.

Eram cinco horas da tarde e urgia assaltar os cangaceiros, antes que a noite sobreviesse.

Também nos jornais de época esta mulher foi apresentada como Antônia de Arruda, amante de Silvino.

Também nos jornais de época esta mulher foi apresentada como Antônia de Arruda, amante de Silvino.

Sob as ameaças de ser liquidado, se desse o menor sinal aos bandidos, Joaquim Pedro vai mostrar o esconderijo deles. Com todas as precauções imagináveis, a tropa se aproxima da malta criminosa.

Antônio Silvino estava deitado numa pedra, sobre a qual se debruçava copada oiticica. Perto, divertiam-se alguns de seus cabras, a jogar um sete-e-meio. Ao ouvir a primeira descarga, Silvino gritou, motejante:

Ferimentos de Antonio Silvino após a sua captura.

Ferimentos de Antônio Silvino após a sua captura.

- Espera aí, rapaziada! Deixem, ao menos, os menino acabar esta mão!

Mas o fogo irrompeu violento e sem intermitências, dos dois lados.

Com o cair da noite, o tiroteio deixou de ser correspondido. O Alferes Teófanes e o Sargento Alvino acreditaram que Silvino tivesse fugido. Suspeitando, todavia, que ele se quisesse vingar de Joaquim Pedro, foram entrincheirar-se na casa deste.

Antonio Silvino já com o uniforme da prisão.

Antônio Silvino já com o uniforme da prisão.

Coisa bem diversa se passava. Silvino fora atingido por uma bala nas espáduas e o seu companheiro Joaquim Moura tivera quebrada uma perna. Os demais cangaceiros se embrenharam, desorientados, na caatinga, favorecidos pelo negrume da noite.

Estando a perder muito sangue, Silvino convidou Joaquim Moura a se entregarem, mas este repelira o convite e, depois de dizer que macaco do Governo não tinha o gosto de botar-lhe as mãos em riba, ele vivo, suicidou-se com um tiro na cabeça.

Outra foto do oficial Ferraz.

Outra foto do oficial Ferraz.

Impressionado ainda mais com o trágico fim do último assecla que lhe restava, Silvino despojou-se das armas e arrastou-se para a casa da mulher que ele ignorava tivesse sido quem o denunciara. O marido dela, João Vicente, a estava censurando por sua leviandade, persuadido de que Silvino, sabedor da denúncia, lhes não perdoaria.

De repente, batem à porta. Quando, de fora, uma voz anuncia que quem bate é Antônio Silvino, João Vicente encomenda a alma a Deus, convicto de que vai morrer. É sua mulher quem se afoita a atender ao chamamento.

Aqui outra imagem do sargento Alvino.

Aqui outra imagem do sargento Alvino.

Ao se abrir a porta, aparece, à luz da lamparina, o vulto do grande salteador. Quase desfalecido e com as vestes rubras de sangue, Silvino está escorado no portal.

- Capitão, que horror é este?

- Mataram-me… arqueja aquele que, acovardado, começava a expiar crimes sem conta.

Conduzido a uma rede, ele pede que chamem a polícia. Vai alguém a Taquaritinga, mas não encontra lá os soldados. Na confusão em que todos se viam, ninguém a princípio se apercebeu de que os policiais poderiam estar pernoitando na fazenda de Joaquim Pedro. À mulher de João Vicente ocorre agora essa possibilidade. Despacham para ali o portador. Quando este bate à porta de Joaquim Pedro, os soldados aperram as armas, crentes de que é Silvino quem chega. Aberta a muito custo uma janela, o mensageiro dá contas de sua incumbência: vem avisar que Antônio Silvino, sozinho, desarmado e gravemente ferido, está em casa de João Vicente e quer entregar-se à prisão.

Expectativa para a chegada do famoso bandoleiro nordestino na Casa de Detenção de Recife.

Expectativa para a chegada do famoso bandoleiro nordestino na Casa de Detenção de Recife.

O Alferes Teófanes suspeita que se trate duma cilada e opina que se aguarde o raiar do dia. Tanto insiste, porém, o Sargento Alvino que, afinal, o seu comandante se dispõe a ir ver Silvino. Ainda assim, o recadista vai seguro pelos cós e advertido de que receberá uma punhalada, ao primeiro tiro com que a tropa seja surpreendida.

Cercada com cautelas a morada de João Vicente, houve grande alegria, quando se patenteou aos olhos de seus perseguidores a mísera situação daquele que se gabava de que, embora sem saber ler, governava todo o sertão! O Sargento Alvino parecia o mais contente. Exigiu que se não fizesse o menor mal a Antônio Silvino e saiu, pelos matos, a cortar umas folhas de quixabeira para lhe lavar as feridas.

Fora destronado o Átila bronco que, durante dois decênios, apavorara a gente matuta do meio-norte e assoalhava não ser passarinho que morasse entre grades… Por trinta anos ia se fechar atrás dele o portão da Penitenciária de Recife!

Multidão a frente da Estação Central do Recife na chegada do famoso cangaceiro.

Multidão a frente da Estação Central do Recife na chegada do famoso cangaceiro.

Foi à tenacidade do Sargento Alvino, à sua argúcia e vontade firme de vingança que se deveu a prisão de Antônio Silvino. Forçoso é, porém, reconhecer que colaborou inestimavelmente nisso a indiscrição duma mulher.

Acontecerá o mesmo, algum dia, a Lampião? Até na ruína dos cangaceiros terá aplicabilidade o cherchez la femme.

Texto acima é do Cearense Leonardo Mota, inserido no seu livro “No tempo de Lampião” e publicado pela Of. Industrial Gráfica, do Rio de Janeiro, em 1931. Esta reprodução é da segunda edição, de 1967. Leonado Mota era cearense da cidade de Pedra Branca, nasceu em 1891 e faleceu em 1948. Estudou a fundo o sertão nordestino, onde descreveu vários aspectos da região em obras memoráveis. 

Antes de Lampião, Antônio Silvino era o cangaceiro mais famoso e seu apelido mais conhecido foi “Rifle de Ouro”. Nascido no dia 2 de dezembro de 1875, em Afogados da Ingazeira, Manoel Batista de Morais entrou para a história como Antonio Silvino. Durante 16 anos, driblou a polícia, praticou saques e assassinou inimigos, mas era tratado pelos poetas populares como um “herói” por respeitar as famílias. A invencibilidade de Silvino terminou no dia 27 de novembro de 1914, quando ocorreu o seu último tiroteio com a polícia. Atingido no pulmão direito, conseguiu se refugiar na casa de um amigo e disse que ia se entregar. Da cadeia de Taquaritinga seguiu, dentro de uma rede, até a estação ferroviária de Caruaru, onde um trem especial da Great Western o levou para o Recife. Uma multidão o aguardava na Casa de Detenção, atual Casa da Cultura. Antonio Silvino tornou-se o detento número 1.122, condenado a 239 anos e oito meses de prisão. Em 4 de fevereiro de 1937, depois de vinte e três anos, dois meses e 18 dias de reclusão, foi indultado pelo presidente Getúlio Vargas. O ex-rei do cangaço morreu em 30 de julho de 1944, em Campina Grande, na casa de uma prima.

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FOTOS DO CANGACEIRO ANTÔNIO SILVINO NO RIO

O ex-cangaceiro Antônio Silvino (marcado na foto), desembarcando do navio "Conte Grande" no porto do Rio de Janeiro e chamando muita atenção.

O ex-cangaceiro Antônio Silvino (marcado na foto) no porto do Rio de Janeiro e chamando muita atenção. Ele desembarcou do navio italiano SS Conte Grande, da empresa de navegação Lloyd Sabaudo Line.

Autor – Rostand Medeiros

Algum tempo após a sua libertação da Casa de Detenção em Recife, o agora ex-cangaceiro Antônio Silvino esteve visitando o Rio de Janeiro, então Capital Federal. Vejam algumas fotos.

O prisioneiro Manuel Baptista de Morais, o Antônio Silvino

O prisioneiro Manuel Baptista de Morais, o Antônio Silvino

Deixando a detenção em Pernambuco

Deixando a detenção em Pernambuco

Antônio Silvino prestes a desembarcar

Antônio Silvino prestes a desembarcar

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Quando esteve no Rio, houve um encontro entre Antônio Silvino e Getúlio Vargas, onde o ex-cangaceiro pediu um emprego.

Quando esteve no Rio, houve um encontro entre Antônio Silvino e Getúlio Vargas, onde o ex-cangaceiro pediu um emprego.

Quando foi entrevistado pelos jornalistas cariocas, o velho cangaceiro contou como realizou uma interessante mudança urbanística na pequena vila potiguar de Jardim de Piranhas. Vejam a íntegra da notícia.

Quando foi entrevistado pelos jornalistas cariocas, o velho cangaceiro contou como realizou uma interessante mudança urbanística na pequena vila potiguar de Jardim de Piranhas. Vejam a íntegra da notícia.

Antônio Silvino faleceu em 1944, em Campina Grande

Antônio Silvino faleceu em 1944, em Campina Grande

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LINK PARA O PROGRAMA CAMINHOS DA REPORTAGEM E A ROTA DO CANGAÇO – TV BRASIL

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PROGRAMA ROTA DO CANGAÇO, CAMINHOS DA REPORTAGEM, TV BRASIL – AQUI CONVIDO A TODOS A ASSISTIREM UM INTERESSANTE TRABALHO QUE TIVE A HONRA DE PARTICIPAR. PERCORRI COM MARAVILHOSOS AMIGOS OS CAMINHOS DO SERTÃO NOS RASTROS DOS CANGACEIROS.

MAIS DE 50 MINUTOS DE CENAS INTERESSANTES, PARA AQUELES QUE DESEJAM CONHECER O ESTRANHO MUNDO DOS CANGACEIROS.

PARA ASSISTIR É SÓ CLICAR QUE VOCÊ VAI A PÁGINA DO PROGRAMA CAMINHOS DA REPORTAGEM, DAÍ É SÓ DESCER A BARRA DE ROLAGEM LATERAL, QUE VOCÊ VAI VER UM QUADRO COM UMA SETA. DAÍ É SÓ CLICAR E CURTIR O PROGRAMA…

http://tvbrasil.ebc.com.br/caminhosdareportagem/episodio/a-rota-do-cangaco

RECENTEMENTE PUBLIQUEI  EM NOSSO BLOG DOIS MATERIAIS SOBRE ESTA VIAGEM COM O PESSOAL DA TV BRASIL A PERNAMBUCO.

http://tokdehistoria.wordpress.com/2013/08/29/junto-com-a-tv-brasil-nas-trilhas-de-lampiao-em-pernambuco-ii/

http://tokdehistoria.wordpress.com/2013/07/18/junto-com-a-tv-brasil-nos-caminhos-de-lampiao-em-pernambuco/

Toda a galera reunida no alto da serra

Toda a galera reunida no alto da serra

PARABÉNS A TODA EQUIPE DA TV BRASIL QUE ESTIVERAM CONOSCO NO SERTÃO PERNAMBUCANO, OS AMIGOS CARINA DOURADO, OSVALDO SANTOS E ALEXANDRE SOUZA. SÃO ELES PROFISSIONAIS COMPETENTES, PESSOAS SIMPLES, DE FINO TRATO, QUE EXPANDEM EXTREMA ALEGRIA E UM FORTE SENTIDO DE PARCERIA. FOI BOM ESTAR NA ESTRADA COM VOCÊS E O RESULTADO DE NOSSA UNIÃO FOI MUITO POSITIVO. EVIDENTEMENTE QUE ESTENDO MEUS MAIS SINCEROS AGRADECIMENTOS AOS AMIGOS ALEXANDRE MORAIS, GRANDE POETA DA BELA CIDADE DE AFOGADOS DA INGAZEIRA E AO NOBRE BATALHADOR ALVARO SEVERO, UMA PESSOA DE MUITA VISÃO. COM CERTEZA VAMOS NOS ENCONTRAR NESTE NOSSO SERTÃO. QUERO DEIXAR MEUS ESPECIAIS AGRADECIMENTOS AO MEU GRANDE AMIGO, PARCEIRÃO NA BUSCA DA HISTÓRIA, O NOBRE ANDRÉ VASCONCELOS, A QUEM SOU ETERNAMENTE GRATO PELO ENORME APOIO QUANDO ESTOU NO PAJEÚ QUERIDO.

FOI MARAVILHOSO!

UM FORTE ABRAÇO A TODOS!

JUNTO COM A TV BRASIL NAS TRILHAS DE LAMPIÃO EM PERNAMBUCO II

Contando a história da Fazenda Colônia, onde nasceu o cangaceiro Antônio Silvino

Contando a história da Fazenda Colônia, onde nasceu o cangaceiro Antônio Silvino

NO PRÓXIMO DIA 5 DE SETEMBRO, PELA TV BRASIL, ÁS 10 HORAS DA NOITE, VAI SER TRANSMITIDO UM PROGRAMA ESPECÍFICO SOBRE O TEMA CANGAÇO, AO QUAL TIVE O GRANDE HONRA E PRIVILÉGIO DE PARTICIPAR.

O PROGRAMA CAMINHOS DA REPORTAGEM É BEM INTERESSANTE, SÃO JORNALISTAS QUE VIAJAM PELO PAÍS E PELO MUNDO ATRÁS DE GRANDES HISTÓRIAS, TRAZENDO AO TELESPECTADOR UMA VISÃO DIFERENTE, INSTIGANTE E COMPLEXA DE CADA UM DOS ASSUNTOS ESCOLHIDOS. OS JORNALISTAS A QUEM TIVE A OPORTUNIDADE DE CONHECER E QUE TIVE OPORTUNIDADE DE ACOMPANHAR POR ESTES CAMINHOS DO CANGAÇO FORAM A CARINA DOURADO, OSVALDO SANTOS E ALEXANDRE SOUZA.

