A MARAVILHOSA E HISTÓRICA PRAIA DO MARCO

DSCF3370 - Cópia

- Este texto dedico ao amigo Crhristopher Sellars, o inglês mais pernambucano que conheço, que mora em Vila Velha, na Ilha de Itamaracá, estuda a nossa história colonial, luta pela preservação daquela bela parte de Pernambuco e em breve virá ao Marco. Seja bem vindo amigo! 

Voltando do Planalto Central, mas precisamente de Goiânia e Brasília, hoje (9/4/2014) a tarde fui a bela e tranquila Praia do Marco, no município de Pedra Grande, a 170 km de Natal. É uma paisagem bem distinta do centro do Brasil e fantástica.

DSCF3332

Quer conhecer um paraíso? Visite a Praia do Marco, fica entre Pedra Grande e São Miguel de Gostoso aqui no Rio Grande do Norte. Formada por dunas enormes, a praia é linda, aconchegante, própria para o descanso, com piscina natural, arrecifes, boa para prática de windsurfe, boa para pesca, muitas áreas virgens ainda sem ser habitada, e o principal: o primeiro marco colonial implantado no Brasil.

DSCF3355 - Cópia

Apesar da importância histórica desse marco colonial, o fato é conhecido, no geral, apenas por estudiosos e historiadores. Existem investigações e até livro publicado sobre a história do Marco que para maior parte da população estava incógnito.

DSCF3358 - Cópia

Por ordem real do rei D. Manuel I, 3 embarcações comandada pelo o capitão-mor André Gonçalves, Gaspar de Lemos e Américo Vespúcio, deixaram Portugal com destino a nova terra. Dia 7 de Agosto de 1501 a frota chegou à orla marítima da cidade de Touros na divisa dos municípios de São Miguel de Gostoso e Pedra Grande: praia do Marco.

DSCF3359 - Cópia

Para Câmara Cascudo, o Marco de Touros muda a rota do Descobrimento. Suas pesquisas e estudos comprovam que a posse e a propriedade do Brasil se deram, não em Porto Seguro na Bahia, mas na praia do Marco. Do ponto de vista jurídico, pode-se dizer que o Brasil nasceu, para conhecimento de outras nações, no Rio Grande do Norte.

DSCF3356 - Cópia

Cascudo descobriu o monumento, identificou o Marco e fez um livro sobre o assunto. O dia 7 de agosto foi escolhido como a data do aniversário do Rio Grande do Norte, porque nesta mesma data, no ano de 1501, aconteceu, em terras potiguares, um dos mais importantes fatos históricos do país: a fixação do primeiro Marco de Posse colonial da terra brasileira por Portugal.

DSCF3365 - Cópia

Fato que para muitos historiadores, representa o registro de nascimento do Brasil. e para muitos o mais antigo, existente, da toda colonização portuguesa, e sua fincagem foi o primeiro acontecimento histórico no território potiguar e também o evento oficial de posse do país.

DSCF3360 - Cópia

Outros Marcos foram deixados no litoral brasileiro, um no litoral baiano e outro na praia da Cananéia, São Paulo, sendo o de Touros o mais antigo. A esquadra que realizara esta travessia era formada por três caravelas, saindo de Lisboa. Quando os portugueses, na sua política expansionista, chegavam às terras descobertas, deixavam o marco, oficializando a tomada de posse de territórios que descobriam como sendo exclusivamente de Portugal. Eram colunas de pedra, de altura variável, encimadas por uma cruz com inscrições em português, latim e árabe, que os portugueses passaram a usar como prova de suas descobertas e símbolos de sua fé.

DSCF3366 - Cópia

O Marco de Touros é uma pedra calcária de granulação fina, provavelmente de mármore português ou lioz, medindo 1,20 m de altura; 0,20 m de espessura, 0,30 m de largura; 1,05 m de contorno. Na parte superior, contém a cruz da Ordem de Cristo (a famosa Cruz de Malta) em relevo e, abaixo, as armas do rei de Portugal e cinco escudetes em aspas com cinco quinas, sem as bordaduras dos castelos.

DSCF3384 - Cópia

O Marco de Touros é também cultuado pela comunidade de Cauã, como se fosse santo, e o chamam até de “Santo Cruzeiro”. O culto ao Marco surgiu em decorrência da falta de conhecimento das características da pedra e das inscrições nela contidas, como, por exemplo, a cruz que representa o símbolo da Ordem de Cristo. Esses fatores levaram a comunidade a crer que o Marco era realmente divino, vindo diretamente de Deus para eles.

DSCF3380 - Cópia

Os habitantes dessa comunidade acreditavam que tirar algumas lascas de pedra do Marco de Touros para fazer chás não se constituía como uma agressão e sim como uma cura para suas doenças. A comunidade, pela sua obsessão religiosa, contribuiu para que o avanço do mar não viesse a destruir o precioso acervo – que foi o primeiro monumento histórico do Brasil português – pois, a cada avanço do mar, o Marco era deslocado do alvo das ondas.

DSCF3369 - Cópia

Desde 1976, encontra-se nas dependências da Fortaleza dos Reis Magos, quando ele foi tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Cultural. Na praia do Marco, existe uma réplica do Marco, que mantém a tradição, os mitos, a crença do povo e reforça a ideia de que a ação religiosa dos habitantes preservou um patrimônio que, de outra forma, teria sido destruído.

DSCF3373 - Cópia

Fontes - http://geovanycavalcante.blogspot.com.br/2011/01/conheca-praia-do-marco-paraiso-potiguar.html

http://nataldeontem.blogspot.com.br/2009/11/marco-de-touros.html

NOTA  - Todos os direitos reservados

É permitida a reprodução do conteúdo desta página em qualquer meio de
comunicação, eletrônico ou impresso, desde que citada a fonte e o autor.

 

 

A NOVEMBRADA

O potiguar João Café Filho, conhecido em Natal como João Café

O potiguar João Café Filho, conhecido em Natal como João Café

Como um dos motes do Blog é não a deixar ser esquecida, vamos a um dos episódios menos estudados e mais controversos da história nacional: a Novembrada.

Como se sabe, a história do Brasil pós-imperial sempre foi marcada por sedições militares. A própria proclamação da República foi um golpe. Desde então, quase sempre que os gorilas saíram das gaiolas, era sinal de que a ordem democrática estava vindo abaixo. Foi assim em 1930, 1937 e 1964. Mesmo no golpe de 1946, a derrubada de Getúlio Vargas não estava ligada exatamente aos pendores democráticos dos militares, mas ao fato de que a eleição seguinte colocaria na presidência ou um general (Eurico Gaspar Dutra) ou um brigadeiro (Eduardo Gomes).

No entanto, numa história marcada por movimentos contra os poderes constituídos, em pelo menos uma ocasião os militares saíram dos quartéis para garantir a continuidade da ordem democrática. Foi a chamada Novembrada.

Os tempos eram estranhos. Um ano antes, Getúlio matara-se com um tiro no peito diante de um levante deflagrado pelo atentado da Rua Tonelero. Associado aos militares que queriam derrubar Vargas, seu vice Café Filho era visto com desconfiança pela população. O Ministro da Guerra, Euclides Zenóbio da Costa, tinha articulado o Manifesto dos Generais, no qual os oficiais pediam a cabeça de Getúlio. Tudo isso e mais uma eleição na qual os dois principais candidatos representavam dois lados opostos do espectro político: de um lado, Juscelino Kubitschek; do outro, Juarez Távora. Enquanto JK representava de certa maneira a continuidade do populismo de Getúlio Vargas, Juarez Távora – um ex-tenentista – era a expressão máxima do conservadorismo e do anti-comunismo das forças armadas.

Henrique Teixeira Lott

Henrique Teixeira Lott

Para manter a normalidade institucional e, claro, salvar seu cargo, Café Filho destituiu Zenóbio da Costa e colocou em seu lugar Henrique Teixeira Lott, um oficial legalista muito respeitado no Exército. Para manter as aparências, manteve as eleições marcadas para outubro de 1955. Achava-se, então, que seria possível manipular o povo e convencê-lo a votar em qualquer coisa que se opusesse à continuidade da Era Vargas.

Faltou combinar com os russos. Abertas as urnas, JK obteve 35% dos votos. Como na época não havia segundo turno, JK levou o pleito, ainda que a diferença para o segundo colocar (Juarez Távora) tenha ficado em apenas 5% do total.

Obviamente, os golpistas de 54 não ficaram resignados com a derrota. Valendo-se da circunstância constitucional que permitia eleições para cargos majoritários sem a necessidade de maioria absoluta dos votos, começaram uma campanha contra a posse de Juscelino. Ora dizia-se que JK não obtivera o apoio da maior parte da população – o que era verdade, mas, segundo a Constituição de 1946, paciência – ora dizia-se que o “apoio comunista” à candidatura de Juscelino punha em risco a continuidade da ordem democrática. No fundo, a questão era bem mais simples: o candidato dos militares havia perdido.

Nos quartéis, o burburinho de agosto de 1954 havia voltado. Falava-se abertamente em golpe e ninguém estava disposto a engolir JK na presidência. Até que chegou novembro.