EM JULHO ÚLTIMO PUBLIQUEI EM NOSSO BLOG, UM PRIMEIRO MATERIAL SOBRE ESTA VIAGEM COM O PESSOAL DA TV BRASIL A PERNAMBUCO, ONDE OS AMIGOS DO NOSSO TOK DE HISTÓRIA (http://tokdehistoria.wordpress.com/2013/07/18/junto-com-a-tv-brasil-nos-caminhos-de-lampiao-em-pernambuco/)

AGORA TRAGO UMA SEGUNDA MOSTRA DE FOTOS DESTA AÇÃO MARAVILHOSA, COM FOTOS CEDIDAS PELOS AMIGOS OSVALDO SANTOS E ALEXANDRE SOUZA.

Este é o grande amigo Braz de Buíque, da Serra da Colônia. Uma grande figura. Neste dia ele estava seguindo montado para uma missa de vaqueiros na vizinha Paraíba, mas deu um ótimo depoimento.

Este é o grande amigo Braz de Buíque, da Serra da Colônia. Uma grande figura. Neste dia ele estava seguindo montado para uma missa de vaqueiros na vizinha Paraíba e deu um ótimo depoimento

Uma panorâmica da região da Fazenda Colônia. Um ótimo local para um filme de época.

Uma panorâmica da região da Fazenda Colônia. Um ótimo local para um filme de época. É só esconder o poste que está um visual original e bem característico das fazendas do passado do Nordeste.

Esta é a Casa Grande das Almas, propriedade que está situada na área rural de Triunfo (PE), na divisa dos estados de Pernambuco com a Paraíba. Sobre este local podemos comentar que é que parte da casa está em Pernambuco, do outro lado é a Paraíba. Dizem que Lampião, era amigo dos proprietários e gostava de jogar cartas neste local. Afirma-se que quando perseguido na região abrigava-se nas Almas, daí,quando a polícia de pernambuco chegava ali, o rei do cangaço passava para o lado paraibano da casa , onde a policia pernambucana não podia atuar, e quando era perseguido pelos paraibanos, fazia o contrário

Esta é a Casa Grande das Almas, propriedade que está situada na área rural de Triunfo (PE), na divisa dos estados de Pernambuco com a Paraíba. Sobre este local podemos comentar que é que parte da casa está em Pernambuco, do outro lado é a Paraíba. Dizem que Lampião, era amigo dos proprietários e gostava de jogar cartas neste local. Afirma-se que quando perseguido na região abrigava-se nas Almas, daí,quando a polícia de pernambuco chegava ali, o rei do cangaço passava para o lado paraibano da casa , onde a policia pernambucana não podia atuar, e quando era perseguido pelos paraibanos, fazia o contrário.

Osvaldo filmando as Almas

Osvaldo filmando as Almas

Na bela cidade serrana de Triunfo. O grande prédio antigo na foto é o cine teatro Guarany, cujo administrador é nosso amigo André Vasconcelos

Na bela cidade serrana de Triunfo. O grande prédio antigo na foto é o cine teatro Guarany, cujo administrador é nosso amigo André Vasconcelos. Outra grande figura.

Aqui a Carina, Osvaldo estão juntos ao grupo de Xaxado de Triunfo e a nossa amiga Diana, grande batalhadora pela cultura de sua região.

Aqui a Carina, Osvaldo estão juntos ao grupo de Xaxado de Triunfo e a nossa amiga Diana, grande batalhadora pela cultura de sua região. Diana é uma grande incentivadora da participação dos jovens de sua cidade neste grupo de Xaxado, a dança dos cangaceiros.

Pelos caminhos do sertão, só não sei o que a Carina estava procurando.

Pelos caminhos do sertão, junto aos amigos André Vasconcelos e Carina Dourado. Só não sei o que a Carina estava procurando!

Na Fazenda Barreiros, de propriedade do amigo Alvaro Severo, na zona rural de Serra Talhada, próximo da Serra Grande, onde ocorreu um dos mais importantes e maior combate da história do cangaço

Na Fazenda Barreiros, de propriedade do amigo Alvaro Severo, na zona rural de Serra Talhada, próximo da Serra Grande, onde ocorreu um dos mais importantes e maior combate da história do cangaço

Pelos caminhos da Serra Grande, tendo a frente o Seu Luiz, sertanejo de grande coração, que conhece tudo da fauna e flora da caatinga.

Pelos caminhos da Serra Grande, tendo a frente o Seu Luiz, sertanejo de grande coração, que conhece tudo da fauna e flora da caatinga. Estando com ele o turista não passa fome nesta região

Seu Luiz mostrando os segredos da flora do sertão, úteis a sobrevivência em uma região seca

Seu Luiz mostrando os segredos da flora do sertão, úteis a sobrevivência em uma região seca

Panorâmica da Serra Grande. Quase sete horas de caminhada, entre subidas e descidas.

Panorâmica da Serra Grande. Quase sete horas de caminhada, entre subidas e descidas.

Outro visual da serra

Outro visual da serra

Outra parada para conhecer a flora da caatinga

Outra parada para conhecer a flora da caatinga

Deu para aprender bastante

Deu para aprender bastante

No alto da serra, junto com nosso animal de estimação, o pequinês que a tudo escutava. Era um microfone na mão do Fred, outro grande companheiro de viagem.

No alto da serra, junto com nosso animal de estimação, o pequinês que a tudo escutava. Era um microfone na mão do Fred, outro grande companheiro de viagem.

O amigo Alvaro Severo, que desenvolve um maravilhoso projeto de aproveitamento ecoturístico na região, com intensa participação do pessoal do local, comentado sobre a grande luta no alto da serra

O amigo Alvaro Severo, que desenvolve um maravilhoso projeto de aproveitamento ecoturístico na região, com intensa participação do pessoal do local, comentado sobre a grande luta no alto da serra

Toda a galera reunida no alto da serra

Toda a galera reunida no alto da serra

Bem, depois da Serra Grande eu voltei para casa, mas a galera da TV Brasil seguiu viagem. Estiveram na cidade baiana de Paulo Afonso, onde nosso amigo João de Souza Lima, grande pesquisador do cangaço, autor de livros, apresentou a região aos jornalistas. João é uma grande figura, a quem tenho extremo respeito

Bem, depois da Serra Grande eu voltei para casa, mas a galera da TV Brasil seguiu viagem. Estiveram na cidade baiana de Paulo Afonso, onde nosso amigo João de Souza Lima, grande pesquisador do cangaço, autor de livros, apresentou a região aos jornalistas. João é uma grande figura, a quem tenho extremo respeito pela pessoa e seu trabalho. João mostra a cruz que marca o local da morte de Antônio Curvina. Para saber mais, assista o programa dia 5 de setembro, na TV Brasil, ás 10 da noite

Osvaldo em frente a casa de Maria Bonita, que foi fielmente restaurada e hoje é local de visitação

Osvaldo em frente a casa de Maria Bonita, que foi fielmente restaurada e hoje é local de visitação

Os amigos Osvaldo e Alexandre Souza entrevistando Seu Coquinho. Ele contou ótimas histórias sobre Lampião e seu bando Ele reside no povoado Brejo do Burgo, Bahia

Os amigos Osvaldo e Alexandre Souza entrevistando Seu Coquinho. Ele contou ótimas histórias sobre Lampião e seu bando Ele reside no povoado Brejo do Burgo, Bahia

Local próximo da casa onde Lampião costumava fazer seus bailes

Local próximo da casa onde Lampião costumava fazer seus bailes

No próximo dia 5 de setembro, ás 10 da noite, na TV Brasil, vamos ver o resultado deste trabalho. Um abração a todos

No próximo dia 5 de setembro, ás 10 da noite, na TV Brasil, vamos ver o resultado deste trabalho. Um abração a todos

JUNTO COM A TV BRASIL NAS TRILHAS DE LAMPIÃO EM PERNAMBUCO

Diante da centenária capela da Fazenda Colônia, onde nasceu o cangaceiro Antônio Silvino. Da esq. para a dir. Carina Dourado, André Vasconcelos, Osvaldo Alves, o autor deste blog e Alexandre Souza

Diante da centenária capela da Fazenda Colônia, onde nasceu o cangaceiro Antônio Silvino. Da esq. para a dir. Carina Dourado, André Vasconcelos, Osvaldo Alves, o autor deste blog e Alexandre Souza

Na última semana tive oportunidade de percorrer o nosso sertão nordestino para estar junto com o pessoal da TV BRASIL, de Brasília, fazendo parte do programa “CAMINHOS DA REPORTAGEM” sobre o Cangaço e Lampião.

A Equipe era composta pela repórter brasiliense Carina Dourado, o cinegrafista goiano Osvaldo Alves e o auxiliar técnico carioca Alexandre Souza e o motorista Fred Silva, este do Ceará. Todos pessoas maravilhosas, ótimos companheiros de jornada e unidos na busca da informação. Foi uma honra estar com eles.

As cangaceiras do grupo folclórico de xaxado de Triunfo

As cangaceiras do grupo folclórico de xaxado de Triunfo

No sertão pernambucano estivemos juntos em Triunfo, Afogados da Ingazeira e em uma fazenda em Carnaíba e outra em Serra Talhada. Todos locais incríveis, alguns sendo revisitados e outros sendo descobertos.

Mas especialmente em Serra Talhada ficamos hospedados na Fazenda Barreiros, onde passamos ótimos momentos junto com o proprietário, o fotojornalista Álvaro Severo, uma grande figura que produz cultura no nosso sertão e com muitas ideias fantásticas.

Cangaço - História e cultura nordestina

Cangaço – História e cultura nordestina

Nesta propriedade seguimos para a Serra Grande, palco do maior combate da história do cangaço no Brasil, onde Lampião, segundo algumas fontes, contava com 85 homens no seu bando e venceu várias volantes que totalizavam 300 policiais. Foram 900 metros de altitude (Mais elevada que a Serra de Martins) que tivemos de encarar e assim compreender o que ocorreu neste local em novembro de 1926. A Fazenda Barreiros está localizada a 38 km de Serra Talhada, possui 1.200 hectares, dos quais 800 são área de preservação permanente. Na grutas da Serra Grande, esconderijo de cangaceiros armas e utensílios tem sido encontradas ao longo dos anos pelo pessoal da fazenda e agora pertencem a coleção privada do Álvaro Severo (Autorizado pelo Exército). Ali já acharam até uma máquina de costura que os cangaceiros utilizavam para consertar seus uniformes. O Álvaro trabalha duro para criar um museu e uma pousada rústica para que os visitantes compreendam o que é o sertão, sua gente e sua história.

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Foram 1.400 km de estrada, ida e volta do Pajeú, queimando trecho, comendo onde dava, andando em estrada esburacada, subindo serra, quebrando mato, deixando a família em Natal a pé e na casa de parentes. Mas descobrir estes locais, é igual a propaganda do Mastercard,…Não tem preço!

Início da minha viagem, passando por Santa Cruz-RN e a grande estátua da padroeira da cidade

Início da minha viagem, passando por Santa Cruz-RN e a grande estátua da padroeira da cidade

Em Soledade-PB, buscando o caminho

Em Soledade-PB, buscando o caminho

Fazendas centenárias do sertão

Fazendas centenárias do sertão

Em Taperoá-PB, a lembrança da obra do grande Ariano Suassuna

Em Taperoá-PB, a lembrança da obra do grande Mestre Ariano Suassuna

Finalmente em Triunfo-PE e seu maravilhoso e diferente friozinho sertanejo

Finalmente em Triunfo-PE e seu maravilhoso e diferente friozinho sertanejo

Juntos André e Carina transmitindo para os telespectadores as histórias da "Casa das Almas" de Triunfo. Dizem que a fronteira da Paraíba e de Pernambuco passa no meio desta casa e que na época do cangaço Lampião podia ficar em um dos lados da fronteira dentro da casa que a polícia não o perturbava. Será?

Juntos André e Carina transmitindo para os telespectadores as histórias da “Casa das Almas” de Triunfo. Dizem que a fronteira da Paraíba e de Pernambuco passa no meio desta casa e que na época do cangaço Lampião podia ficar em um dos lados da fronteira dentro da casa que a polícia não o perturbava. Será?

Filmado em Triunfo o grupo de xaxado organizado pela amiga e pesquisadora triunfense Diana Pontes

Filmado em Triunfo o grupo de xaxado organizado pela amiga e pesquisadora triunfense Diana Pontes

Em Afogados da Ingazeira, na praça principal, junto com o jovem poeta Alexandre Morais, que criou e declamou um maravilhoso poema sobre Antônio Silvino

Em Afogados da Ingazeira, na praça principal, junto com o jovem poeta Alexandre Morais, que criou  especialmente para o programa um maravilhoso poema sobre Antônio Silvino

A caminho da Fazenda Colônia, onde nasceu Antônio Silvino

A caminho da Fazenda Colônia, onde nasceu Antônio Silvino

Casa Grande da Fazenda Colônia, onde nasceu Manoel Baptista de Morais, futuro "Rifle de Ouro", cangaceiro Antônio Silvino

Casa Grande da Fazenda Colônia, onde nasceu Manoel Baptista de Morais, futuro “Rifle de Ouro”, cangaceiro Antônio Silvino

Reencontrando o amigo Braz de Buíque, grande vaqueiro, afamado na sua ribeira e homem simples por natureza

Reencontrando o amigo Braz de Buíque, grande vaqueiro, afamado na sua ribeira e homem simples por natureza

Centenária moenda de cana da Fazenda Colônia

Centenária moenda de cana da Fazenda Colônia

Procurando transmitir o que aprendi desde a primeira vez que aaqui vim, em 2008, com o amigo, pesquisador e escritor Sérgio Dantas, que escreveu o melhor livro biográfico sobre Antônio Silvino

Procurando transmitir o que aprendi desde a primeira vez que aqui vim, em 2008, com o amigo, pesquisador e escritor Sérgio Dantas, que após esta visita escreveu o melhor livro biográfico sobre a vida do cangaceiro Antônio Silvino

A Fazenda Colônia é um local que parou no tempo e daria um ótimo local para filmagens de época

A Fazenda Colônia é um local que parou no tempo e daria um ótimo local para filmagens de época

A noite na Fazenda Barreiros, zona rural de Serra Talhada. A galera animada para a Serra Grande

A noite na Fazenda Barreiros, zona rural de Serra Talhada. A galera animada para a Serra Grande

O Alexandre, carioca da Tijuca, deleitando a todos com o puro chorinho em pleno sertão

O Alexandre, carioca da Tijuca, deleitando a todos com o puro chorinho em pleno sertão

Armas de fogo, munições e armas brancas encontradas em grutas que serviram de abrigo aos cangaceiros na Serra Grande

Armas de fogo, munições e armas brancas encontradas em grutas que serviram de abrigo aos cangaceiros na Serra Grande

Serra Grande, local do maior combate do cangaço

Serra Grande, local do maior combate do cangaço

Típico café sertanejo

Típico café sertanejo…..

Degustando um maravilhoso queijo, ao lado do amigo Álvaro Severo, proprietário da Fazenda Bezerros.

Degustando um maravilhoso queijo, ao lado do amigo Álvaro Severo, proprietário da Fazenda Bezerros.

André e os carros de bois típicos do Pajeú

André e os carros de bois típicos do Pajeú

Instruções para encarar a subida com o guia local

Instruções para encarar a subida com o guia local

Pelas mesmas trilhas dos cangaceiros

Pelas mesmas trilhas dos cangaceiros

A caminho

A caminho

No meio da mata

No meio da mata

Como se diz - "Rapadura é doce, mas não é mole não!"

Como se diz – “Rapadura é doce, mas não é mole não!”

Não foi fácil..

Não foi fácil..

..Mas no final tranquilos e realizados com o esforço.

..Mas no final tranquilos e realizados com o esforço.

Carina e seu achado...

Carina e seu achado…

O retorno...

O retorno…

No final junto com as crianças do Pajeú

No final junto com as crianças do Pajeú

Um grande agradecimento ao amigo André Vasconcelos pelo apoio e atenção no sertão do Pajeú. Já duas vezes que viajo com André e a nossa convivência e trabalho foram enormemente positivos. Eu fui contatado pelo pessoal da TV Brasil por conta do nosso blog TOK DE HISTÓRIA e os textos que aqui se encontra sobre o cangaço e eu fiz questão de contatar o André e colocá-lo na produção. Ele teve um ótimo espaço no programa apresentando a sua cidade (a famosa “Casa das Almas” e uma residência que nunca foi mostrada na imprensa e serviu para Lampião se recuperar do tiro no pé em 1924). Trabalhamos juntos e foi muito bom, ele é uma grande figura e, se Deus quiser, vamos repetir a dose em breve!

O grande André, extremo conhecedor do tema cangaço na região e um ótimo violeiro. Sem sua ajuda a gente não conseguiria

O grande André, extremo conhecedor do tema cangaço na região e um ótimo violeiro. Sem sua ajuda a gente não conseguiria

Foi em dezembro de 2010 que criei o TOK DE HISTÓRIA, com a ideia de ter um espaço na internet para escrever sobre coisas que gosto, sempre buscando democratizar a informação histórica. Nunca ganhei um centavo com este trabalho, mas o que ganhei em informações, conhecimento e principalmente amigos, já perdi as contas.

Rostand Medeiros

CONHECENDO O MUSEU DO HOMEM DO CURIMATAÚ, EM CUITÉ-PB

Entrada do Museu do Homem do Curimataú

Entrada do Museu do Homem do Curimataú

E UMA PEQUENA HISTÓRIA ENVOLVENDO O CANGAÇO

Recentemente tive a oportunidade de seguir viagem através da Microrregião do Curimataú Ocidental, no Estado da Paraíba, onde passei pelo município de Cuité. Com uma população que atualmente supera os 26.000 habitantes Cuité tem muita história, tendo sido fundado a 245 anos, onde sempre possuiu uma ligação muito forte e intensa com o Seridó Potiguar.

Não tinha intenção de parar, mas, ao tomar o caminho que segue para a cidade de Campina Grande, me deparei com uma interessante edificação pintada de verde, que me lembrou a fachada de um cinema antigo. No alto do frontão da entrada estava escrito na vertical “Cuité Clube”, em um padrão de letras típicos da década de 1930. Ao lado da porta principal vi uma placa igual as existentes em obras inauguradas por políticos, onde estava escrito “Museu do Homem do Curimataú”.  Aquilo me chamou atenção e, como estava com o dia livre, decidi conhecer o local.

Salão principal

Salão principal

Fui muito bem recepcionado por José André Santos, que além de trabalhar no local se dedica a poesia. Ele me contou que o Museu foi inaugurado em 11 de março de 2010 e ali funcionou um clube social que marcou época na cidade. Infelizmente este se encontrava abandonado, depois que os sócios fundadores faleceram e os seus herdeiros não continuaram com o clube. Foi então que a Universidade Federal de Campina Grande-UFCG decidiu recuperar o imóvel. Depois da recuperação foi feita a pesquisa e busca de objetos para a sua composição. Consta que o Museu do Homem do Curimataú é um órgão ligado ao Centro de Educação e Saúde da UFCG e é fruto de um projeto aprovado pelo IPHAN, disponibilizando um acervo material que retrata e preserva a memória da região.

Material do Boi de Reis de Manoel Birico. Hoje esta manifestação folclórica não é mais executada em Cuitá, mas vale pela preservação dos materiais utilizados

Material do Boi de Reis de Manoel Birico. Hoje esta manifestação folclórica não é mais executada em Cuitá, mas vale pela preservação dos materiais utilizados

O acervo ocupa grande parte do salão principal do antigo Cuité Clube, com biombos dividindo as peças apresentadas através de áreas temáticas distintas. André me comentou que o Museu é focado principalmente na preservação da memória dos hábitos e fazeres do povo de Cuité. Ali os estudantes realizam muitas aulas de campo voltadas ao resgate das origens com uma verdadeira volta ao passado e uma reflexão da atualidade. Para André o Museu se tornou um ponto de cultura, com apresentação de palestras, cantorias de violas, apresentações de outros ritmos musicais.

Um "chincho", ou engenho, de fazer queijos

Um “chincho”, ou engenho, de fazer queijos

Em meio ao deleite de conhecer peças que eram utilizadas nas antigas fazendas da região, perguntei a André sobre o ocorrência de fatos ligados ao fenômeno do cangaço em Cuité. Ele me respondeu que neste aspecto, para sorte dos antigos moradores da cidade, o cangaço não foi muito ativo em sua região. Informou que na década de 1940 o ex-cangaceiro Antônio Silvino passou pela cidade e se encontrou com o poeta popular Zé de Luzia, este ainda vivo e lúcido, que poderia narrar detalhes deste encontro. Entretanto André me comentou que sabia da história de um parente que se tornou cangaceiro.

Artigos de caça. A arma de fogo de percurção é a famosa Lazarina, o arco é um Bodoque. Já a pele na extrema esquerda da foto é de um gato maracajá e a longa pele estirada na parede, com 2,73 metros, é de uma jiboia morta no Sítio Alegre, zona rural de Cuité, na década de 1940.

Artigos de caça. A arma de fogo de percussão é a famosa Lazarina, o arco é um Bodoque. Já a pele na extrema esquerda da foto é de um gato maracajá e a longa pele estirada na parede, com 2,73 metros, é de uma jiboia morta no Sítio Alegre, zona rural de Cuité, na década de 1940.

André, que também é trombonista e vocalista de uma orquestra criada no Museu, é sobrinho neto de Joaquim Taveira, que era natural da cidade paraibana de Araruna, tendo nascido em terras pertencentes a José Gomes Maranhão e Maria Júlia Maranhão, que depois passaram a serem administradas pelo filho Benjamim Gomes Maranhão, mais conhecido como ”Beja Maranhão”. Este último é o pai de José Maranhão, ex-governador da Paraíba.

O primeiro rádio da cidade de Cuité. André me comentou que a chegada deste aparelho movimentou de tal maneira a cidade, que pessoas pagavam para escutar o serviço em português da rádio BBC de Londres

O primeiro rádio da cidade de Cuité. André me comentou que a chegada deste aparelho movimentou de tal maneira a região, que pessoas pagavam para escutar o serviço em português da rádio BBC de Londres

Dando uma passada rápida em antigos documentos da região de Araruna, consta que em 1920 José Gomes Maranhão era proprietário  do Sítio Baixio, ou Baixios, mas não tivemos como comprovar se Joaquim Taveira nasceu neste local.

Mas voltando ao relato de André, ele comentou que a memória de sua família aponta que Taveira entrou no cangaço apenas pelo desejo de se aventurar, de sair pelo mundo vestido e armado como um cangaceiro. Infelizmente sua família perdeu todo o contato com Joaquim Taveira durante este tempo e nada soube de suas aventuras e desventuras no cangaço, nem onde esteve, nem com quem andou ou combateu e ninguém sabia o seu destino.

Mas na década de 1950, uma irmã de Joaquim, avó de André, chamada Veneranda Taveira, mais conhecida como Neranda, casualmente se encontrou com o desaparecido irmão em uma feira. Sobre a cidade onde ficava localizada esta feira, Neranda fez questão de se calar para preservar o irmão. Em meio a alegria do reencontro, Joaquim informou que no cangaço era conhecido pelo apelido de “Jurubeba” e que esteve principalmente nos sertões da Bahia, onde afirmou que fez parte do bando de Ângelo Roque.

Ângelo Roque na década de 1970. Homem livre e exemplar funcionário público em Salvador

Ângelo Roque na década de 1970. Homem livre e exemplar funcionário público em Salvador

Este era Ângelo Roque da Costa, conhecido como Anjo Roque, ou Labareda. Nasceu em 1910 no lugar Jatobá, depois pertencente ao município de Tacaratu, em Pernambuco. Consta que entrou para o cangaço após matar um soldado de polícia que se meteu a conquistador com uma irmã sua. Entrou para o cangaço em 1928, quando ocorreu seu primeiro encontro com Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião. Tinha bando próprio, mas frequentemente reunia seu grupo ao do grande chefe cangaceiro, era considerado valente e foi figura importante dentro da história do cangaceirismo. Se entregou a polícia quase dois anos após a morte de Lampião e passou algum tempo na cadeia em Salvador. Ao sair passou a trabalhar como um pacato funcionário público do Conselho Penitenciário, graças ao apoio do advogado, escritor e pesquisador Estácio Lima.

Notícia do jornal carioca "A Noite", reproduzida na imprensa potiguar, apontando a detenção de Ângelo Roque e seus bando, em abril de 1940

Notícia do jornal carioca A Noite, reproduzida na imprensa potiguar, apontando a detenção de Ângelo Roque e seus bando, em abril de 1940

Se realmente Joaquim Taveira fez parte do bando de Ângelo Roque, certamente deixou a vida de cangaceiro antes de abril de 1940, pois não estava entre os cangaceiros que se entregaram as autoridades policiais baianas. Além do chefe Ângelo Roque  foram detidas quatro mulheres que estavam no grupo, bem como Benício Alves dos Santos, o cangaceiro Saracura, Manoel Raimundo da Silva, o Jandaia, Antônio Pedro da Silva, Patativa e o cangaceiro conhecido pela alcunha de Deus Te Guie, cujo nome verdadeiro era Domingos Gregório.

André e a moeda que teria estado presa ao chapéu de couro do cangaceiro "Jurubeba"

André e a moeda que teria estado presa ao chapéu de couro do cangaceiro “Jurubeba”

Em relação ao encontro de Joaquim Taveira e a sua irmã Neranda, este não quis entrar em detalhes de sua vida. Mas lhe entregou três objetos desta época; uma pequena arma branca, um breviário de Santo Antônio de Lisboa, presente do próprio Ângelo Roque e uma moeda vazada, que o pretenso cangaceiro “Jurubeba” utilizava no seu chapéu. Estes objetos foram doados pelo próprio André e se encontram em exposição no Museu do Homem do Curimataú.

André comentou que a narrativa sobre a história deste cangaceiro é parte da tradição oral de seus familiares. Que durante muitos anos eles tinham vergonha e medo de narrar esta situação. Para André, mesmo que não existam meios de confirmação da informações aqui narradas, agora os tempos são outros e ele narra esta tradição oral com desenvoltura e tranquilidade. Não tenho certeza, mas talvez isso ocorra devido a existência deste museu.

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Saí do Museu do Homem do Curimataú com a convicção que a existência de outros museus em cidades nordestinas é algo extremamente importante para que as novas gerações conheçam mais sobre o seu passado e com isso elevem a auto estima de serem naturais de seus locais. Entretanto estes possíveis museus não podem ser apenas um local de guarda de objetos antigos, de “coisas velhas”. Eles devem existir com a perspectiva de se tornarem locais de desenvolvimento e manutenção da cultura local e de troca de informações históricas.

Seguindo pelas estradas

Seguindo pelas estradas

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1937 – NOTÍCIAS DO CANGAÇO

Eu sou uma pessoa que sempre acreditei na democratização da informação histórica. A ideia de uma sociedade mais justa, no meu entendimento, passa por esta questão. Pode ser bobagem, mas acredito nisso!

Neste sentido, quero presentear os leitores deste nosso simples blog com algumas matérias sobre o tema cangaço, publicadas no periódico DIÁRIO DE PERNAMBUCO”, de 1937.

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Quero publicar, pois acho que existe muita gente interessada no tema e muito picareta se arvorando de pesquisador e “rastejador da história”.

O problema é que o tema cangaço abre espaço para isso, pois muito do que se tem é pura tradição oral.

Mas vamos para as notícias.

As primeiras tratam da libertação do ex-cangaceiro Antônio Silvino. Já velho e fatigado, Silvino deixava a Casa de Detenção de Recife para uma vida onde iria gozar a liberdade.