No dia 1º daquele mês, um coronel bem articulado chamado Bizarria Mamede destampou a panela de pressão. Durante o enterro do presidente do Clube Militar, discursou abertamente contra a posse dos representantes eleitos. Segundo ele, a eleição de outubro consagrara uma “indiscutível mentira democrática”, pois alçaria à condição de “mais alto mandatário da nação” um postulante eleito pela “minoria”.

Lott fica possesso com a insubordinação. Quer punição imediata para Mamede. Dentro das regras de hierarquia, Mamede deveria no mínimo perder o posto de comando; no máximo, arrostar alguns dias de cadeia. Mas os golpistas jogavam outro jogo.

O presidente Café convalescente, sendo visitado por Nereu Ramos e um militar

O presidente Café convalescente, sendo visitado por Nereu Ramos e um militar

Dois dias depois, sob o pretexto de estar doente, Café Filho sai de cena para dar lugar a Carlos Luz, presidente da Câmara dos Deputados. Afinal, não haveria quem acreditasse que não houvera rompimento da ordem democrática se na presidência estivesse o vice que conspirara contra o titular do cargo.

No segundo lance, o consultor-geral da República, Themístocles Brandão Cavalcanti informa em parecer que Lott não tinha competência para punir Mamede. Punição, se cabível, somente se viesse do presidente da República.

No terceiro e derradeiro lance, Lott vai a Carlos Luz exigir a punição pela quebra de hierarquia. Como Luz negasse o castigo, Lott entrega o cargo. Não iria compactuar com indisciplina na tropa.

Sem perceber, Lott cumprira exatamente o roteiro previsto pelos golpistas. Sabendo que sem o apoio do Ministério da Guerra qualquer tentativa de golpe seria uma tolice, a remoção do marechal era condição sine qua non para impedir a posse de Juscelino.

À noite daquele dia, oficiais um pouco mais astutos foram à casa de Lott. Expuseram-lhe de forma didática a armadilha na qual caíra. E rogaram: bote a tropa na rua e impeça o golpe que está em curso.

Lott ficou numa encruzilhada. Estava então na paradoxal situação de ter de quebrar a legalidade para defendê-la. Após uma noite de insônia, Lott ordenou à tropa que fosse ao Catete depor Carlos Luz. O golpe contra a posse dos eleitos estava tecnicamente quebrado.

Em pânico, os golpistas ainda quiseram trazer Café Filho de volta. Subitamente restabelecido da doença que o afastara da presidência, Café Filho na presidência poderia significar novo risco às instituições democráticas. Como onde passa um boi, passa uma boiada, Lott não pestanejou: arrancou do Congresso o impedimento de Café Filho. No seu lugar, colocou o vice-presidente do Senado, Nereu Ramos, leal a JK.

Lott passa em revista suas tropas

Lott passa em revista suas tropas

Com a ordem constitucional salvaguardada pelas baionetas de Lott, Juscelino pôde assumir a presidência e o golpe foi adiado por nove anos. Claro, os golpistas, os revisionistas históricos e até mesmo Elio Gaspari enxergaram na Novembrada de Lott um golpe, mesmo.

A despeito da grita geral, Lott continua ostentando o título de único militar brasileiro que foi às armas para defender a ordem democrática contra militares golpistas.

Coisas do nosso Brasil…

Fonte – http://blogdomaximus.com/2013/08/30/a-novembrada/

PEQUENA HISTÓRIA DOS BONDES DE NATAL

Bonde da linha do Alecrim, fotografado em fins de 1942, pelo oficial da USAAF Robert C. Henning. Fonte - Livro Eu não sou herói-A história de Emil Petr, de Rostand Medeiros, 2012, pág. 92

Bonde da linha do Alecrim, fotografado em fins de 1942, pelo oficial da USAAF Robert C. Henning. Fonte – Livro Eu não sou herói-A história de Emil Petr, de Rostand Medeiros, 2012, pág. 92

Este texto foi originalmente produzido por Augusto Severo Neto e publicado no Jornal Dois Pontos, edição semanal de 15 a 21 de junho de 1984, na sua coluna “Ontem vestido de menino – XXX”. Eu  li e guardei esta página ao longo destes quase 30 anos, com um desejo de não esquecer os registro de uma Natal que não existia mais, que não conheci, mas que achava importante conhecer através dos escritos de quem viveu naquela época. Infelizmente não consegui conservar perfeitamente este documento, as traças levaram um pedaço, mas o que trago dá uma ideia do meio de transporte mais marcante da antiga Natal  

Quando eu “cheguei”, os bondes puxados a burro já haviam dobrado a esquina do tempo. Também já haviam desaparecido as empresas que haviam explorado esse lírico meio de transporte. Primeiro foi a Ferro Carril de Natal, nos fins de março de 1908, no governo Alberto Maranhão, que, naturalmente, como magistrado supremo desta simpática sesmaria que é o Rio Grande do Norte, Capital Natal, presidiu a instalação solene deste meio de transporte.

E houve aquela pressa em assentar os trilhos, em comprar os bondes, que vem lá de longe, de Belém do Pará, e em adquirir os burros de tração, para tirar as viaturas. Eram burros de raça, fortes e custaram uma nota. R$ 250.000 (Duzentos e cinquenta mil reis) cada.

O primeiro trecho da linha ia da rua Dr. Barata à Praça Padre João Maria. Na “viagem” inaugural, ocupavam os assentos do novo transporte, o Governador Alberto Maranhão, o Senador Ferreira Chaves, o Deputado Juvenal Lamartine, o Presidente da Intendência Joaquim Manoel Teixeira (cargo equivalente atualmente ao de prefeito), algumas pessoas gradas e, naturalmente, os dirigentes da empresa.

As linhas foram se estendendo e chegaram até o Esquadrão de Cavalaria (onde funciona hoje a Escola Doméstica). O preço da passagem era de R$ 000.100 (cem réis, ou um tostão como chamavam). O primeiro acidente ocorreu em fevereiro de 1909, quando as rodas de ferro do veículo cortaram uma das pernas do garoto Antônio Pereira Dias.

Em 1911, o Governo tomou à França um empréstimo de R$ 4.214,274$830 (quatro milhões e duzentos e quatorze mil contos, duzentos e setenta e quatro mil e oitocentos e trinta réis). Com esse dinheiro Natal teve luz e bondes elétricos, além de telefones. Crescia o conforto moderno da cidade. Isso tudo foi inaugurado em outubro daquele mesmo 1911. A Empresa de Melhoramentos de Natal, Vale de Miranda & Domingos Barros passou a gerir e explorar os novos melhoramentos da cidade. As linhas de bondes se estenderam ao Alecrim, até o Hospital dos Alienados. Em 1912 chegaram a Petrópolis. Em 1913 iam até o Tirol, onde se encontra a sede do Aero Clube. Em 1915 atingiam a praia de Areia Preta.

Foto da revista Life, realizada em fins de 1941, ou no início de 1942, mostrando um típico bonde de Natal, nos cruzamentos das Avenidas Duque de caxias e Tavares de Lyra, no bairro da Ribeira.

Foto da revista Life, realizada em fins de 1941, ou no início de 1942, mostrando um típico bonde de Natal noscruzamento das Avenidas Duque de caxias e Tavares de Lyra, no bairro da Ribeira.

Vale de Miranda e Barros se separaram e os serviços de bondes, luz e telefones estiveram a ponto de ir para o brejo, nas mãos da nova arrendatária, Cia. De Tração, Força e Luz. Aí o Governador deu uma de durão e acabou com a moleza. Mandou executar a Força e Luz. Em 1930, uma outra Cia. Força e Luz do Nordeste do Brasil assumiu a coisa, tendo a frente o inglês Mr. Brown, genro de Juvenal Lamartine. Foi aí que eu comecei a tomar conhecimento, de mesmo, com os bondes de Natal.

Com o passar dos anos, eu e os bondes, adquirimos uma grande intimidade. Chegava a sofrer com ele (se não participava do troço), quando, na subida da Avenida Junqueira Aires, defronte do velho Atheneu, os estudantes passavam sabão nos trilhos e o coitado ficava patinando no mesmo lugar, sem conseguir chegar ao fim da ladeira. Tinha aquelas vezes que, até a “viagem” até o Aero Clube do Tirol, a gente tomava o lugar do motorneiro e, a nove pontos e muitos gritos, víamos passar as mangabeiras da antiga Rua Jundiaí, ainda sem calçamento e as poucas construções da Avenida Hermes da Fonseca, entre as quais o Esquadrão de Cavalaria e a casa do Dr. Varela Santiago. O bonde corcoveava que só montanha russa e, aqui e ali, a lança saltava e a gente tinha de recolocar no lugar.

Já tatuado e metido a sebo, junto com alguns colegas, eu descia de bonde até à Ribeira , para ir a “zona”, pagar o meu tributo as mulheres-damas. Quando o bonde passava defronte de minha casa, na Junqueira Aires, eu baixava a sanefa e os outros passageiros punham a mao para fora, para ver se estava chovendo.