O mesmo Silvino que nas suas andanças pelo sertão, um dia esteve na fazenda Ramada, onde veio pedir dinheiro para meu bisavô, Joaquim Paulino de Medeiros, o conhecido coronel Quincó. Este lhe deu alguns “cobres” para que seguisse adiante e deixasse sua propriedade em paz. Uma vez contei isso a um pesquisador do tema, mas ele não acreditou. Me pediu uma “comprovação escrita” do fato!

Mas voltando a Silvino, este veio a falecer em Campina Grande, em 1944. Minha avó, Benícia Jacob de Medeiros, o viu nesta progressista cidade paraibana. Dizia que era “alto”!

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Bem, a segunda parte deste material mostra o cangaceiro maior do Brasil, Lampião. Este material é o mesmo que o libanês Benjamim Abrahão conseguiu indo no meio do mato atrás do “Rei do Cangaço”, sua Maria Bonita e toda trupe. A ideia do gringo era filmar e fotografia estes Guerreiros do Sol e ganhar uma grana junto com um empresário cearense.

Tanto ele, quanto Lampião, sua Maria e outros cangaceiros pagariam com a vida por esta ideia. Muito disso tem haver com a publicação deste material no periódico recifense. Conto mais desta história em http://tokdehistoria.wordpress.com/2011/08/03/quando-a-estrela-foi-lampiao/

Não tenho certeza, mas acho que a última notícia é pouco conhecida…

Boa visualização!

Rostand Medeiros

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CRIME AND CHARM

With the admission of women in 1930, cangaceiros became more 
tolerant and less nomadic, avoiding sanguinary combat and 
adopting new means like intimidation to obtain resources.

Carlos Jatobá

The cangaço was a Brazilian phenomenon of social-banditry until the 1940s. Lampião was Brazil’s most famous cangaceiro ever. Volantes were a tactical and itinerant police force that combated the banditry led by, among others, the famous Lieutenant Bezerra.

A notice—perhaps stranger or uncommon to the inhabitants of the Capital, still sorrowful for the murder of great writer and journalist Euclides da Cunha in the previous day—was published on the front page of the newspaper Gazeta de Notícias from Rio de Janeiro (formerly Brazil’s Capital), in August 16, 1909:

“Aracaju, State of Sergipe – The important city of Propriá, the judicial district headquarters of the same name, was invaded yesterday suddenly by a large group of rural bandits (cangaceiros) that occupy the northern region of this state, which they chose for robberies and depredations.

The local residents of the working city panicked and the police responded to alarms and took steps to resist the invasion, collecting all of the resources at hand, and capturing the cangaceirosthat had resisted, stopping disputed combat. Some policemen were wounded and one cangaceiro died.

Fortunately order was reestablished and people were satisfied with the measures to repress the invasion taken by the police. For this reason, the government of the State is preparing a new force to go in persecution of the cangaceiros.”

The Cangaço

Cangaço, or rural banditry, was a phenomenon of the first four decades of the 20th century in rural areas (sertão) of Brazil. According to Billy Chandler, it happened as a result of an underdeveloped agricultural society. Chandler also remarks in The Bandit King: Lampião of Brazil that “banditry always sparked the interest of the people. In truth, the allure of these outlaws and their legend —without talking about banditry—were universal. The male, or occasionally the female, outlaw as a nomadic bandit is apparently exempt of any societal restriction and that awakes a fiber of our imagination, mainly those ranked more remote in time or space. In this way, English people gravitate towards the facts of Robin Hood and his gang; Americans tell the adventures of Jesse James; Mexicans talk about Pancho Villa; and Brazilians recount stories of Lampião.” (1981: 15).

The Cangaço cycle or as many, like Eric Hobsbawn (a British writer), calls it: “cycle of social banditry”, occurred in the state Bahia and continued to Ceará state, in the vast northeastern hinterland and affected all rural populations. This phenomenon lasted for about seven decades (1870-1940).

In 1938, two years after the death of Lampião (Virgolino Ferreira da Silva), it reached its height and continued until 1940 when Lampião’s successor and deputy, Corisco (Christino Gomes da Silva), died. Other cangaceiros—who were just as famous—that preceded them included Jesuino Brilhante, Adolfo Meia-Noite, Antônio Silvino, Sinhô Pereira e Luiz Padre. There are also precursors to cangaço or “acting-cangaceiros” (prior to 1870), such as Cabeleira and Lucas da Feira, in addition to others less researched and for whom little historical documentation is available.

Antônio Silvino

Historian Vassalo Filho describes cangaço as the life or criminal activity of groups of nomadic bandits in northeastern sertões of Brazil. Cangaço is derived from the word yoke (canga), a wooden piece linking oxen to a carriage or a plough. Cangaceiros wore equipment across their chests, which resembles the yoke of an ox, and, therefore, represented submission to a head, chief, leader or lord.

Daily newspaper Folha de São Paulo says that the word cangaceiro has origins in the time of Brazilian slavery when fugitive blacks were captured and tortured in an instrument known as a yoke. From that point on, mainly in northern Brazil, people who were displaced from society and rebelled were called a cangaceiro.

Cangaceiro typical of northeastern Brazil in the first half of the twentieth century

On the other hand, real cangaceiros were isolated nomadic groups that acted independently and practiced assaults and thievery on roads and trails, extortion, servitude (empreitadas de morte), property invasion in villages and cities pillaging, destroying, and kidnapping people to collect ransom, “selling” protection against attacks of other groups and collecting “commissions” for business transactions made on behalf of the people. These activities sustained their lifestyle.

According to Vera Ferreira and Antonio Amaury, “there were at least two types of cangaceiros. The well known nomadic cangaceiros traveled in groups of generally permanent members and those referred to as tame cangaceiros were people who lived on farms and were protected by land owners. The tame cangaceiros were used to meet the group’s defense objectives and to attack the enemies. They performed the dirty work in exchange for a lair.” (1999: 24)

The cangaceiros operated in the sertões of seven northeastern states: Bahia, Sergipe, Alagoas, Pernambuco, Paraíba, Rio Grande do Norte and Ceará. They generated fear because of their actions and groups—varying in size from five to 100 members—when they congregated to carry out a plan. The provincial region of these states almost stopped functioning because of unreliable commercial transactions, and excessive reduction in interstate trade of merchandise, jobs and other activity between the diverse locations.

Cangaceiros’ operational tactics were characterized by the following: ambushes, the element of surprise, cutting communication lines and simulating animals of the region. The gang originally acted in an unmeasured and impious savagery. With the ingression of woman in 1930, the group became more tolerant and less nomadic, adopting a more hygienic and more harmonious behavior by avoiding sanguinary combat and adopting new means to obtain resources such as letters and tickets and directed intimidation. In this respect, Sila states that “Cangaço women did not shoot in or engage in guerilla warfare. We received a Mauser [shot gun] and a dagger, because when they were attacked we had to defend them. For precaution, we learned to shoot.” (1995: 33).

Picky Lampião

The cangaceirismo was consolidated as a bigger power in the sertões under the legendary figure of Lampião, who began to appreciate sophisticated goods such as good Scottish whisky, French perfume, jewels, armaments, binoculars, etc. In 1936, the Arab peddler Benjamin Abrahão documented the day-to-day activity of cangaço and “the cangaço aristocracy,” becoming a marketing tool for Lampião and his friends. Abrahão used photographic and film machines to record moments of leisure, dance, combat tactics, affection and tenderness, photos for the family, and created a customized card with the photo of the head cangaço used to ensure safe conduits and make “friendly” requests for pecuniary resources.

The chief bandit Lampião and his wife Maria Bonita

Lampião, between shoot outs, promoted parties. which were animated by a concertina of eight basses (sanfona de oito-baixos) and clog-dancing called xaxado and at times he was filmed in his feudal lands —under apparent impunity—guaranteed by the lack of enforcement by police, and the policy of “peaceful coexistence” when dealing with the agricultural elites.

Such elites were represented by the icon, the colonel, a typical figurehead in recalcitrant anachronism of the agricultural sector at the time. The term originates in the Imperial National Guard, instituted in 1831, that recruited among the “elites of the local power” who were later ranked as colonel, major or captain, depending on prestige or politicians that sponsored them. This process of initiation was dissolved soon after the promulgation of the Brazilian Republic in 1889. The term “coronelism,” meaning “despotism or tyranny”, stems from this process.

Lieutenant João Bezerra

However, national recognition of the state of things became detrimental to central power, the presidency of the Republic, forcing it to take similar attitudes with all affected states to create a more favorable environment to police force (volantes) activity. Better trained and equipped volantes (some even carried machine guns) brought the cangaço to an end under the command of Lieutenant João Bezerra, who was a meticulously prepared agent who undertook the raid in Angico, state of Sergipe, on July 28, 1938.

The Volantes

Volantes (police forces), commonly referred to as “Volantes Forces”, “Volantes Squadrons” or “Volantes Lines,” appeared in 1920. They served society as military police and rapid response forces. Until 1940, as part of the Public Forces (currently known as Military Police), they were used in the rural, feudal regions in northeastern Brazil—a perfect theater of operations for hordes of bandits called cangaceiros.

Cangaceiro prisoner being shown between police officers

Lima observed “the Northeast was, and continues to be, a difficult region, that did and does not receive engineering, medical, and the law efforts… (…) The climate of the bandits’ empire is rough, which is exactly why it continues to defy the system and inertia of our government.” (1965: 3)

To distinguish them from the paramilitary forces, which erroneously had the same denomination in some regions, is due justice. However, in developing historical accounts of the forces we find only a partial and not very enlightening clarification.

Group of police officers who fought the cangaceiros. Those in the photo became famous for its ability to fight, being known as “Nazarenos”.

Knowingly, Carmen Ferraz notes, “there are authors that, motivated by their own political and ideological convictions, try to deny merit to any of the volantes forces or its activities and consider them unjustifiable when they are not frivolously accused or transformed into scapegoats in the events.” (1990: 43)

Throughout history, it was the volantes that were presented poorly in caricatures, which many times confused them with “private” military services, without considering the supposed subordinate actions they were assigned. Optato Gueiros wrote, “In the days of the ancient politics, cangaceiros were confused with policemen. The head politicians were more powerful than medieval barons… “(1953: 167)

Cangaceiro dead in northeastern Brazil, even with their costumes, especially his long dagger.

According to Euclides da Cunha, “the farmer of the sertões lived on the coast, far from his plentiful land that sometimes he never saw. Like the opulent, large-estate owners of the colony, parasitically, they used the income from the lands without fixed limits. The cattle ranchers submissively served them. There they stayed (…) anonymous—being born, living and dying on the same plot of land—lost in the fields and mocambos (shacks); faithfully taking care of the flocks that did not belong to them their entire life (…) They are self-sacrificing people giving themselves to the servitude without question.” The questions remain: Is this a propitious environment to proliferate cangaceirismo? Is this the heart of social banditry?

Cangaço continues to awake wild passions. Popular songbooks and literature are uninhibited from creating stories about cangaço. Carlézio Medeiros tells us in his fictional work that in spite of being an old and dying cangaceiro under imminent attack, “many cried and asked friends and leaders to stay until the last moment when they died. The destiny of a cangaceiro was to die fighting in a hail of bullets or daggers of the macacos (monkeys) of the government and not to run away as a caga nas calças qualquer (some pantshitter) because of danger.” (1971: 262)

According to Paulo Britto (Lieutenant Bezerra’s son), a closer look at the subject allows a “glimpse at northeastern Brazilian history. It is necessary to clarify the different roles focusing on the aspects of a multi-faceted phenomenon: cangaceirismo. (…) The complexity of its characteristics: originality, values, codes, behaviors, attitudes, strategies, plans, the economic situation and social politics of the time. It was also a phenomenon that frightened the cities of the region, marked by fear, panic, terror and violence.” (2000: 11)

A typical city in northeastern Brazil, in the first half of the twentieth century. This city is called Sumé and is in the state of Paraíba.

On the other hand, Manoel Bezerra e Silva said that the sertanejo (inhabitant of the sertão) living in the sub-Saharan-like northeastern region “are thought of as bad because they are from an area where the climate causes people to impulsively lose good judgment. However, they are good, hospitable and endowed with sincerity. Those who do not know the sertão would think that the word is already synonymous with harshness of spirit, although in the middle of all that backwardness and obscurantism is the impersonated goodness characterized by a sertanejo’s ways. The man of the hinterland, in addition to being naïve, is pleasant. It would be impossible to describe the anxiety these people felt when they became cowardly overwhelmed as victims of the cangaço. They suffered because of the outlaws in the region and the pressure of the police that referred to them as coiteiro [people who give refuge, shelter or asylum to the outlaws].” (1978: 9).

After the death of the bandit Lampião, his wife Maria Bonita and seven other companions in the Grota Angico in 1938, their equipment and their severed heads were displayed in the town of Piranhas in the state of Alagoas.

References (Sources and Recommended Reading)

Chandler, Billy J. Lampião: O Rei dos Cangaceiros.(The bandit king, Lampião of Brazil. Texas A&M Univ. Press. trad. Sarita Linhares Barsted) Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1981.

Vassalo Filho, Miguel. Lampião—o grande cangaceiro. http://www.atodominio.arq.br/cangaco

Folha de São Paulo. Folha Ilustrada. Bandos adotavam táticas de guerrilha no Nordeste. São Paulo: FSP, 18 de março de 1997.

Ferreira, Vera & Amaury, Antonio. De Virgolino a Lampião. São Paulo: Idéia Visual, 1999.

Sila (Ilda Ribeiro de Souza). Sila: Memórias de Guerra e Paz. Recife: UFRPE, 1995.

Ferraz, Carmen. Considerações [sobre as Volantes]. in Ferraz, Marilourdes. Cadernos Sertanejos: Subsídios para a História do Vale do Pajeú. Recife: Liceu, 1995.

Gueiros, Optato. Lampeão: Memórias de um Oficial ex-comandante de Forças Volantes. Recife: do Autor, 1953.

Cunha, Euclides da. Os Sertões. Rio de janeiro: s/e, 1933. apud Moura, Clóvis. Introdução ao pensamento de Euclides da Cunha. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1964. p. 139

Medeiros, Carlézio. Terra, Pão e Cangaço. Recife: Codevap, 1971.

Britto, Paulo. O Cangaço e as Volantes: Lampião e Tenente Bezerra. Recife: Do Autor, 2000.

Bezerra e Silva, Manoel. Lampião e suas façanhas. Maceió: Sergasa, 1978.

http://www.brazzil.com/p32sep02.htm

 - Carlos Jatobá is a Brazilian freelance writer and Web designer/Web master. He lives in Recife, state of Pernambuco. You can access http://www.cangacoevolantes.hpg.com.br  to learn more about this topic. You can also reach him at carjat@hotmail.com

 - This piece was edited and translated by Jamie Sundquist, a freelance writer, proofreader and translator living in Chicago. In addition to writing forBrazzil, the author has published articles in BrazilianistWine & Spirit InternationalJust-Drinks.com and maintains a website about the wine, beer and spirit industry in South America at http://www.jswrites.com

Warning – The photographs contained in this text are not part of the original and are merely illustrative.

About the Blog author Tokdehistória

Rostand Medeiros was born in Natal, Rio Grande do Norte. He is a 45 years old writer, researcher and expert in producing biographical works. Also does researches in history of aviation, participation of Brazil in World War II and in regionalist aspects of Northeast Brazil.
His member of Genealogy Institute of Rio Grande do Norte – IGRN and SBEC – Brazilian Society for the Study of Cangaço.
In 2009, he was co-author of “Os Cavaleiros dos Céus – A Saga do Voo de Ferrarin e Del Prete” (in free translation, “The Knights of the Sky: The Saga of Ferrarin and Del Prete Flight”), a book that tells a story from 1928, of the first nonstop flight between Europe and Latin America. This book was supported by the Italian Embassy in Brazil, Brazilian Air Force (FAB) and Potiguar University (UNP).
In 2010, Rostand was a consultant of SEBRAE – Brazil’s Micro and Small Business Support Service, participating of the project “Território do Apodi – nas pegadas de Lampião” (in free translation, “Apodi Territory – In the footsteps of Lampião”), which deals with historical and cultural aspects of rural areas in Northeast Brazil.
In 2011, Rostand Medeiros launched the book “João Rufino – Um Visionário de Fé” (“João Rufino – A visionary of Faith”), a biography of the founder of industrial group Santa Clara / 3 Corações, a large coffee roasting company in Latin America. The book shows how a simple man, with a lot of hard work, was able to develop, in Rio Grande do Norte state, a large industry that currently has seven units and 6,000 employees in Brazil.
Also in 2011, he wrote, with other authors, a book of short stories entitled “Travessa da Alfândega” (in free translation, “Customs Cross Street”).
In 2012, Medeiros produced the following books: “Fernando Leitão de Moraes – Da Serra dos Canaviais à Cidade do Sol” (“Fernando Leitão de Moraes – From Sugarcane Mountains to Sun City”) and “Eu Não Sou Herói – A História de Emil Petr” (“I’m not a hero – The Story of Emil Petr”). This latest book is a biography of Emil Anthony Petr, a farmer who was born in Nebraska, United States. During World War II, he was an aviator in a B-24 bombing and became a prisoner of the Germans. This work shows the relationship of Emil with Brazilian people, whose with he decided to live from 1963, when he started to work for Catholic Church.
He also published articles in “Tribuna do Norte”, newspaper of the city of Natal, and in “Preá”, cultural magazine published by Rio Grande do Norte State Government.
He founded SEPARN – Society for Research and Environmental, Historical and Cultural Development of Rio Grande do Norte.
Currently, is working as a Parliamentary Assistant in Rio Grande do Norte Legislative Assembly and develops other books.
Rostand Medeiros is married, has a nine years old daughter and lives in Natal, Rio Grande do Norte, Brazil.

Phones: 0051 84 9904-3153 (TIM) / 0051 84 9140-6202 (CLARO) / 0051 84 8724-9692 (Oi)
E-mail: rostandmedeiros@gmail.com
Blog: http://tokdehistoria.wordpress.com/

O CANGACEIRO ANTÔNIO SILVINO NA SERRA DOS CANAVIAIS – UM DOS CAPÍTULOS DO MEU NOVO LIVRO

No último dia 16 de junho de 2012, um sábado, no Tropical Eco Resort, em São José de Mipibu ocorreu o lançamento do nosso mais novo livro.

Nosso novo trabalho.

Intitulado “Fernando Leitão de Moraes – Da Serra dos Canaviais à Cidade do Sol” foi um trabalho biográfico que buscou registrar a trajetória de um pernambucano nascido na região da Zona da Mata Norte, que escolheu Natal para viver e aqui criou raízes.

Trabalho simples, mas feito com esmero e dedicação, fruto do reconhecimento do meu trabalho anterior sobre o criador do Grupo Santa Clara/Três Corações, esta nova atividade nós levou a conhecer a região da cidade pernambucana de Macaparana, um belo e pouco conhecido local.

Estive na região em cinco ocasiões, sempre sendo muito bem acolhido, realizando os levantamentos necessários para a realização do nosso trabalho.

O convite para o lançamento do livro no éltimo dia 16 de junho de 2012

Por estar em um local onde existem elevações com mais de 800 metros de altitude, decidi criar o termo “Serra dos Canaviais”, fato desconhecido das maravilhosas pessoas desta região.

No artigo a seguir, uma adaptação do terceiro capítulo do nosso novo livro, trago um relato dos contatos ocorridos entre o famoso cangaceiro Antônio Silvino e antepassados do nosso biografado na região de Macaparana.

A ideia de se inserir os acontecimentos relativos a Antônio Silvino neste trabalho se deveu as lembranças da infância de Fernando Leitão de Moraes,

A passagem do bando deste famoso cangaceiro pela região da antiga Macapá, onde ocorreram combates que marcaram a memória local. Quem contava essas histórias ao nosso biografado era seu pai, Durval, sempre na casa do Sítio Gitó, no alto da Serra do Pirauá, acompanhado da plateia formada pelos filhos, parentes e moradores.

Aqui nosso biografado junto a sua irmã Creusa de Moraes Cavalcanti e sua sobrinha Creusa Olívia, defronte a casa centenária de seu avô, João Leitão de Melo, no Sítio Esquecido, atualmente na área rural da cidade pernambucana de São Vicente Ferrer. Tenho uma enorme gratidão a Dona Creusa e a sua filha pelo apoio nesta pesquisa. Foto – Rostand Medeiros

Foi realmente uma experiência interessante, que culminou com a festa de lançamento, de caráter privado e distribuição do livro dirigida aos cerca de 350, convidados que estiveram presentes na comemoração do 80º aniversário de Fernando Leitão de Moraes.

Neste trabalho biográfico contei com o total apoio de seus familiares, principalmente seus filhos Fernando Junior, Hermano da Costa Moraes e Fabiano Moraes, a quem agradeci diretamente na dedicatória de “Fernando Leitão de Moraes – Da Serra dos Canaviais à Cidade do Sol”.

A PRESENÇA DO CANGACEIRO ANTÔNIO SILVINO NA REGIÃO DE MACAPARANA

Antônio Silvino nasceu em no dia 2 de novembro de 1875, na Fazenda Colônia, zona rural de Afogados da Ingazeira, Pernambuco. A principal causa da sua entrada no cangaço, em 1896, foi a intenção de vingar a morte de seu pai. Lutou ao lado de seu tio, Silvino Aires de Alencar, e depois assumiu a chefia do grupo quando Aires foi morto, em 1900, em um combate na Paraíba, contra o tenente Luís Mansidão.

Antônio Silvino

Antônio Silvino foi o mais famoso cangaceiro do Nordeste brasileiro antes de Lampião. Foi rotulado de “Rifle de Ouro”, “Rei do Cangaço” e, durante 16 anos, ficou conhecido como “Governador do Sertão”.

As ocorrências envolvendo esse famoso cangaceiro, parentes e amigos da família do nosso biografado se deram entre os anos de 1904 e 1908, quando o bandoleiro e seus homens rondaram a região em vários momentos, atravessando impunemente a fronteira entre a Paraíba e Pernambuco.

Em 1904, a pequena Macapá continuava na sua missão de apoiar os que por ali passavam com destino a São Vicente e Timbaúba, em Pernambuco, ou a Umbuzeiro, já na Paraíba.

Visão atual da cidade de Macaparana, Pernambuco, antiga Macapá. Foto – Rostand Medeiros

No lugar, prosperava o comerciante Manoel Francisco de Paula, conhecido como Manoel Belo, dono de um sortido armazém, daqueles que vendiam de tudo um pouco, que ficava ao lado da igreja. Era tido como um homem rico e também acumulava a função de delegado.

No dia 22 de outubro de 1904, segundo o jornal recifense “A Provincia”, edição de quinta-feira, 27 de outubro de 1904, p. 1-2, por volta das sete horas da noite um grupo de dez homens fardados chegou a Macapá supostamente conduzindo um preso. Mas o soldado de plantão reconheceu que o detido era o famigerado cangaceiro “Cocada”, parceiro de Antônio Silvino, e foi feito refém naquele momento, sendo obrigado a levar o bando à casa do subdelegado da povoação.

Diante da autoridade, Silvino, que usava uniforme com divisas de Sargento, informou que o seu negócio naquele lugar era com o comerciante Manoel Belo.

Foi, então, conduzido à residência do dono do armazém, onde fez inúmeras ameaças. Os cangaceiros levaram dinheiro, peças de tecidos, rifles e outros produtos. Segundo o jornal, foi o soldado refém quem conseguiu convencer Antônio Silvino a não levar Manoel Belo em troca de seis contos de réis.

Antiga casa de Manoel Belo, em Macaparana – Foto Rostand Medeiros

Após essa primeira abordagem, o bando ainda atacou outras casas comerciais. Levou, inclusive, todo o dinheiro do posto de arrecadação fiscal que ali existia, deixando o povoado às onze horas da noite, depois de quatro horas de terror.

Ainda de acordo com o periódico, depois de saírem da cidade, os cangaceiros se dirigiram ao Engenho Macapá; às cinco horas da manhã, seguiram para o Engenho Bonito, de João do Rego Cavalcanti, e depois para o Engenho Santa Tereza, de Francisco Prefeito de Albuquerque Maranhão, quando tomaram a direção de Bom Jardim. O jornal não informa se eles atacaram esses locais nem fornece maiores detalhes sobre o percurso.

A primeira página da edição de “A Provincia” de terça-feira, 1 de novembro de 1904, traz uma extensa reportagem sobre o ataque do bando de Antônio Silvino a Macapá, fazendo sérias acusações a proprietários rurais da região de fornecerem apoio ao cangaço[1].

Outro caso envolvendo Antônio Silvino não está ligado diretamente a Macapá, mas a um parente de Fernando Moraes, o fazendeiro e comerciante Joaquim Tavares Vieira de Melo.

Ele era conhecido na família Leitão como “Quincas Tavares” ou “Tio Quinca”, a quem a mãe do nosso biografado, Izabel de Andrade Melo, muitas vezes mandou Fernando Moraes e seus irmãos pedirem a bênção. Fernando lembra-se dele como sendo um homem alto e forte.

Joaquim casou em 25 de novembro de 1886 com Leonor Ferreira Gomes de Andrade. Era tido como um homem de grande poder aquisitivo e possuía uma imponente casa numa localidade conhecida como Poço Comprido, onde exercia liderança política.

Ao lado do casarão ficava seu armazém, com farto sortimento de Mercadorias[2].

Quincas Tavares tinha, em casa, um verdadeiro arsenal de rifles e farta munição. Um dia, estava limpando sua coleção, quando uma pessoa passou e lhe indagou qual era o motivo de possuir tantas armas. Certamente confiando no potencial bélico do qual dispunha, proclamou, aos quatro cantos, que “ali Antônio Silvino não teria vez”.

Segundo o pesquisador Sérgio Augusto de Souza Dantas, no livro “Antônio Silvino – O Cangaceiro, O Homem, O Mito” (Natal: Editora Cartgraf, 2006, p. 126-128), em 29 de março de 1908, sem nenhum aviso, Silvino chegou a Poço Comprido para tomar satisfações com Joaquim.

Visão atual do Distrito de Pirauá – Foto – Rostand Medeiros

Surpreendido, o comerciante clamou pela vida. O chefe cangaceiro declarou que Joaquim estava preso e que sua liberdade custaria muito caro. Foi quando o detido se lembrou do comerciante e amigo Gonçalo José de Medeiros, que morava no povoado de Pirauá, já na fronteira com a Paraíba, argumentando com Antônio Silvino que certamente seu camarada teria condições de pagar pelo resgate.

Antes de seguir para Pirauá, o armazém de Quincas Tavares foi saqueado, suas armas e munições foram tomadas e muitos mantimentos foram espalhados na principal rua do lugarejo para que fossem recolhidos pelos mais pobres.

Casa do major Gonçalo José de Medeiros, em Pirauá, na fronteira entre Pernambuco e Paraíba, para onde Antônio Silvino e seu bando levaram Joaquim Tavares Vieira de Melo como refém. Foto – Rostand Medeiros

Em Pirauá, Major Gonçalo, como era conhecido o mais importante comerciante local, disse a Silvino que possuía apenas duzentos mil réis e que daria todo aquele dinheiro para que seu amigo fosse solto pelo bando. Antônio Silvino, irritado com o baixo valor oferecido pelo prisioneiro, respondeu que a liberdade de Joaquim valia dois contos de réis.

Diante do impasse, o chefe cangaceiro decidiu partir pela estrada que segue para a região do Sítio Gitó, já na Paraíba. Segundo uma das versões da história, Silvino iria levar seu prisioneiro para ser morto embaixo de uma frondosa cajazeira que ficava à beira da estrada.

Apesar das ameaças, o experiente cangaceiro percebeu que matar aquele homem não lhe traria nada de valor, além de problemas e perseguições. O melhor era receber os duzentos mil réis do

Major Gonçalo e evitar mais essa morte nas suas costas.