Um dia os bondes começaram a falecer, até que morreu o último, de abandono e ferrugem, em um galpão sem nenhum conforto. Ainda hoje sinto saudades daquela alegria amarela (a cor tradicional dos bondes), lírica e barulhenta que cortava as ruas de Natal.

088

SOBRE O AUTOR – Augusto Severo Neto é oriundo de uma família de tradição que remonta ao século XVII e que deu ao Rio Grande do Norte nomes ilustres como os governadores Pedro Velho e Alberto Maranhão, o prefeito Djalma Maranhão, o revolucionário André de Albuquerque e o pioneiro da aviação, Augusto Severo, entre outros. Sua vida profissional teve origem no comércio.

O carisma do seu ilustre avô incentivou-o a tentar, por um certo período de tempo, o campo da aviação civil. Espírito inquieto, não tardou a largar as linhas aéreas para abraçar o jornalismo, atividade em que se revelou um cronista sensível às fraquezas e grandezas humanas, em que realizou um trabalho marcante, que tocou as fronteiras do jornalismo e da literatura.

Foi membro correspondente da Academia Paulista de Letras (na vaga de Cãmara Cascudo), professor universitário (cargo em que se aposentou na Universidade Federal do Rio GHrande do Norte) e viajante.

Esta última atividade, “por fome de vida”, segundo a sua mulher, Maria Lúcia Beltrão. Mas, na opinião dela, a principal atividade de Augusto Severo Neto foi “viver e ser feliz”. Formado em Jornalismo pela UFRN, colaborou em diversos periódicos do Rio Grande do Norte de outros estados desde 1942. Sua galeria Vila Flor, foi, nos anos 70, importante ponto de encontro de intelectuais e artistas natalenses.

Apaixonado pela cultura européia, sobretudo a de extração latina, empreendeu dezenas de viagens ao Velho Continente, o que lhe rendeu alguns livros de memória e uma impressão pessoal sobre Paris, cidade a que devotava uma admiração especial. A vida cultural natalense, com seus tipos boêmios e poéticos, também lhe chamou atenção. Em De Líricos e de Loucos, Augusto Severo Neto presta tributo a essas personagens, sob a forma de crônicas.

Ao morrer, seus amigos escolheram como epitáfio para o seu túmulo, os versos:

Há caminhos de luz escondidos nas trevas
Para achá-los, porém, é preciso ir sozinho.

Os versos são do próprio poeta. Seu corpo foi sepultado no cemitério da vila de Pirangi, litoral sul potiguar, que ele mesmo escolheu como sua última morada.

(texto de Nélson Patriota)

Fonte da biografia – http://www.enciclopedianordeste.com.br/088.php

NOTA  - Todos os direitos reservados

É permitida a reprodução do conteúdo desta página em qualquer meio de
comunicação, eletrônico ou impresso, desde que citada a fonte e o autor.

O TOQUE DA SEGUNDA GUERRA

1012542_497893066986990_1239625766_n-640x480

85 ANOS, A PIANISTA NALVA NÓBREGA CONTA COMO SE INSPIROU NO CLIMA QUE NATAL VIVEU COM A PRESENÇA DOS AMERICANOS PARA PRODUZIR SEU TRABALHO MUSICAL

Autor – Henrique Arruda – NOVO JORNAL

O ano era 1942 e o mundo estava em guerra pela segunda vez. Enquanto lá fora a batalha entre países aliados e os do eixo seguia firme, Nalva Nóbrega, 85, adorava conhecer os soldados estrangeiros que chegavam em Natal. Por causa da sua timidez, que só desaparecia quando ela estava acompanhada de sua grande paixão, o piano, a caicoense deixava as tentativas de comunicação com os homens para as amigas desinibidas.

E se hoje em dia a moderna Natal não fala em outra coisa senão na Copa do Mundo e na quantidade de estrangeiros que vai passar pela cidade no período dos jogos, imagine para aquela cidadezinha pacata da época, perdida entre dunas, mar e rio, que de repente é tida como a principal base para as tropas norte-americanas durante o confronto de proporções globais!

Diante da efervescência registrada no recém-inaugurado Grande Hotel, na Ribeira, e em toda extensão da Rua Dr. Barata, Nalva e suas amigas observavam os bonitões que circulavam pela cidade. “What time is it (que horas são)?”, perguntava em voz alta a mais animada do grupo quando algum deles se aproximava, até mesmo para testar o aprendizado da língua estrangeira que estudavam no Colégio Santa Terezinha, em Caicó.

Exatamente 72 anos depois, Nalva está na sala de seu apartamento, em Petrópolis, sentada ao lado do seu piano branco, enquanto relembra esses e outros episódios da época em que Natal foi invadida pelo país da Coca Cola, chicletes e outras maravilhas, em plena II Guerra Mundial.

Foram essas mesmas memórias que lhe fizeram gravar o sexto CD da carreira como pianista. No repertório, o foco foi para as canções que costumavam tocar nos bailes e rádios de Natal naquela época. O trabalho foi lançado há pouco mais de duas semanas em sessão solene no Teatro Alberto Maranhão.

Scan_Pic0045A pianista tira da memória 20 canções, incluindo a icônica valsa “Royal Cinema” de Tonheca Dantas, que no ano passado completou 100 anos e é tida como uma das composições mais importantes para a história da música no Rio Grande do Norte.

“A BBC vivia tocando a Royal Cinema, mas dizendo que era de autor desconhecido”, recorda Nalva, carregando o mesmo brilho no olhar da caicoense que aprendeu a tocar piano aos 4 anos com sua tia. “Minha tia foi uma excelente pianista e Tonheca Dantas, inclusive, chegou a fazer uma música para ela, mas eu não tenho mais a partitura”, lamenta, apontando para o teto do escritório, onde se pode observar na prateleira uma pasta com partituras e documentos relacionados ao seu universo particular da música.

“Se for lhe contar tudo pode sentar que vai demorar. Minha vida é um romance”, adverte sem se decidir entre ficar em pé ou sentada, empolgação que carrega desde os tempos de sala de aula. Além de ser aposentada pelo Tribunal de Contas da União, Nalva também é aposentada pela UFRN, onde foi professora de contabilidade no curso de Administração.

Fonte http://www.potiguarte.blogspot.com.br/

A BELA CASA DA FAZENDA BOM DESTINO E A BIOGRAFIA DE CHICÓ PINHEIRO, EXEMPLO DE TRABALHO E LUTA NO SERTÃO POTIGUAR

Fazenda Bom Destino

Fazenda Bom Destino

Autor – Rostand Medeiros, baseado em textos dos capítulos do livro: “Nobrezas de Vida Agreste” escrito por Haroldo Pinheiro Borges e  Cláudia Bezerra Pacheco.

Sob muitos aspectos o nosso trabalho desenvolvido desde dezembro de 2010 no nosso blog TOK DE HISTÓRIA, tem chamado a atenção de muitas pessoas aqui no Rio Grande do Norte. Estas por sua vez gentilmente têm me passado informações sobre interessantes locais, pessoas e fatos da história potiguar. O que faço questão de colocar nesse nosso espaço sem nenhum problema.

Recebi recentemente do amigo Haroldo Pinheiro Borges algumas interessantes fotos de uma antiga fazenda produtora de algodão do interior potiguar e muito bem preservada. Trata-se da casa grande da fazenda Bom Destino, na zona rural do município de Lagoa de Velhos, a cerca de 90 quilômetros da capital potiguar.

Francisco Pinheiro Borges

Francisco Pinheiro Borges

Filho de Francisco Pinheiro Borges, Haroldo comentou que esta propriedade foi adquirida por seu pai ainda na década de 1920. Em nosso contato ele me passou um rico e interessante relato sobre a vida do mesmo, que muito bem exemplifica a trajetória de um homem que nasceu no início do século XX, no castigado interior do Nordeste e, vivendo e trabalhando da terra, venceu em tempos difíceis.

NAS TERRAS ONDE NASCEU FABIÃO DAS QUEIMADAS

A casa grande da fazenda Bom Destino está localizada em terras que anteriormente faziam parte de uma antiga fazenda denominada Queimadas. Esta propriedade pertenceu em tempos remotos ao coronel José Ferreira da Rocha e no ano de 1850 ali nasceu um escravo que foi batizado como Fabião Hermenegildo Ferreira da Rocha. Este ficou conhecido como Fabião das Queimadas, um dos mais importantes poetas populares do Rio Grande do Norte e que conquistou sua alforria tocando o instrumento que lhe imortalizou, a rabeca.

Francisco Pinheiro Borges, conhecido por Chicó de Ieiê, veio ao mundo no dia 05 de setembro de 1900, na fazenda Pirambu, município de São José de Mipibu. Era filho de João Batista Pinheiro Borges, conhecido como Ieiê, e de Dona Joana Ferreira de Lima. Seus avós paternos eram José Pinheiro Borges e Rosa Maria da Conceição e os maternos, Pedro Ferreira de Lima e Maria Izabel de Paiva, donos da Fazenda Japecanga, localizada no município de São José de Mipibu. Chicó de Ieiê teve quatro irmãos do primeiro casamento de seu pai: Lídio, Anália (Sinhá), Clotilde (Dona) e Joana.