Ameaçou, então, um camponês que passava, exigindo que ele trouxesse o dinheiro que o comerciante de Pirauá havia oferecido em troca da vida de Joaquim.

Depois de receber e contar as notas, soltou seu prisioneiro.

Quase um ano depois do ataque a Macapá, Antônio Silvino e seu bando fariam um assalto a um engenho cujo proprietário era uma pessoa ligada a membros da família Moraes.

O fazendeiro Manoel Inácio de Andrade Lima. Fonte: Arquivo de José Inácio Moraes Andrade

Manoel Inácio de Andrade Lima era o senhor do Engenho Mirador, próximo à cidade de Bom Jardim, Pernambuco. Era uma terra poderosa, rica, com grandes áreas de plantações de cana-de-açúcar.

O motivo da visita do chefe cangaceiro seria uma vingança.

Em uma ocasião anterior, Silvino havia mandado um mensageiro pedir dinheiro ao dono do Engenho Mirador. Era uma das famosas solicitações de Antônio Silvino, que descaradamente alegava que não podia trabalhar por causa da perseguição do governo à sua pessoa. Então, argumentava que, como não queria roubar, apenas “pedia aos amigos”.

Manoel Inácio se recusou a atender não apenas a este, mas a vários outros pedidos feitos pelo cangaceiro. O problema era que o bandido não se esquecia dessas negativas e, quando tinha oportunidade, saía para cobrar o que havia pedido ou para gerar um prejuízo de grande porte.

Antônio Silvino, movido pela vingança, mandou seus cangaceiros abaterem a tiros de rifle todo o gado do Mirador e destruírem a casa-grande do engenho, principalmente seus móveis. Antes de deixar o local, gritou para os moradores: “Não é para aproveitar nem o couro dos bichos mortos!”.

O prejuízo – associado ao trauma do ataque dos cangaceiros – foi tão intenso que Manoel Inácio de Andrade Lima decidiu vender o Engenho Mirador e se mudar para uma propriedade próxima ao povoado de Poço Comprido. Começou a plantar outras culturas agrícolas, mas não prosperou. Então, vendeu a gleba e arrendou o Engenho Paquevira, nos arredores de Macapá, que pertencia à Senhora Maria Borba, mãe do futuro governador pernambucano Manuel Borba.

Xilogravura com a figura de Antônio Silvino

Somente dez anos depois do ataque de Antônio Silvino, o fazendeiro Manoel Inácio pôde se recuperar financeiramente. Ele comentava com seus descendentes que “valia mais a pena ser arrendatário plantando cana-de-açúcar do que ser proprietário de uma terra e plantar outras culturas”[3].

Existe, ainda, um último e importante caso envolvendo um membro da família Moraes e o cangaceiro Antônio Silvino: o do Bacharel Francisco Porfírio de Andrade Lima.

Sobre esse personagem, utilizamos o ótimo trabalho de pesquisa genealógica desenvolvido por José Ignácio de Andrade Lima. Segundo o estudioso, Porfírio nasceu em 1863 e se formou Bacharel em Direito pela tradicional Faculdade do Recife no ano de 1887.

O Bacharel Porfírio foi casado com Cândida Rosa Albuquerque de Morais, que faleceu em 4 de agosto de 1920, quando Porfírio era Juiz de Direito em Timbaúba. A união gerou quatorze filhos, entre eles, Ana de Moraes Andrade, de quem falaremos adiante.

Francisco Porfírio de Andrade Lima. Fonte: Acervo fotográfico da Fundação Joaquim Nabuco, Recife, Pernambuco

Ainda sobre Porfírio, sabemos que ele foi um dos fundadores da Loja Maçônica “Obreiros do Porvir”, da cidade de Nazaré, e que foi avô materno de Jarbas de Andrade Vasconcelos, ex-governador e atual senador pernambucano[4].

Em 1912, Francisco Porfírio era Chefe de Polícia em Pernambuco, cargo que pode ser comparado ao atual Secretário de Segurança do estado. Junto com o Bacharel Hercílio de Souza, então Secretário de Justiça, elaborou um plano que poderia ajudar a acabar com as ações do cangaceiro Antônio Silvino.

A ordem para esse projeto partiu do governador pernambucano na época, o General Emídio Dantas Barreto, que esteve à frente do Poder Executivo do estado entre 1911 e 1915[5].5

Capturar Antônio Silvino era uma das mais importantes demandas na área de Segurança Pública do governo pernambucano naqueles tempos.

Há anos o famoso chefe do cangaço dominava os sertões de Pernambuco, da Paraíba e do Rio Grande do Norte. Agindo com extrema mobilidade, Silvino não reconhecia a existência de fronteiras, mas as polícias estaduais – fracas, despreparadas e pouco numerosas – ainda tinham o agravante de não poderem cruzar os limites entre os estados.

Mensagem do governador pernambucano lida na Assembleia Legislativa do estado, em 1913, mencionando a reunião interestadual organizada por Porfírio. Fonte: Arquivo do autor

Percebendo que isoladamente as polícias não resolveriam a questão, Francisco Porfírio, mais conhecido na família Moraes como Dr. Chico Porfírio, concluiu, junto com Hercílio de Souza, que apenas a união de esforços dos governos estaduais e de seus aparatos de segurança pública poderia resolver o caso Antônio Silvino.

Foram enviadas mensagens para os governos dos estados da Paraíba, Rio Grande do Norte e do Ceará solicitando a presença de representantes em Recife para uma reunião que ocorreria no dia 25 de novembro de 1912.

O chamado foi respondido positivamente.

Da Paraíba, seguiu o administrador público e folclorista José Rodrigues de Carvalho. Do Rio Grande do Norte, veio o poeta, educador e escritor Henrique Castriciano de Souza e, do Ceará, seguiu para a importante reunião o escritor José Getúlio da Frota Pessoa[6].

Apesar da maioria dos respeitáveis representantes estaduais serem homens mais ligados à pena, utilizada para desenvolver poesias e textos literários, a reunião seguiu o caminho para o qual havia sido planejada. Os assuntos versados foram a criminalidade e a repressão ao banditismo, especialmente o caso Antônio Silvino.

Durante nossas pesquisas contamos com o apoio do pastor, pesquisador e professor Geraldo Batista (na cabeceira da mesa), que aqui está junto a Fernando Leitão de Moraes (a direita do Prof. Geraldo) e o autor deste trabalho (de camisa azul). Mestre Geraldo é uma grande figura humana, sempre disposto a ajudar, sendo imensamente devotado a Deus, a instrução e a história do seu lugar.

Ao final do encontro, foi realizado um festivo e concorrido almoço na conhecida “Pensão Landy”, à Rua Benfica, no centro da “Veneza brasileira”.

Henrique Castriciano de Souza retornou ao Rio Grande do Norte a bordo do paquete “Ceará”, da Companhia de Navegação Lloyd Brasileiro, em 3 de dezembro, sendo recebido no porto pelo governador Alberto Maranhão. No entanto, Castriciano não adiantou quase nada aos jornais da capital potiguar, visto que a reunião tinha “caráter reservado”.

Logo o periódico “A Republica” estampava um editorial no qual apontava que;

“Graças às medidas de vigilancia e perseguição postas em prática pelo Governo do Estado, agora mais efficazes com o acordo firmado em Pernambuco, os bandos de malfeitores acossados pelas polícias dos Estados compromettidos nessa obra saneadora dentro em breve terão desapparecido. Antonio Silvino, de todos os bandidos o mais sagaz, não escapará as deligencias inteligentemente combinadas, para extirpar do seio sertanejo, a sua mais profunda raiz do banditismo”.[7]

Cada estado participante do convênio idealizado por Porfírio deveria criar condições para ampliar o combate aos cangaceiros de Silvino. No caso do Rio Grande do Norte, o governador Alberto Maranhão atendeu ao que havia sido acordado e anunciou que ampliaria o efetivo do Batalhão de Segurança.[8]

Para Sérgio Dantas, aquele encontro foi, sem dúvida, positivo.

O próprio trabalho deste autor mostra que após a reunião dos governadores, a atuação de Antônio Silvino aparentemente se tornou extremante limitada, apesar de não haver indícios deste cangaceiro ter associado o enfraquecimento do seu poder à ação administrativa tocada pelo Dr. Chico Porfírio.[9]

Sobre a captura de Antônio Silvino em 1914.

Ainda que o esforço de Porfírio tenha colhido bons resultados, ele não testemunharia, como Chefe de Polícia, a captura de Antônio Silvino, pois já havia deixado o cargo. Em seu lugar, assumiu o Bacharel Joaquim Maurício Wanderley.[10]10.

No dia 27 de novembro de 1914, dois anos depois da assinatura do convênio firmado entre os quatro estados nordestinos, o procurado chefe do cangaço foi capturado. Mas não por uma força conjunta interestadual, e sim por uma volante da polícia pernambucana comandada pelo militar Theophanes Ferraz Torres.[11]

O fato se deu em uma propriedade denominada Lagoa da Laje, na época pertencente territorialmente ao município pernambucano de Taquaritinga do Norte.

Notícia do jornal “Diário de Pernambuco”, informando a liberdade de Antônio Silvino.

Ferido, Antônio Silvino foi enviado a Recife. Depois, foi julgado e condenado a trinta e nove anos e quatro meses de reclusão em regime fechado. Ele só seria libertado em 13 de março de 1937, mediante um indulto assinado pelo então presidente Getúlio Vargas.

O temido cangaceiro permaneceu vinte e três anos, dois meses e dezoito dias na prisão. Faleceu em 28 de julho de 1944, em extrema pobreza, morando de favor na casa de uma prima na cidade de Campina Grande, Paraíba.


[1] As edições do jornal “A Provincia” aqui mencionadas se encontram na Hemeroteca do Arquivo Público do Estado de Pernambuco, na Rua do Imperador D. Pedro II, 371, Bairro de Santo Antônio, no Centro de Recife (PE).

[2]Poço Comprido, que tem mais de 120 anos, teve como um de seus fundadores justamente Joaquim Tavares. Quando era criança, ele tomava banho, junto com alguns amigos, em um poço construído na horizontal, uma espécie de canaleta para escoar a água, que ficou conhecido como Poço Comprido. O local ficava a cerca de três quilômetros da casa de seus pais, que residiam na Serra do Aburá. Quando casou, Joaquim construiu uma casa ao lado do poço e lá foi morar com sua esposa – daí surge o povoado. Informação gentilmente cedida por Creuza Olívia de Moraes Cavalcanti, de Macaparana, sobrinha De Fernando Leitão de Moraes.

[3] Manoel Inácio era o bisavô de José Inácio Moraes Andrade, sobrinho do nosso biografado, que ouviu a narrativa do caso contada pelo seu pai, José Inácio Filho. Ainda sobre o fato, ver DANTAS, S. A. de S. Antônio Silvino – O Cangaceiro, O Homem, O Mito. Natal: Cartgraf, 2006, p. 119.

[4] Em uma nota publicada no Jornal do Commercio (Recife, 17 jun. 2000), o ex-governador de Pernambuco e atual senador Jarbas Vasconcelos recordou que, pelo fato de seu avô ser Chefe de Polícia, a sua mãe, Dona Áurea de Andrade Vasconcelos, nasceu no mesmo prédio que abrigava, no ano de 2000, a Direto ria de Polícia Civil, na Rua da Aurora. Como os governadores pernambucanos residiam no primeiro andar do Palácio das Princesas, o avô do senador Jarbas morava no primeiro andar do prédio de sua repartição, mantendo no térreo o gabinete onde trabalhava.

[5] Emídio Dantas Barreto nasceu em Bom Conselho, Pernambuco, em 1850. Era militar, participando da Guerra de Canudos como Tenente-coronel; foi um dos primeiros a publicar registros sobre o acontecimento, narrando sua experiência no livro ”Última Expedição a Canudos”, lançado em 1898. Foi Ministro da Guerra no governo Hermes da Fonseca, depois governador e senador de Pernambuco. Além da carreira militar e política, Dantas Barreto redigiu obras científicas, estudos militares e romances históricos, deixando extensas informações sobre campanhas militares do seu período. Morreu no Rio de Janeiro, em 1931, aos 81 anos de idade.

[6] Segundo as amareladas páginas do jornal “A Republica”, que constam no Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte e no Arquivo Público do Rio Grande do Norte, em 1912, Henrique Castriciano de Souza respondia pelo cargo de Procurador Geral

do Estado.

[7] Em 1912, os termos “cangaço” e “cangaceiro” não eram muito utilizados pela imprensa nordestina. Eram mais comuns os vocábulos “banditismo”, “facinorosos” e “bandoleiros”. O texto é uma reprodução idêntica à redação da época.

[8] Esse aumento de efetivo foi publicado no jornal “A Republica”, em 18 de dezembro de 1912, através do Decreto Estadual nº 279. Interessante é notar a diferença de rendimento entre esses militares. Enquanto o capitão recebia 350$000 réis de gratificação mensal, aos soldados eram destinados apenas 5$000 réis. Para maiores detalhes, ver “A Republica”, edição de 22 de janeiro de 1912, p. 3.

[9] DANTAS, S. A. de S. Antônio Silvino - O Cangaceiro, O Homem, O Mito. Natal: Cartgraf, 2006, p. 189.

[10] Não sabemos a razão de sua saída do governo.

[11] Ferraz Torres nasceu em 27 de dezembro de 1894, na cidade pernambucana de Floresta, e tinha o posto de Alferes em 1914. Ficou conhecido pelos combates, na década de 1920, contra Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião.

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A SAGA DO CANGACEIRO RIO PRETO

Igreja Matriz de Nossa Senhora dos Prazeres, em Goianinha, Rio Grande do Norte

Autor – Rostand Medeiros

- Este artigo é dedicado ao amigo Antônio Ferreira da Silva Neto, que em breve vai receber no seu lar um presente de Deus.

Em um dia do início do mês de fevereiro de 1906, chegou a cidade potiguar de Goianinha um desconhecido casal. A mulher era uma bonita moça, branca, aparentando ter a jovem uns 18 anos de idade, que se chamava Ana Maria da Conceição e vinha acompanhada de um homem negro.[1]

A comunidade não sabia, mas aquele homem era um conhecido e temível cangaceiro acunhado como Rio Preto.

Surpreendentemente o desconhecido procurou o delegado local, Manoel Ottoni de Araújo Lima, para conseguir trabalho como agricultor ou em alguma outra função. O delegado não lhe deu serviço, mas indicou-lhe o engenho “Bosque” cujo proprietário era o padre João Alípio da Cunha, este igualmente lhe negou trabalho, mas o despachou para o engenho “Jardim”, onde o administrador Manoel Lúcio Peixoto admitiu o aparente e inofensivo trabalhador[2].

A DESCONFIANÇA

Os primeiros dias de Rio Preto como trabalhador do campo seguiam tranquilos. Contudo, entre a comunidade, a desconfiança era geral. Chamava muita a atenção o fato daquele humilde trabalhador rural, acompanhado de uma mulher considerada bonita e além de tudo branca.

Estação telegráfica de Goianinha que avisou as autoridades nem Natal sobre a prisão de Rio Preto

Para a sociedade do Rio Grande do Norte, que até hoje ainda não se livrou de atitudes preconceituosas e racistas com relação aos negros, este casal inter-racial, chegando à provinciana vila de Goianinha de 1906, chamou muito a atenção do lugar.

Na noite de segunda-feira, 19 de fevereiro de 1906, um grupo armado atacou uma propriedade distante12 quilômetros de Goianinha. Os bandidos chegaram de surpresa, anunciaram o assalto e em seguida passaram a arrombar a porta da sede da fazenda. O proprietário Carlos de Paiva Rocha consegue fugir com uma irmã para os matos. O grupo de bandidos, senhores da casa, praticam de extrema violência contra o vaqueiro Antonio Gomes, para este dar conta dos objetos de valor ali existentes. Os celerados levam jóias, outros objetos pessoais, roupas e três cavalos para a fuga, deixando um prejuízo superior a um conto de réis. Em meio às ameaças, um dos bandidos afirma ser o “célebre Antônio Silvino, o Rifle de Ouro”. Logo a notícia se espalha e a região fica em estado de alerta.

Antônio Silvino em uma xilogravura

Aparentemente o trabalhador negro, que todos desconheciam ser Rio Preto não tinha ligação com o assalto ocorrido na propriedade “Martelos”. Mas não é difícil supor que naquele momento, todo forasteiro passasse a ser considerado suspeito[3].

Estas desconfianças fizeram o administrador da fazenda “Jardim” buscar “jeitosamente”, como afirma o jornal “A Republica”, junto ao seu novo empregado maiores informações sobre seu passado, prometendo-lhe proteção em troca da verdade. Rio Preto, sem desconfiar, abriu o jogo sobre suas andanças no cangaço e sua participação no bando de Antônio Silvino. O administrador Manoel Lúcio promete guardar segredo.

A PRISÃO E A CHEGADA EM RECIFE

Em pouco tempo Manoel Lúcio Peixoto, procurou discretamente o delegado e relatou tudo que o disfarçado cangaceiro tinha lhe falado[4].

Em 19 de fevereiro, sem esboçar resistência, o temível cangaceiro Rio Preto foi detido pelo delegado Ottoni. Rapidamente foi providenciado o transporte do cangaceiro para a capital do estado através do trem da Great Western.

Prisão vira notícia

Houve um princípio de alteração quando Rio Preto soube que viria para Natal sem sua companheira Ana Maria. Esta por sua vez foi levada para a delegacia de Goianinha, onde em seu depoimento, declarou ter sido raptada pelo cangaceiro, desvirginada por ele e passou a segui-lo espontaneamente[5].

No dia 20 de fevereiro, Rio Preto foi apresentado ao Chefe de Polícia do Rio Grande do Norte (cargo equivalente hoje ao de Secretário de Segurança), Heliodorio Fernandes de Barros, que telegrafou ao Chefe de Polícia de Pernambuco, Santos Moreira, que exultou com a notícia e organizou a transferência do detento[6].

No dia 23 o prisioneiro seguiu para Recife no vapor “Una”, da Companhia Pernambucana de Navegação, escoltado pelo cabo André Avelino Bezerra e os soldados Artur Florentino e José Fonseca. Não ocorreram alterações durante o trajeto.

Ao chegar a capital pernambucana, as seis da manhã do dia 25 de março, foi grande à quantidade de pessoas que foram ver o desembarque do cangaceiro no cais da “Linqueta”. Foi o auxiliar de polícia, major Augusto Jungmann, auxiliado por mais quatro policiais pernambucanos, juntamente com a escolta potiguar, que retiraram a fera do vapor. Em meio ao alvoroço, o grupo embarcou em uma lancha que os transportou pelo rio Capibaribe, passando pelas pontes Recife e Santa Isabel.

Cais da Lingueta, Porto de Recife, 1904 - http://www.fotolog.com.br/tc2/25688752

Durante o trajeto, Rio Preto seguia ereto, ostentando uma despreocupação insolente, encarando o populacho que enchia as pontes e as margens do velho rio. Ele vestia paletó e caças brancas, camisa de linho ordinária, chapéu de massa preto e botinas pretas de “bezerro”.

Os jornais pernambucanos assim descreveram o cativo cangaceiro: “É negro fulo de estatura mediana, magro, rosto comprido e ossudo, olhos pequenos e muito inquietos, lábios grossos, e ligeiro buço; sua fisionomia não é simpática, como algumas pessoas pretendiam em comentários feitos a passagem da lancha”.

Desembarcaram na Rua da Aurora, na rampa mais próxima da chefatura de polícia. Para desgosto da multidão, Rio Preto ficou incomunicável.

O INTERROGATÓRIO

Como a chegada do cangaceiro movimentou a cidade e qualquer pessoa que falasse que conhecia Rio Preto, chamaria a atenção do povo e das autoridades.

Foi o que aconteceu com o barbeiro Antônio Barbosa, proprietário de um estabelecimento na vila de Machados, nas proximidades da cidade pernambucana de Bom Jardim, onde afirmava ter muitas vezes feito a barba não apenas neste cangaceiro, mas em Cocada e no próprio Antônio Silvino.

Rapidamente a notícia chegou aos ouvidos do Chefe de Polícia, Dr. Santos Moreira e logo uma guarnição trouxe o barbeiro à chefatura, onde ele ficou frente a frente com o cangaceiro. Guardada as circunstâncias, foi como um encontro de dois velhos amigos, estando assim confirmada a identidade de Rio Preto.

Destaque nos jornais

O interrogatório do detido encerrou às seis da noite, mesmo assim havia uma multidão calculada em 400 pessoas na porta da chefatura. Para evitar distúrbios, o preso foi retirado pela porta dos fundos, na Rua União, sendo levado a pé para o posto policial da Boa Vista, lá foi fotografado por Luís Santiago.

O cangaceiro seria interrogado mais duas vezes, sempre interrogatórios longos. Uma coisa chamou a atenção dos jornalistas pernambucanos; um enorme patuá que era usado pelo cangaceiro[7].

Alguns dias depois foi trazido para uma acareação com Rio Preto, o cangaceiro conhecido pela alcunha de “Relâmpago”, que estava detido em Timbaúba.[8]

A ENTRADA NO BANDO E AS PRIMEIRAS LUTAS

Seu nome era Firmo José de Lima, nasceu em 1882, no lugar São Vicente, pertencente então ao município pernambucano de Timbaúba, a 98 quilômetrosda capital.[9]

São Vicente Ferrer, Pernambuco, na atualidade

Segundo Rio Preto, quando tinha 17 anos e trabalhava na propriedade “Junco”, de Manoel Francisco, em Umbuzeiro, Paraíba, provavelmente entre o segundo semestre de 1901 e o primeiro de 1902, chegou Antônio Silvino acompanhado de nove cangaceiros e assaltou a casa do seu patrão, que foi bastante surrado. Então para não morrer, o jovem Firmo teria, segundo sua versão, teria sido forçado a seguir com o bando e se transformou em Rio Preto, devido a sua cor.

Dois anos depois, em uma estrada nas proximidades do lugar “Mogeiro de Cima”, Rio Preto afirmou que Antônio Silvino lhe ordenara surrar três viajantes, sem razão para isto. Houve uma discussão e os dois só não foram às vias de fato devido à intervenção de Cocada, o mais respeitado componente do bando de Silvino, que mesmo assim ficou ao lado de Rio Preto na contenda.

Este entrevero deu lugar a uma cisão, na qual Cocada seguiu com os “cabras” Rio Preto, Relâmpago, Nevoeiro e Barra Nova. Junto a Antônio Silvino permaneceram Tempestade, Ventania, Baliza e Dois Arroz, sendo o grupo de Cocada ampliado com outros homens aos quais ele não declinou os nomes.[10]

Um fato interessante declarado por Rio Preto foi que, mesmo com a cisão, quando Antônio Silvino tinha um “trabalho” importante para fazer, que exigia gente experiente e decidida, mandava chamar Cocada e seu bando para participarem. Após a realização do trabalho, Antônio Silvino sempre marcava um novo encontro com Cocada em um mês ou dois meses.

Antônio Silvino

Entre as particularidades de Antônio Silvino, Rio Preto comentou que ele dormia muitas vezes nos canaviais, nas matas, em local sabido pelos companheiros, mas fazia questão de dormir separado do grupo. Informou que suas armas eram um rifle com 16 tiros, uma pistola “mause” e um punhal, “medindo dois palmos de lâmina”.[11]

VIDA DE CANGACEIRO

Uma das façanhas narradas por Rio Preto foi o assalto a Manoel Belo, no lugar “Mácapá, onde os grupos de Cocada e Antonio Silvino se uniram. [12]

Cocada estava no lugar “Gitó”, quando foi chamado por Silvino para roubar e matar Manoel Belo, mas Cocada afirmou que iria para o roubo e não para matar o fazendeiro, tendo Antônio Silvino aceitado com muita relutância. Chegando ao pequeno arruado, Cocada, Rio Preto, Relâmpago, Baliza e Tempestade, invadiram a pequena casa que servia de delegacia, um deles desarmou o único militar presente, um cabo, e o obrigaram a servir de guia até a casa de Manoel. Na casa, Silvino anunciou que era o sargento de Timbaúba, Lopes de Macedo e que queriam café. O iludido fazendeiro abriu a porta e teve um rifle apontado diante do seu rosto. Os cangaceiros passaram ao saque e conduziram o produto do roubo em um cavalo. Saindo de “Macapá”, seguiram para o lugar “Pirauá” e lá dividiram o saque e os grupos partiram por caminhos distintos.

O bando de Cocada passou a sofrer forte perseguição, sendo necessário dissolvê-lo por um período. Cocada homiziou-se no engenho “Pagi”, em Nazareth, já Rio Preto seguiu para o engenho “Barrocas”, com recomendações do major Philomeno Nestor e José Rezende, tendo deixado com este último um fuzil Comblain, que lhe foi fornecido pelo major Philomeno. [13]

Fuzil Comblain

Esta parte do interrogatório mostra a relação promiscua que havia entre os grupos de cangaceiros e alguns proprietários de engenhos da Zona da Mata de Pernambuco. Esta relação muitas vezes era uma forma de defesa dos proprietários de terra e tática de sobrevivência dos cangaceiros.

Em outro caso narrado pelo capturado cangaceiro, ele conta que dois anos antes, Antônio Silvino e Cocada foram à casa do Sr. João Guilherme, proprietário do engenho “Jundiaí”, em Bom Jardim, Pernambuco, onde Silvino entrou e Cocada ficou fora aguardando por duas horas a saída do grande cangaceiro. Foram dormir no canavial, saindo do local por volta das quatro da manhã, seguindo para o lugar Olho D’água. Não sabe Rio Preto o que Antônio Silvino tratou com este fazendeiro, mas nunca sua propriedade foi atacada.

Sobre a procedência de armamentos, Rio Preto comentou que não sabe quem forneceria este material a Antônio Silvino, mas narrou que um comerciante de Campina Grande, conhecido apenas como “Frederico”, havia entregue doze ou treze caixas de cartuchos de rifles. Os fornecedores de armas e munições para cangaceiros, tanto no período de atuação de Antônio Silvino, como na época de Lampião, continua sendo um mistério até hoje, mas mostra como era dúbio e tênue o papel das autoridades e homens de poder, junto a estes bandoleiros.[14]

Coronel José Belém de Figueiredo - http://afamiliamarcos.blogspot.com

Outro caso desta relação é exemplificado quando Rio Preto conta que soube ter Antônio Silvino conseguido colocar três dos seus cangaceiros, Dois Arroz, Pau Reverso e Manoel Ventura, nas fileiras da própria polícia do Ceará, através do intermédio do coronel Belém, da cidade do Crato[15].

COMBATES

Algum tempo depois, ainda homiziado no engenho “Barrocas”, Rio Preto soube que sua identidade era conhecida de muitos e seguiu para a Paraíba, no lugar “Aroeira”, onde reencontrou Cocada e Antônio Silvino.

Unidos os grupos, tomaram destino para “Fagundes”, ainda na Paraíba, para matar um empregado do fazendeiro José Alves, por ser atribuída a este morador a delação que levou a morte do cangaceiro “Papa-mel”, do grupo de Silvino. Após este ato, seguiram para o lugar “Surrão”, onde Antônio Silvino tomou do negociante Manoel de Mello um rifle e presenteou a Cocada.

Foi no “Surrão”, que anos antes Antônio Silvino e Cocada travaram um cerrado tiroteio com as forças do Alferes Paulino Pinto, da polícia da Paraíba e o capitão Angelin, da polícia de Pernambuco. Rio Preto conta que neste combate, os cangaceiros ali entrincheirados estavam em número de 50 e o mesmo não participou desta luta por estar doente[16].