Infelizmente, no dia 05 de setembro de 1905, o garoto e seus irmãos ficaram órfãos da mãe Joana Ferreira de Lima.

Chicó de Ieiê foi uma criança irrequieta, inteligente e saudável. Teve a sua criação um pouco diferente dos outros irmãos, pois começou a vida no trabalho. Com apenas dez anos veio para companhia do pai, que morava com a segunda esposa na antiga povoação de São Paulo do Juremal, então município de São Gonçalo do Amarante. Aí chegando assumiu a responsabilidade da casa, cozinhando e cuidando dos afazeres domésticos e ainda com a incumbência de tratar dos cavalos que seu Ieiê comprava para adestrá-los como bons marchadores (o que valorizava muito os animais) e vendê-los caros para a elite daquela época.

DE QUEIMADA A BOM DESTINO

Tempos depois, em 1914, seu pai adquiriu uma área que fazia parte das terras da antiga fazenda Queimadas. Esta gleba tinha uma ligação com Guarará, atual município de Lagoa de Velhos, na época pertencente ao município de Santa Cruz. Foi adquirida ao Sr. Miguel Rocha e sua mulher Izabel Ferreira da Rocha, herdeiros do coronel José Ferreira da Rocha. Chicó de Ieiê trabalhou duro na agricultura limpando a terra com a enxada, para ajudar seu pai a pagar as duas primeiras partes do sítio.

Casa de João Batista Pinheiro Borges, conhecido como Ieiê na antiga fazenda Queimadas

Casa de João Batista Pinheiro Borges, conhecido como Ieiê na antiga fazenda Queimadas

Dotado de forte dose de coragem para vencer desafios, Chicó de Ieiê adquiriu ainda muito jovem uma tropa de jumentos para transportar rapadura, que erram compradas a crédito e fabricadas nos engenhos de seus familiares em Japecanga. Ele também vendia esterco de gado para ser utilizado na adubação de canaviais.

Logo depois trocou essa tropa de jumentos por uma de burros mulos, animais maiores, mais rápidos e próprios para transportar suas cargas, que nesse estágio tomavam grandes proporções e novo rumo: o grande mercado de Natal. Para chegar a capital potiguar nesta época só através do porto do Rio Jundiaí, na cidade de Macaíba, embarcando sua mercadoria em pequenos barcos. Contava que para economizar dinheiro, ele mesmo transportava os pesados fardos no embarque e desembarque.

Era por Macaíba, aqui em uma foto antiga do acervo do amigo Anderson Tavares de Lyra, que Chicó Pinheiro transportava suas mercadorias de barco para Natal

Era por Macaíba, aqui em uma foto antiga do acervo do amigo Anderson Tavares de Lyra, que Chicó Pinheiro transportava suas mercadorias de barco para Natal

Chicó era um rapaz simpático, elegante e envolvente. Buscou aprimorar-se na arte de falar e se comunicar, sempre preservando a todo custo a lisura e o cumprimento de sua palavra. Comprar e vender tornou-se parte do seu dia a dia. Isso o fez cada dia mais conhecido e respeitado em sua região pelo desenvolvimento e importância de seu trabalho. Dizia que para ser rico se fazia necessário apenas trabalhar, economizar e gastar sempre menos do que ganhava.

A gratidão fazia parte de sua vida. Fechava o dia com “Chave de Ouro” agradecendo a Deus por mais um dia de trabalho e os resultados alcançados.

O tempo foi passando e aos 24 anos, com dinheiro adquirido do fruto do seu trabalho, Chicó de Ieiê comprou a sua primeira propriedade. Esta igualmente ficava na área da antiga fazenda Queimadas, vizinho às terras de seu pai e pertencentes aos herdeiros do coronel José Ferreira da Rocha. Consta que em quase sua totalidade o local ainda era coberto de mata virgem. Ao lugar Chicó de Ieiê denominou de Bom Destino.

Caminhão abarrotado de fardos de algodão. A plantação desta malvácea foi um grande impulsionador da economia nordestina

Caminhão abarrotado de fardos de algodão. A plantação desta malvácea foi um grande impulsionador da economia nordestina – Foto ilustrativa

Não havia trabalho que lhe afligisse. Foi ambulante das feiras livres das pequenas cidades que surgiam as margens do Rio Potengi. Logo expandiu seus negócios de compra e venda de cereais, gado, couro de boi e de miunças (pele de ovinos e caprinos), um mercado novo e promissor onde ganhou muito dinheiro. Chicó não se descuidou de plantar o algodão, o verdadeiro “Ouro Branco” que movia a economia do Rio Grande do Norte e de grande parte do Nordeste daquele época e se tornou um grande produtor desta malvácea.

Gradativamente ele foi deixando de ser Chicó de Ieiê e passou a ser conhecido como Chicó Pinheiro.

MUDANÇAS POSITIVAS

No final da década de 1920, para dar velocidade e presteza no atendimento aos seus clientes Chicó comprou um caminhão. Tinha como motorista José Germano, seguido depois de Otávio, que se tornou um grande amigo de sua família. Esse caminhão foi o primeiro a chegar à região, tendo sido recebido com muita alegria e admiração por familiares e amigos.

Contava ele que aprendeu a ler e contar sozinho, enquanto pastoreava os cavalos nas várzeas úmidas do velho Rio Potengi. Leu a cartilha do ABC, que ensinava as primeiras letras e a tabuada com as quatro operações matemáticas básicas. Sempre que contava essa história, repetia desde a primeira letra até a última operação. Terminando com a célebre frase, em letras garrafais que se encontra na última capa da sua preservada cartilha: A PREGUIÇA É A CHAVE DA POBREZA.

Apesar da pouca instrução teve suas atenções voltadas para a cultura. Gostava da boa leitura e tinha na sua coleção a Bíblia como seu livro predileto. Recebia pelo correio a revista Almanaque do Pensamento que tratava de assuntos relativos à astrologia, agricultura, pecuária, tábuas lunares e planetárias. Gostava de romances como O Conde de Monte Cristo, O Corcunda de Notre-Dame, As Profecias de Nostradamus e muitos outros.

Muito observador, Chicó Pinheiro passou a ler livros de boas maneiras e sobre etiqueta. Sabia da importância existente na sua sociedade no tocante a apresentação pessoal e como tratar as pessoas. A figura grosseira do matuto ia ficando para trás e ele foi se transformando em um homem elegante, cordial e bem-educado. Estava sempre visando boas mudanças para si mesmo.

Primeira casa da fazenda Bom Jardim

Primeira casa da fazenda Bom Jardim

Com inteligência e a bonança proporcionada pelo algodão, começa a assumir o traquejo e a postura dos empresários daquela época. Manda confeccionar seus ternos de caxemira e linho branco nos melhores alfaiates de Natal. Passa a usar gravatas finas e chapéus de ultima moda. Abandona o velho cigarro de fumo brejeiro, daqueles enrolados em papeizinhos, pelo fino charuto cubano, além de comprar fumo e cachimbos das melhores marcas.

Bom Destino (3)

Logo em seguida, em 1930, edificou uma casa grande, moderna para a época, com uma cumeeira de 6.50 metros para oferecer uma boa ventilação. A vivenda ficou situada no topo de uma pequena colina, voltada para o nascente e distante apenas de uns 350 metros casa do seu pai.

ELA VEIO DE ACARI

Alimentava um sonho recorrente de só casar com moça rica e prendada, transformando este sonho em um dos seus objetivos definidos.

Neste período Chicó Pinheiro já gozava de grande prestigio entre os políticos e homens de negócios do Rio Grande do Norte. Entre eles Dinarte Mariz, João Francisco da Mota, Florêncio Luciano, Rainel Pereira, coronel João Medeiros, José Evaristo de Araújo, José Braz de Albuquerque, Juvenal Lamartine de Faria, José Varela, Stoessel de Brito e tantos outros com os quais se encontrava nos escritórios das grandes empresas compradoras e exportadoras de algodão em Natal.

Como ele, muitos moravam no interior do estado, em suas fazendas ou cidades e como eram poucas as opções de hospedaria na capital, normalmente estes homens se albergavam nos mesmos hotéis ou pensões. Nestes ambientes as refeições eram muitas vezes compartilhadas por um grande grupo, onde sempre havia um bom momento para se fazer novas amizades, falar de negócios, preços e sobre o comportamento do mercado. Foi assim que no escritório da empresa Wharton Pedrosa, Chicó Pinheiro conheceu a mulher encantada de seus sonhos, Josepha Bezerra Araújo.

Josepha Bezerra Araújo

Josepha Bezerra Araújo

A jovem Josepha, ou Zefinha, como era conhecida, vendo aquele homem bem vestido, já de cabelos grisalhos, alvo, simpático, sorridente e conversador, mesmo a distância, sem ouvir suas conversas, imaginou estar diante de um “lord” inglês e correspondeu aos seus olhares.

Chicó Pinheiro tomou informações sobre a jovem Josepha e disse para si mesmo: “Lamberei uma rapadura e casarei com esta jovem”.