As ações de Antônio Silvino eram sempre estampadas nos jornais nordestinos

Rio Preto contou que Antônio Silvino assassinou, na madrugada de 15 de fevereiro de 1903, o subdelegado Francisco Antônio Sobral, crime praticado na casa da vitima, pela razão deste militar ter travado um tiroteio com o quadrilheiro no lugar “Torres”, próximo a “Aroeira”. Pela mesma razão, Marcos dos Pinhões e Severino de tal, tiveram igual sorte. Após estes crimes, os cangaceiros foram almoçar na casa de Antônio Poggy, nas “Guaribas”[17]

Comentou Rio Preto que no lugar “Mogeiro”, do fazendeiro conhecido por major Nô, Antônio Silvino e seu bando assassinaram o ex-sargento da Força Pública da Paraíba Manoel Paes, que quando a serviço do governo, perseguia os cangaceiros[18].

Outro fato narrado foi o assalto a Pilar, na Paraíba, onde os dois grupos, tendo Antônio Silvino à frente, trajando um uniforme de capitão e todos os cangaceiros se dizendo policiais, atacaram a cadeia do lugar. Em seguida prenderam o carcereiro, tomaram as armas de dois soldados e soltaram os presos. Passaram a fazer uma arrecadação no lugar, tendo o comerciante Joaquim Pio Napoleão, chefe político local, fornecido a maior quantia[19].

AS MULHERES E O “RIFLE DE OURO”

Entre uma série de façanhas narradas pelo prisioneiro, cometidas pelo bando de Antônio Silvino e o subgrupo de Cocada, Rio Preto narra dois casos singulares, envolvendo a figura do grande chefe bandoleiro e as mulheres.

O primeiro caso é comentado em uma reportagem publicada no mesmo periódico “A Província”, no dia 4 de abril, onde o detido afirmou que a cerca de dois anos, o chefe havia, em duas ocasiões distintas, encontrado refúgio por mais de quinze dias no engenho pernambucano de “Palmas”, ou “Palmas de Orobó” nas proximidades do lugar Bizarra, as margens do rio Orobó e a poucos quilômetros da cidade homônima.

Sabia Rio Preto que a propriedade pertencia a uma mulher conhecida como “Dona Zezé”, mas não informava se Silvino utilizava o engenho como “refúgio”, ou havia alguma relação mais íntima com a proprietária. Finalizava o detido informando que ao deixar o grupo de Cocada, soubera que Silvino e a “Dona Zezé” estavam intrigados e tratavam-se como inimigos.

Já o outro caso envolvia um fato que adquiriu certa repercussão em Pernambuco. Alguns meses antes da prisão de Rio Preto, no dia 21 de fevereiro de 1906, o jornal pernambucano “A Província”, publica matéria onde traz a tona o suposto caso entre o chefe cangaceiro e a jovem Antônia Francisca de Paula. Esta bonita mulher, com 19 anos, juntamente com dois irmãos, foram detidos para serem interrogados na cidade de Cortês, Pernambuco. A polícia buscava esclarecer a existência de uma possível ligação entre Antônia e sua família, com Silvino. Ela afirmou conhecer Antônio Silvino há apenas dois meses, declarando não ter nenhum tipo de relação com chefe quadrilheiro e sabia apenas que o mesmo tinha uma amásia de nome “Sebastiana”.

A cidade de Côrtes, Pernambuco, na atualidade. http://www.promata.pe.gov.br/

Já Rio Preto contou situação bem distinta. Afirmou o prisioneiro que conhecia Antônia, tendo tido oportunidade de encontrá-la, em agosto de 1905, na casa de um velho conhecido como “Cabeça Branca”. Neste lugar, a jovem Antônia teria participado de uma festa com os cangaceiros, tendo dançado e tocado um instrumento musical por toda à noite. Comentou Rio Preto que pela noite de alegria, Cocada lhe teria dado 10R$000 (dez mil réis). Já  sobre Antônio Silvino, o opinião era que o chefe “não gosta de dançar, é inimigo de sambas”.

A reportagem finaliza comentando, sem maiores detalhes, que foi apresentado a Rio Preto uma foto de Antônia e que o mesmo reconheceu a mulher.

O COMPANHEIRO COCADA E A SAÍDA DO BANDO

Sobre Cocada, o seu companheiro de lutas, Rio Preto afirmou que seu nome verdadeiro era Manoel Marinho, sendo natural de Guarita, vila localizada a menos de dez quilômetros da cidade paraibana de Itabaiana e teria cerca de 40 anos em 1906.

Foto meramente ilustrativa da ponte ferroviária no próximo a vila da Guarita, Itabaiana, Paraíba. Foi nesta vila que nasceu o cangaceiro Cocada - http://estacoesferroviariaspb.blogspot.com

Mário Souto Maior comenta, sem informa datas, que Cocada morreu em combate no lugar chamado Serrinha, na Paraíba. No seu local de morte, o povo ergueu um cruzeiro. O folclorista Evandro Rabelo, ao passar pelo local, viu depositado na base da cruz, alguns ex-votos de pessoas que obtiveram graças por intermédio deste cangaceiro.

Durante o interrogatório, transcrito pelos jornais, percebe-se uma tendência de Rio Preto em demonizar a figura de Antônio Silvino e ele pouco relata os crimes praticados por Cocada.

Um único caso é comentado sobre este cangaceiro e seu bando; Cocada, Rio Preto, Relâmpago e Nevoeiro atacaram a propriedade de Francisco Paes, morador do lugar “Massapê”, que teria respondido com uma ameaça ao pedido de dinheiro de Cocada. Em meio ao saque, Relâmpago, a mando de Cocada, assassinou friamente o filho do fazendeiro. Depois deste ato, Rio Preto deixa o bando em dezembro de 1905, buscando sua companheira e seguindo em direção norte.

Em Mamanguape esteve trabalhando para uma senhora conhecida como Dona Aninha, mas se retirou desta área quando soube que o delegado local estava a sua procura para esclarecer se sua mulher estava com ele por livre vontade ou fora raptada.

Com esta desconfiança, decidiu Rio Preto seguir mais para norte, para o Rio Grande do Norte, mais precisamente em Goianinha, onde foi preso.

Casa de Detenção do Recife, início do século XX - http://www.ibamendes.com

Rio Preto depois seria recambiado para a Casa de Detenção de Recife, onde em agosto de 1907 foi condenado a nove anos de prisão.

Segundo o pesquisador Sérgio Dantas, dois anos depois da prisão de Rio Preto, o mesmo morreu de uma ferida na penitenciária de Recife.

Este caso, apesar de se já ter sido comentado em livros sobre a vida de Antônio Silvino, possui outros detalhes que são pouco conhecidos dos que se debruçam sobre o tema cangaço[20].

NOTAS


[1] A descrição da mulher que acompanhava Rio Preto, se encontra respectivamente  em Dantas, S. A. de S., op. cit., 2006, p.p. 96. e nos jornais “A Republica”, Natal, de 30 de março de 1906, p. 2. e “A Provincia”, Recife, 4 de abril de 1906

[2] Segundo Jornal “A Provincia”, Recife, 27 de março de 1906, p. 1.

[3] Ver “A Republica”, edição de 6 de março de 1906, na seção “Secretaria de Polícia”, onde esta notícia vem publicada em um ofício desta repartição, datado de 23 de fevereiro de 1906, p. 1. Já a edição de “A Republica”, de 9 de fevereiro, informa que fora remetido para a cadeia de Goianinha, João Antonio de Oliveira, preso em Santo Antonio, onde confessou seu envolvimento neste assalto. Os jornais pesquisados que comentam a prisão de Rio Preto sejam do Rio Grande do Norte ou de Pernambuco, não apresentam nenhum comentário, ou transcrição de documentos oficiais que indiquem a participação deste cangaceiro neste assalto. Em outros documentos oficiais, igualmente não encontrei menção a este fato.

[4] A Republica, 30/06/1906, p. 2.

[5]A Província”, de 27/03/1906, p. 1, indica que a prisão ocorreu na segunda-feira, 19 de fevereiro e aponta detalhes sobre o relacionamento do cangaceiro e Ana Maria.

[6] Em ofício da Secretaria de Polícia, de 20 de fevereiro e publicado na edição de “A Republica”, de 25/03/1906, constam maiores detalhes da prisão em Goianinha.

[7]A Província”, de 27/03/1906, p. 1.

[8] “Relâmpago” se chamava José do Carmo Felipe dos Santos, já era um cangaceiro velho, com mais de 50 anos quando foi preso, junto com seu filho Francisco do Carmo Santos. Foi descrito como “pardo escuro, de olhos pequenos e turvos, baixo, velho, de 55 anos presumíveis (…) Não é inteiramente antipático. Mostra-se humilde e fala compassada e brandamente”. Quando da sua prisão, Relâmpago fez comprometedoras declarações sobre as relações entre Antônio Silvino com policiais, a sua rede de protetores e até seus hábitos pessoais. Ver Dantas, S. A. de S., op. cit., 2006, p.p. 91 e 92.

[9] Atual município pernambucano de São Vicente Férrer.

[10] Ver Dantas, S. A. de S., op. cit., 2006, p.p. 76 e 77. Já Fernandes, R. op. Cit. p. 57, informa que cisão no grupo ocorreu pelo fato de Cocada ter torturado e violentado uma mulher, caindo no desagrado do chefe Silvino.

[11] Em relação às armas de fogo mencionadas, o rifle de 16 tiros provavelmente deveria ser da marca Norte-americana Winchester, em calibre 44, modelo mais conhecido no Nordeste como “talo de mamão” devido às dimensões do cano. Já a pistola deveria ser de procedência belga, marca FN, em calibre7,65 m.m. Estas armas eram muito difundidas no Brasil nesta época, bem como os tipos de munições utilizadas.

[12] Atual município pernambucano de Macaparana.

[13] Atual município pernambucano de Nazaré da Mata.

[14] Provavelmente o Frederico indicado deveria ser o coronel Frederico Lundgren, de origem dinamarquesa, comerciante e industrial em Campina Grande, figura de grande destaque nesta importante cidade paraibana.

[15] Este coronel Belém não é outro senão o coronel José Belém de Figueiredo, que no começo de 1904 rompeu no Crato a aliança política entre ele e o coronel Antonio Luís Alves Pequeno, com declaração de uma guerra entre as duas facções. Deste conflito ocorrido no sul do Ceará, participou ativamente membros da família Carvalho de Serra Talhada, onde um grupo de “cabras” comandado por Antônio Clementino de Carvalho (conhecido como Antônio Quelé, ou Quelé do Pajeú), contribuiu decisivamente para a vitória do coronel Antônio Luís. Segundo Rio Preto, aparentemente Antônio Silvino teria contribuído com a facção do coronel Belém, cedendo seus “cabras”, conseguido vantagens para seu bando, mesmo não participando diretamente deste conflito. Sobre os contatos de Antônio Silvino e de membros do seu bando no Ceará, ver Fernandes, R. op. Cit. P. 55, e Dantas, S. A. de S., op. cit. 2006, p. 99.

[16] O combate do Surrão ocorreu no dia 23 de junho de 1900, em território paraibano, entre Itabaiana, a Vila de Ingá e a fronteira com Pernambuco. A força policial conjunta teria em torno de 110 homens. O grupo de Silvino abre fogo e o grupo de policiais paraibanos avança corajosamente, o Alferes Paulino recebe três disparos, mas continua a combater. Provavelmente incentivados pela demonstração de coragem do oficial paraibano, o restante dos policiais aumentam a força do ataque, matando e capturando vários bandoleiros. Só uma pequena do bando escapou. Para Silvino, o combate do Surrão lhe deixou um saldo negativo de 15 cangaceiros mortos. Destes seis morreram em combate e nove foram cruelmente executados, um de cada vez, a golpes de punhais, o conhecido “sangramento”. O Alferes Paulino, mesmo ferido, participou do ato bárbaro e covarde “até cansar o braço”. No outro dia, devido à gravidade dos seus ferimentos, o oficial faleceu. O número de 50 homens, ao qual Rio Preto comente ter o bando de Antônio Silvino, aparenta ser exagerado. Sobre este combate, ver Dantas, S. A. de S., op. cit., 2006, p.p.43 a 45 e José Joffily, in “Revolta e Revolução”, p.p. 60 e 61 (Ed. Paz e Terra, Rio de Janeiro / RJ, 1979, 454 pgs.).

[17] Em Dantas, S. A. de S., op. cit., 2006, p.p. 62 e 63, encontra-se a narrativa deste acontecimento, que foi assim romanceado pelo poeta João Martins de Athayde;

“A quinze de fevereiro,

De novecentos e três.

No povoado Filgueiras.

Encontrei um mal freguês.

Francisco Antônio Cabral,

E matei-o dessa vez.” 

No livro “A literatura de cordel no Nordeste do Brasil – Da história escrita ao relato oral”, de autoria da professora da UFRN (Universidade Federal do Rio Grande do Norte), Julie Cavignac (Editora EDURFN, Natal / RN, 2006. 363 pgs.), na página 297, informa que o poeta paraibano João Martins de Atahyde (1878 a1959), foi um poeta popular que chegou a tornar-se proprietário de uma empresa de impressão gráfica em Recife. Conheceu pessoalmente Antônio Silvino, utilizou fartamente sua saga como tema para suas poesias, sempre defendendo as atuações deste cangaceiro.

[18] Mário Souto Maior, no livro “Antônio Silvino – Capitão de trabuco”, na página 37 (Edições Bagaço, Recife / PE, 2001, 125 pgs.), comenta sobre esta morte.

[19] Ver Maior, M. S., op. Cit., 2001, p.p. 37 e 38.

[20] Praticamente são apenas dois livros que trazem informações sobre este caso. O pioneiro “Antônio Silvino no RN”, do falecido médico Raul Fernandes (Editora Clima, Natal / RN,1990. 185 pgs.)  e “Antônio Silvino: o cangaceiro, o homem, o mito”, do juiz de direito Sergio Augusto de Souza Dantas (Editora Cartgraf, Natal / RN, 2006. 313 pgs.) são as principais fontes.

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