A Jovem estava acompanhada da mãe Cipriana Bezerra de Araújo, viúva do agropecuarista e industrial acariense Joaquim das Virgens Pereira. Dona Cipriana percebeu os olhares e já buscou junto ao Sr. Fernando Pedrosa, diretor geral da firma Wharton Pedrosa, informações sobre Chicó Pinheiro. Ouviu do respeitado negociante que ele era um homem direito, correto, bom pagador, comprador de algodão, seu cliente fiel e confiável.

Bom Destino (6)

Aí Chicó Pinheiro, o matuto simpático, não deu mais trégua, Frequentou um mês inteiro a tradicional igreja de São Pedro, no bairro do Alecrim, onde Zefinha, em companhia da mãe, assistia à missa todos os dias. Logo em seguida passa a frequentar a casa da futura sogra, trazendo em algumas visitas suas irmãs como demonstração de suas boas intenções.  Foi assim que Chicó conquistou a moça rica e sabida dos seus sonhos.

O “VAPOR”

No dia 16 de setembro de 1933, Chicó Pinheiro casou com Zefinha em Natal, na Rua Meira e Sá, na residência da sua sogra. O casamento católico foi celebrado pelo Padre Agostinho e o Monsenhor João da Mata Paiva ajudou. Depois da cerimônia houve comes e bebes para todos os convidados. À noite a Srta. Lourdes do Nascimento abrilhantou a festa tocando um piano que pertencia a noiva e ainda hoje está de posse da família.

Talvez tenha sido a conquista da sua esposa um dos maiores acontecimentos da vida de Chicó Pinheiro. Gostava muito de contar essa façanha, sempre em tom de brincadeira, dizendo-se um pouco decepcionado com o tamanho da fortuna da moça, pois imaginava ser muitas vezes superior a que ele havia construído em tão pouco espaço de tempo. Mas se envaidecia muito ao apresentá-la a sociedade e aos amigos, que às vezes perguntavam, se era sua filha. Ela tinha apenas 21 anos, jovem, muito bonita, elegante e letrada. Logo Zefinha assumiu a grande responsabilidade pela administração da casa e de toda a contabilidade de seu esposo.

Haroldo Pinheiro Borges e o "Vapor" que havia pertencido ao coronel Joaquim das Virgens e veio da Inglaterra para Acari em 1906

Haroldo Pinheiro Borges e o “Vapor” que havia pertencido ao coronel Joaquim das Virgens e veio da Inglaterra para Acari em 1906

Depois de seu casamento Chicó Pinheiro construiu ao lado direito de sua casa na fazenda Bom Destino um grande armazém com silos e paióis próprios para armazenar cereais, além de grandes espaços para guardar algodão em rama e pluma. Em setembro de 1934 instalou sua agroindústria, um locomóvel de marca “Ransomes, Sims & Jefferies”, de fabricação Inglesa herdado de seu sogro Joaquim das Virgens. Este tradicional maquinário agrícola, denominado tradicionalmente pelos sertanejos como “Vapor”, era  atrelado a um besouro, uma máquina de cinquenta serras, utilizadas para descaroçar algodão e a um dínamo para gerar energia elétrica. Todo o maquinário foi importado por volta de 1906, vindo no porão de um navio da cidade de Manchester, Inglaterra. Com esta máquina, da produção de sua fazenda e da compra feita aos seus clientes, chegou a beneficiar em torno de mil toneladas de algodão por ano.

Bom Destino (11)

Em 2004, o autor destas linhas teve a grata oportunidade de ver uma destas máquinas operando “a todo vapor”, em uma propriedade localizada próxima a cidade paraibana de Sousa. Foi incrível observar o seu funcionamento. Não posso deixar de comentar que  o sogro de Chicó Pinheiro, Joaquim das Virgens Pereira, era amigo do meu bisavô, o também agropecuarista Joaquim Paulino de Medeiros, conhecido como Quincó da Ramada e dono da fazenda Rajada, onde também existia uma destas máquinas a vapor. Outro fato que uniu na história do Seridó estes dois antigos produtores rurais de Acari, esta no fato deles terem recebido, em ocasiões distintas, o famoso cangaceiro Antônio Silvino.

O açude da Bom Destino sangrando

O açude da Bom Destino sangrando

Mas voltando a fazenda Bom Destino, gentilmente recebi de Haroldo outra foto de um interessante maquinário existente em sua propriedade, Trata-se de uma prensa que produzia fardos de lã, com uma media de 70 quilos e uma produção diária de aproximadamente 30 fardos.

PREOCUPAÇÃO COM A EDUCAÇÃO

Os anos vão passando. Chicó Pinheiro teve grande parte de sua vida voltada para o trabalho. Sabia administrar suas economias aplicando seu capital no momento oportuno. Dizia que o dinheiro tinha que está em movimento, havendo sempre o momento de comprar e de vender. Era só observar a tendência do mercado. Por isso tornou-se um bom empreendedor na área rural, pois, estava sempre ligado aos melhoramentos das suas propriedades, através de novas aquisições de terras, realizando quando necessário desmatamentos, aquisições de máquinas agrícolas, construções de cercas, açudes etc.

O antigo Grupo Escolar

O antigo Grupo Escolar

Mas não deixou de ajudar aqueles que lhe ajudaram.

Construiu na fazenda Bom Destino o “Grupo Escolar Francisco Pinheiro Borges”, com salas de aula e um apartamento anexo para servir de residência para uma professora. O Grupo Escolar foi inaugurado no dia 24 de setembro de 1965, em meio a uma grande festa. Entre os convidados estiveram presentes Monsenhor Walfredo Gurgel, que estava em plena campanha como candidato ao governo do Estado e o então governador Aluízio Alves, por quem Chicó Pinheiro tinha grande estima e admiração. Repetia sempre uma célebre frase às crianças e estudantes “O estudo é a única riqueza do mundo que não é roubada, acompanha o homem até o túmulo”.

Educou seus filhos nos melhores colégios de Natal e Recife. Ajudou na construção do Colégio São José na cidade de São Paulo do Potengi, que tinha na sua administração a Irmã Dominicia, da Ordem da Divina Providência.

Bom Destino (1)

No censo de 1960, foi cadastrada a casa grande com os armazéns e mais cinquenta e uma casas destinada aos moradores da fazenda Bom Destino, todas de tijolo e telha. A propriedade abrigava trezentas e vinte e oito pessoas,

UMA VIDA DIGNA

Certo dia, se sentindo muito cansado foi a Natal e depois de uma consulta ao seu médico e amigo Dr. Hellen Costa, foi por ele aconselhado para vir morar em Natal, pois seu coração estava muito crescido e não suportava mais os aborrecimentos próprios de um administrador na sua idade. Ele prontamente lhe respondeu “que seria uma grande dádiva de Deus se lá morresse subitamente, sem dar trabalho aos seus familiares”.

Ao se aproximar dos 80 anos comentava com seus familiares e amigos mais próximos que se fazia necessário realizar uma grande festa, pois sabia que ela seria a última.  Assim convidou seu velho amigo, o Monsenhor Expedito de Medeiros para rezar uma missa onde ele pudesse agradecer de público a Deus pelas benções recebidas durante toda sua vida. A missa foi rezada no Grupo Escolar Francisco Pinheiro Borges, localizado na sede da Fazenda Bom Destino onde compareceu em torno de 500 convidados. Chicó Pinheiro agradeceu pessoalmente pela presença e o prazer de receber com seus familiares, em sua casa, os seus melhores amigos.

Chicó Pinheiro e Dona Zefinha ao piano

Chicó Pinheiro e Dona Zefinha ao piano

No dia 22 de abril de 1981 faleceu no hospital Dr. Luís Soares em Natal, rodeado de seus familiares e assistido por um dos seus melhores amigos, o médico Ernani Rosado.

O Casal Chicó Pinheiro e Zefinha tiveram dezenove filhos, dos quais onze sobreviveram. Aqui estão nominados do primogênito ao caçula, todos com o sobrenome Pinheiro Borges: Maria das Dores casada com Ivo Ferreira Neto, Jarbas (falecido) casado com Sonia Azevedo Pinheiro, Haroldo casado com Mônica Maria Augusta de V. P. Borges; Rafael com Joana D’arc Marques de Araújo, Edda com Raimundo Dagmar Fernandes, Ana Maria com Manoel Alves Irmão (já falecido), Cosme com Maria Sonia de Azevedo Cabral, divorciado e casado em segunda núpcia com Jailda Barreto Carneiro, Eleenete casada com Pacífico de Medeiros Neto (falecido), Franklin com Vera Lopes, Maria José com Francisco Paulo e Vilma com Edvaldo Cursino Dias.

FINAL

Tenho muita preocupação com o desaparecimento gradual das antigas casas de fazenda no nosso estado. Elas são caras e difíceis de serem preservadas e muitas estão se transformando rapidamente em ruínas. Quando estas são vendidas para outras pessoas, fora dos núcleos familiares que as criou, normalmente a história do lugar cai para segundo plano e muito deste passado é esquecido. Por isso é sempre bom conhecer um pouco da história destas antigas vivendas e de quem as edificou.

Bom Destino (1)

Concordo com Haroldo quando ele comenta que a casa grande da Fazenda Bom Destino, pela sua beleza e pujança, serve como símbolo da época do coronelismo e da implantação da agroindústria algodoeira. Mas uma casa, qualquer casa, é apenas uma casa quando nada sabemos da história de quem ali viveu.

Por isso sou muito agradecido pela gentileza de Haroldo Pinheiro Borges, pai dos meus amigos Kacá e Eduardo (o Dado) Borges, companheiros dos bons tempos do Colégio Marista e do Tirol, por trazer para nosso espaço a biografia de Chicó Pinheiro e as fotos da bela Bom Destino.

Sobre outras antigas casas do Nordeste veja aqui no Tok de História -

http://tokdehistoria.wordpress.com/2011/07/08/1583/

http://tokdehistoria.wordpress.com/2011/11/23/a-restauracao-do-engenho-machado-um-exemplo-a-ser-seguido/

http://tokdehistoria.wordpress.com/2014/02/15/a-triste-situacao-da-casa-do-sabe-muito/

NOTA  - Todos os direitos reservados

É permitida a reprodução do conteúdo desta página em qualquer meio de
comunicação, eletrônico ou impresso, desde que citada a fonte e o autor.

A TRISTE SITUAÇÃO DA CASA DO SABE MUITO

A Casa do Sabe Muito, Caraúbas, Rio Grande do Norte

A Casa do Sabe Muito, Caraúbas, Rio Grande do Norte

Autor – Rostand Medeiros

Quando fiz pela primeira vez uma viagem para a região Oeste do Rio Grande do Norte foi no ano de 1985. Fui montado em uma valente e resistente moto Yamaha DT-180, com a carteira de motorista/motociclista recém-saída do DETRAN e com muita vontade de conhecer algo mais da minha terra.

Segui para casa de amigos na cidade de Janduí. Em meio a um momento de fantástica receptividade sertaneja, ao chegar o momento de retornar para Natal, decidi seguir mais adiante e acabei dando uma longa volta até Apodi, depois passei por Mossoró e finalmente voltei para casa.

O caminho me levou pela rodovia estadual RN 223, que liga os municípios de Caraúbas e Apodi e na época ainda uma estrada de barro. A paisagem era muito interessante. Mesmo sendo árida, seca, possuía visuais amplos, com cores contrastantes, maravilhosos cenários e muita luz. De longe era possível avistar o contorno da Bacia Potiguar, onde embaixo fica a cidade de Apodi e na parte superior o conhecido Lajedo de Soledade, com seus interessantes painéis com antigas pinturas rupestres. Naquele momento eu não sabia que em 1992 viria a participar, como membro do CERN-Clube de Espeleologia do Rio Grande do Norte, de um trabalho de catalogação e mapeamento das cavidades naturais desta futura área preservação. Este trabalho foi na época financiado pela PETROBRÁS, sob o comando do falecido geólogo Eduardo Bagnolli e com a participação dos amigos amigo Francisco Willian da Cruz Junior (o grande Chico Bill), também geólogo, Lisandro Juno e Vladir Quintilhiano, ambos biólogos. Época boa!

1743719_507440462709888_888716263_n

Mas naquele 1985, ao chegar a um ponto mas elevado na estrada, vislumbrei na direção oeste uma casa muito ampla, que se destacava na paisagem e que chamava a minha atenção conforme me aproximava dela. Era um casarão diferente do que havia visto ao longo do trajeto de 300 quilômetros que realizava desde Natal. Era a casa do sítio Sabe Muito, ou Casa do Sabe Muito, na zona rural do município de Caraúbas.

Localizada a 13 quilômetros da área urbana de Caraúbas, consta que foi construída em 1868. A sua estrutura possui 27 portas, 16 cômodos, 11 janelas e nas medidas da época possuía “11 palmos de frente, 133 de fundo e 52 de altura”. É considerada a maior casa de Caraúbas, já possuiu em seu interior uma casa de farinha e ainda tem em suas terras uma fonte de água potável, ou como dizemos por aqui, um olho d’água.

Imagem6

Imagem8

Imagem5

Conforme podemos ver acima, nas páginas do Censo Agrícola de 1920, temos na cidade de Caraúbas, duas indicações de propriedades com o denominativo Sabe Muito

Conforme podemos ver acima, nas páginas do Censo Agrícola de 1920, temos na cidade de Caraúbas duas indicações de propriedades com o denominativo Sabe Muito

Esta casa pertenceu ao casal Antônio Fernandes Pimenta (Capitão) e Francisca Romana do Sacramento, casal que fez a união das famílias Fernandes e Carneiro em Caraúbas e adjacências. Contam também que a construção do casarão do Sabe Muito foi uma disputa entre dois irmãos que tinham muitos escravos e decidiram ver quem faria a maior casa. Um construiu a sua moradia no sítio São Vicente e o outro nas terras do Sabe Muito, próximo ao olho d’água comentado anteriormente e que seria conhecido pelos indígenas que outrora habitaram a região.

Na minha singela opinião não sei qual é a mais interessante (Acho que as duas). Mas sei que o casarão do sítio São Vicente foi um dos locais atacado pelo bando do cangaceiro Lampião, quando de sua passagem pelo Rio Grande do Norte no ano de 1927. Eu conheci o São Vicente em 2010, quando percorri de motocicleta o mesmo caminho trilhado por Lampião no Rio Grande do Norte (Ver – http://tokdehistoria.wordpress.com/2011/08/15/trilhando-o-mesmo-caminho-de-lampiao-no-rio-grande-do-norte/ ).

1743446_507451706042097_386548270_n

Apesar da casa do Sabe Muito ser um local interessante, uma referência regional do poder que outrora os grandes fazendeiros possuíam no interior potiguar, infelizmente a antiga vivenda está fadada a se transformar em ruínas.

Recentemente, através do amigo Francisco Veríssimo de Souza Neto, da cidade de Apodi, tomei conhecimento que o jornalista Assis Oliveira, nascido em Caraúbas e há muitos anos morando na cidade de Corumbá, Mato Grosso do Sul esteve na sua terra depois de 16 anos de ausência. Entre os locais por ele visitados na sua cidade natal estava a interessante Casa do Sabe Muito. Acredito que aquilo que ele viu e fotografou, como um dileto filho da terra, deve tê-lo deixado muito triste. Pois eu que nem sou de lá, nem tenho sequer parentes na região, fiquei impressionado quando vi suas fotos (Que gentilmente ele cedeu para serem utilizados neste texto).

O local vem ruindo já há algum tempo. Blogs da região Oeste Potiguar apontam que parte do telhado caiu e o restante pode desabar durante o próximo inverno. Existe a afirmação que a estrutura é tombada pela Fundação José Augusto, hoje transformada em Secretaria Extraordinária da Cultura e pertenceria ao espólio do casal Joana Eulália de Oliveira e Jonas Armagíldo de Oliveira.

1234837_507461409374460_14250982_n

Mas o que fazer?

Esta situação de abandono e destruição lenta e paulatina destes patrimônios históricos não é exclusividade de terras potiguares. Pelo Brasil afora antigas casas grandes de fazendas históricas, igrejas seculares e até prédios públicos tombados estão vindo abaixo por falta de conservação. Sei que, diante da situação complicada que se encontra a agropecuária no Rio Grande do Norte, manter de pé uma casa destas não é fácil e nem barato. Não é a toa que o salvamento destes patrimônios por iniciativa privada são raros. Mas existem! (Ver - http://tokdehistoria.wordpress.com/2011/11/23/a-restauracao-do-engenho-machado-um-exemplo-a-ser-seguido/ ).

O que o poder público dentro das esferas federal, estadual e municipal pode fazer para salvar este patrimônio? Se ele já é tombado a nível estadual, pelo que percebi nada acontece.

Se ao menos a gestão turística governamental no Rio Grande do Norte fosse uma coisa levado a sério pelos gestores e houvesse sido desenvolvido na prática a integralização turística potiguar, a Casa do Sabe Muito poderia ser um ótimo ponto de apoio para os turistas que se deslocam de Natal para visitarem as belas pinturas rupestres localizadas no Lajedo Soledade. Este ponto de apoio s margens da RN-223 poderia ser associado a um museu que mostrasse a história e cultura da região.

Assis Oliveira no Sabe Muito

Assis Oliveira no Sabe Muito

Mas já que o turismo não anda lá estas coisas aqui no nosso estado e aproveitando a ideia da histórica casa ser um ponto de preservação da memória regional, creio que seria possível criar um projeto de recuperação e utilização pública. Mas com destinação prioritariamente educacional, com a finalidade principal de manter viva junto à comunidade caraubense, principalmente os mais jovens, a história da sua terra. Mas escrevo isso sem conhecer totalmente a atual realidade local.

Não tenho a ilusão que isto é fácil, Mas sei que só com a união da comunidade é que este patrimônio poderá ser salvo e melhor utilizado.

http://www.icemcaraubas.com/2011/08/casa-do-sabe-muito-um-potencial.html

http://alodudeviana.blogspot.com.br/2012/03/em-caraubas-fazendas-abandonadas.html

http://janduisemfoco.blogspot.com.br/2012/01/luta-para-conservar-casa-da-fazenda.html

1943 – QUEM FOI O MOTORISTA DO JIPE DE ROOSEVELT E VARGAS EM NATAL

Roosevelt e Vargas em Natal. Na direção do jipe o capitão David Channing Moore

Roosevelt e Vargas em Natal. Na direção do jipe o capitão David Channing Moore

Autor – Rostand Medeiros

Hoje, através do amigo Petit das Virgens, soube que outro dileto amigo, a quem muito admiro, desejava saber a identidade do militar americano que dirigia o jipe que transportou os presidentes Franklin Delano Roosevelt e Getúlio Dorneles Vargas, quando os dois estiveram em Natal em 1943. Quem desejava saber a informação é o meu amigo Luiz Gonzaga Cortez. Jornalista dos bons, a quem tenho enorme admiração. Seus livros e seu trabalho no Diário de Natal são referências para mim. Principalmente sobre 23 de novembro de 1935, dia da deflagração da Intentona Comunista em Natal. A importância está no sentido de descobrir mais sobre a participação do meu avô, Joaquim Paulino de Medeiros Filho, neste malogrado movimento.

Imagem1

Já sobre a pergunta do amigo, o nome do motorista era David Channing Moore, era um capitão e creio não era um piloto. Ele havia trabalhado na empresa IBM, era formado na Brown University (mas não sei em que), entrou na USAAF (United States Army Air Force) no ano 1942. Serviu em Washington, América do Sul, Norte da África e continuou sua trajetória militar em um grupo de caça junto à 14th Air Force, no teatro de guerra CBI – China, Burma e Índia.

Material jornalistico de um jornal americano, de 1943, apontando o capitão Moore como motorista do famoso jipe

Material jornalistico de um jornal americano, de 1943, apontando o capitão Moore como motorista do famoso jipe

Passou 31 meses servindo fora dos Estados Unidos. Deixou a USAAF no posto de coronel. Foi policial e morava em um subúrbio de Nova York chamado Bronxville. Casado, tinha três filhos e morava na Elm Rock Road, número 12, no Condado de Westchester, a cerca de 25 km ao norte de Manhattan.. Já o que ele especificamente fazia em Natal eu não sei…

NOTA  - Todos os direitos reservados

É permitida a reprodução do conteúdo desta página em qualquer meio de
comunicação, eletrônico ou impresso, desde que citada a fonte e o autor.

FILME COM A INAUGURAÇÃO DOS CAMPOS DE POUSO DA MINA BREJUÍ E CRUZETA NA DÉCADA DE 1950

Hoje recebi um e-mail vindo de Inácio José Salustino Soares, neto do empreendedor Tomaz Salustino Gomes de Melo. Na sua mensagem Inácio fez a gentileza de me enviar um link do You Tube, onde podemos admirar um filme de quatro minutos sobre a inauguração de dois campos de pouso na região do Seridó Potiguar.

Um dos campos era na Mina Brejuí, no município de Currais Novos, e o outro no Centro Experimental do Algodão do município de Cruzeta. Segundo Inácio, ambos os aeródromos foram construídos e inaugurados por Tomaz Salustino, junto com seu filho, o engenheiro agrônomo Silvio Bezerra de Melo.

Fiquei muito agradecido pelo contato e feliz de ter tido a oportunidade de visualizar este material, que mostra um aspecto interessante da realidade politico e social do Seridó daquela época, principalmente sobre as relações entre os poderes atuantes da região e as autoridades do Governo Federal.

O filme não deixa dúvidas que aquele foi um dia bem especial nos céus seridoenses, com a presença marcante de quatro monomotores de treinamento North American (NA) T-6 Texan e dois bimotores de transporte Beechcraft C-45. Os rasantes dos T-6 foram estonteantes.

Estes T-6 certamente eram do 2º/5º Grupo de Aviação, conhecido como Esquadrão “Joker”, que haviam sidos transferidos do Rio de Janeiro para Natal em novembro de 1953. O 2º/5º também utilizava os caças Republic F-47 Thunderbolt, que marcaram época nos céus de Natal da década de 1950.

Além dos aviões a inauguração contou com figuras de peso da Força Aérea Brasileira que atuavam no Nordeste. Entre estes temos o Brigadeiro Reinaldo Joaquim Ribeiro de Carvalho Filho, carioca de nascimento, na época comandante da II Zona Aérea de Recife, e o comandante da Base Aérea de Natal, o Cel Av. Antônio Joaquim Silva Gomes, além de várias outras autoridades. Entre estes Dom Adelino Dantas e o ex-governador, na época deputado federal, José Augusto Bezerra de Medeiros.

av

Sei que a Mina Brejuí começou suas atividades em 1943, filha direta do envolvimento do Brasil na Segunda Guerra Mundial e, se não estou enganado, estes campos de aviação são de 1954, pois o Brigadeiro Reinaldo de Carvalho foi comandante da II Zona Aérea entre os anos de 1953 e 1955. Além disso, tenho a notícia que em novembro de 1954, a II Zona Aérea emitiu um aviso declarando abertos para utilização aeronáutica os campos de pouso da Mina Brejuí e de Cruzeta.

Como nota final sei que anos depois este Brigadeiro seria Ministro da Aeronáutica no Governo João Goulart e iria para a reserva com a eclosão do Golpe de 1964.

Era uma época onde a aviação era muito mais presente no interior potiguar do que na atualidade. Em recente conversa com Dr. Manoel de Medeiros Brito, dileta figura de Jardim do Seridó, memória viva de sua região, me narrou que durante a década de 1950, período em que ele trabalhou como representante oficial do governo potiguar na antiga Capital Federal, era possível ir em um C-47 de Caicó, via Recife e outras capitais brasileiras, até o Rio de Janeiro.

Tempos que não voltam.

Posso estar errado, mas como Inácio José é neto de Tomaz Salustino, acredito que este material é um bem de família. Se assim for, Inácio fez algo muito especial – democratizou via You Tube o acesso das pessoas a este filme.

Muito obrigado pela sua iniciativa Inácio.

Forte abraço.

Rostand Medeiros

PARNAMIRIM FIELD NA IMPRENSA INTERNACIONAL

Reportagem de uma revista

Reportagem de uma revista australiana sobre Parnamirim Field

A VISÃO DA IMPRENSA ESTRANGEIRA SOBRE A GRANDE BASE AÉREA EM SOLO POTIGUAR

Autor – Rostand Medeiros

Publicado originalmente no encarte especial dos 55 anos de criação do município de Parnamirim, Rio Grande do Norte, no jornal Potiguar Notícias, de 13 de dezembro de 2013.

Em termos de politica internacional, dificilmente alguém contestará que, o mais importante acontecimento, nesta área, ocorrido no Rio Grande do Norte, em todo o século XX, talvez em toda a sua história, tenha sido o encontro entre os presidentes dos Estados Unidos, Franklin Delano Roosevelt, e do Brasil, Getúlio Dorneles Vargas, em 28 de janeiro de 1943, a bordo do navio de guerra americano USS Humboldt, ancorado no estuário do Rio Potengi.

Parnamirim Field

Parnamirim Field

A partir deste histórico acontecimento, a imprensa norte americana passou a dar uma maior visibilidade sobre a participação prática e efetiva do Brasil na guerra e a apresentar ao público americano como ajudávamos o esforço de guerra Aliado. Um dos focos da atenção dos jornalistas foi a importância da Natal Air Base, também conhecida pelos aviadores americanos como Parnamirim Field, então considerada uma das maiores bases aéreas construídas fora dos Estados Unidos e uma das principais encruzilhada das rotas aéreas no mundo.

A United Press em Parnamirim Field

Um dos primeiros jornalistas a transmitir estas informações ao público norte americano foi James Alan Coogan, natural de Milwaukie, Oregon. Ele era o chefe do escritório da respeitada agência de notícias United Press para a América do Sul.

Parnamirim filed (1)

No início de 1943 os Aliados já tinham começado a virar favoravelmente o jogo da guerra e forças alemãs, italianas e japonesas estavam sofrendo derrotas em inúmeras frentes de combate ao redor do mundo. Coogan iniciou uma série de reportagens enaltecendo que foi a partir de Parnamirim Field que surgiu a “energia aérea” que estava ajudando a derrotar as forças alemãs e italianas no Norte da África. Daquela base aérea, decolavam, dia e noite, milhares de aviões de transporte com homens e materiais que ampliavam o poderio Aliado naquela parte do mundo.

Mesmo informando que era um segredo militar, o número de aviões que decolavam com um pequeno intervalo de tempo das pistas de Parnamirim, para Coogan era impressionante a quantidade de “Fortalezas Voadoras”, “Liberators”, “Mauraders” e outros modelos, que chegavam e partiam initerruptamente, durante as 24 horas do dia, sete dias por semana.

Os Acorrentados

Coogan observou que a base tinha um forte esquema de proteção e se encontrava cercada de trincheiras ocupadas por brasileiros e americanos, atentos a alguma ação do inimigo. Somente depois de novembro de 1942, após ações Aliadas na África que inviabilizaram um possível ataque inimigo ao Nordeste do Brasil, ocorreu um grande alívio para os defensores da grande base de Parnamirim. Estas ações foram principalmente o desembarque americano no Norte da África (Operação Torch) e a posse da cidade de Dakar, na época capital colonial da África Ocidental Francesa.

Posição geográfica de natal em reportagem estrangeira

Posição geográfica de natal em reportagem estrangeira

O moral das tropas era elevado e havia muito trabalho sendo feito, o que deixava os homens sem tempo para pensarem em diversões comuns aos grandes centros.

Para o jornalista da United Press, as tripulações dos aviões americanos cada vez mais ampliavam sua capacidade operativa e suas habilidades, ao realizarem vários voos entre os Estados Unidos e as frentes de combate, sempre utilizando Parnamirim Field como ponto obrigatório.

O jornalista percebeu que, mesmo sem estarem diretamente expostos ao combate, os corpos e as mentes dos homens da Divisão de Transportes eram muito cobrados.

Portão em Parnamirim Field, guarnecido por brasileiros e americanos

Portão em Parnamirim Field, guarnecido por brasileiros e americanos

Eles voavam constantemente no traslado de novos aviões, transportando homens e materiais de combate para as várias áreas do conflito. Coogan comentou que os pilotos de transporte na base aérea se autodenominavam “Os Acorrentados”, por viverem presos aos cintos dos assentos de suas aeronaves.

O Comandante Americano e Parnamirim

Nesta época não existia uma força aérea dos Estados Unidos independente, sendo esta força uma parte do exército deles. Por esta razão, o comandante em chefe das forças do exército americano no Atlântico Sul era o General Robert. L. Walsh.

Com 48 anos de idade, Walsh havia sido brevetado como piloto em 1918, pertencendo desde então ao quadro de aviadores do exército americano e havia assumido a função no Brasil em 20 de novembro de 1942. Vindo do setor de inteligência, era considerado pelo jornalista Coogan como o “mais modesto general americano”.

C-47, o "Burro de carga" da aviação Aliada. Muitos destes passaram por Natal

C-47, o “Burro de carga” da aviação Aliada. Muitos destes passaram por Natal

Em uma entrevista concedida no Quartel General da Divisão de Transportes em Parnamirim Field, junto com a sua oficialidade, em meio ao constate barulho de pousos e decolagens de aeronaves multimotores, o reservado general tinha consciência da importância do trabalho dos seus homens e daquela grande base aérea, tida pelo Alto Comando Aliado como vital. Comentou que apesar de algumas improvisações iniciais, do limitado tempo para o lazer dos seus homens naquele inicio de 1943, a missão a eles passada estava sendo cumprida a contento.

Tanto o general como seus oficiais transmitiram a Coogan que as bases aéreas norte-americanas no Brasil eram de grande auxilio para o combate das forças nazifascistas, igualmente era notável a contribuição dos operários e técnicos brasileiros para a construção das bases aéreas, especialmente Parnamirim Field, a maior e mais movimentada.

Parnamirim filed (1)

O interessante na entrevista com o General Walsh foi ele enaltecer primeiramente os operários e técnicos civis brasileiros, com bastante ênfase por sinal, e só depois comentar favoravelmente a colaboração de nossas autoridades.

Disciplina Folgada

Em uma das passagens de sua extensa reportagem, que no Brasil foi publicada em quatro edições em jornais cariocas, Coogan comentou que a quantidade e o volume de tarefas em Parnamirim Field era tal, que a disciplina militar era mais “democrática”. Para o jornalista americano havia em Parnamirim Field uma “disciplina folgada”.

Os praças americanos em Parnamirim tratavam seus oficiais por “Senhor”, mas não ficavam a toda hora batendo os calcanhares, nem realizando continências simetricamente perfeitas. Se, por exemplo, os militares americanos de patente inferior estavam descanso em baixo da asa de algum avião, eles não se levantam rapidamente e prestavam continência a passagem de qualquer tenentinho.

Parnamirim filed (2)

Na verdade, o jornalista da United Press, que morava há algum tempo no Rio de Janeiro e certamente conhecia os hábitos castrenses brasileiros, ao transmitir esta questão, mostrava uma das grandes diferenças que existia entre os nossos militares e os militares dos Estados Unidos. Enquanto os nossos oficiais, muitas vezes, se preocupavam mais com o tamanho de um corte de cabelo, a posição de uma mão na hora da continência, ou quão lustrada uma bota estava, para os americanos, valia mais a questão da operacionalidade do elemento e o cumprimento das missões, do que a rigidez de certos procedimentos de saudação militar.

Em contrapartida, os militares americanos daquela época nunca conseguiram compreender como a oficialidade brasileira aceitava tranquilamente conviver com negros em suas tropas.

Repouso e Diversão

Havia alojamentos, locais de alimentação e recreação distintos para praças e oficiais, mas não era incomum que em uma mesma mesa se alimentassem, ou realizassem um jogo de cartas, coronéis e majores, junto com capitães e tenentes. Os oficiais de maior graduação tinham seus alojamentos individuais, oficiais não tão graduados formavam duplas e dividiam um alojamento.

Parnamirim filed (9)

Já os praças, ao menos nesta época, se alojavam em grandes tendas montadas em sólidos alicerces de concreto, com pisos de ripas de madeira. Normalmente ficavam em número de quatro pessoas por barraca. O correspondente da United Press ocupou solitariamente a barraca de número 64. Apesar da força inclemente do sol nordestino, a tropa americana considerava o clima agradável pela ação dos ventos e as noites eram tranquilas e agradáveis.

As maiores diversões dos americanos dentro de Parnamirim Field eram escutar as emissoras estadunidenses em rádios valvulados de ondas curtas, jogos de cartas e calorosas partidas de beisebol. Este esporte tão estranho aos brasileiros na época envolvia as tropas do corpo aéreo do exército e da marinha americana, que tinham uma área dentro da base, junto com um setor exclusivo da Força Aérea Brasileira.

Parnamirim filed (8)

Uma interessante compensação para os militares americanos em Parnamirim Field, em comparação àqueles que estavam servindo na cosmopolita e animada cidade do Rio de Janeiro, ou outra localidade brasileira bem mais confortável, era que os jornais americanos chegavam com no máximo um ou dois dias após sua publicação.

Um Repórter Australiano em Parnamirim Field

Mas não eram apenas os jornalistas americanos que transmitiam para seus leitores impressões sobre Parnamirim Field.

Parnamirim filed (5)

Quase um ano após a publicação das reportagens de James Alan Coogan, esteve em Natal o jornalista australiano J. A. Marris, da revista Western Mail, da cidade de Perth, a capital e maior cidade do estado australiano da Austrália Ocidental.

Sua reportagem, intitulada “Skayway Base”, foi divulgada na edição de quinta feira, dia 20 de janeiro de 1944 desta revista, com amplo destaque na coluna “This Week”. Merris utilizou no texto uma linguagem bem clara, onde detalhou a importância estratégica de Parnamirim Field e um dia do seu intenso movimento aéreo.

Parnamirim filed (11)

O australiano informou que nesta época na grande base aérea já não havia tendas e nem trincheiras contra um ataque aéreo. Mas se por um lado o medo de um ataque já não existia, o movimento aéreo era intenso. Na sua opinião, nas pistas de asfalto de Parnamirim Field “passavam os grandes heróis anônimos do transporte aéreo moderno”.

Vital para a vitória Aliada

O jornalista informou que a construção da base ocorreu enquanto na África do Norte os Aliados lutavam contra as forças do Afrika Korps, comandados pelo mítico General alemão Erwin Rommel.

Parnamirim filed (10)

A estratégica base área militar foi construída em solo brasileiro no mais rigoroso sigilo militar, onde um exército de brasileiros simples, a maioria sertanejos fugidos da grande seca, concluíam, com muito suor e sacrifício, um lugar que possibilitou a criação de uma rede de linhas aéreas que na época supria quase todas as frentes de guerra.

Quando o General Rommel ameaçou invadir Alexandria, no Egito, em 1942, os olhos do mundo estavam voltados para o Vale do Nilo, mas os olhos dos comandantes aliados estavam focados na distante base de Parnamirim. Pois foi através desta estratégica área militar, que um fluxo de aviões vindos dos Estados Unidos e transportando valiosos materiais estratégicos, foi fundamental para a vitória Aliada na frente Africana.

Para o jornalista australiano foi em Parnamirim que o destino do Egito e do Oriente Médio, e talvez de todo o curso da guerra, foi decidido.

Movimento Internacional

J. A. Marris cruzou o Oceano Atlântico em direção aos Estados Unidos. Narrou que, após a chegada a Parnamirim Field, na sua aeronave, logo adentrou uma equipe de homens do setor de defesa sanitária. Estes passaram a fumegar em todas as partes do avião doses de veneno contra possíveis mosquitos africanos transmissores de doenças.  Segundo nos narrou Fernando de Góes Filho, um dos oficiais brasileiros responsáveis por este serviço era o seu pai, o médico Fernando Góes.

Page 10

Logo após desembarcar, o australiano soube que seu avião estava sendo requisitado para retornar a África e cumprir outra missão. Agora ele iria esperar uma vaga em outro avião que seguisse para os Estados Unidos, em meio a um dos maiores congestionamentos de tráfego aéreo de aviões americanos e de material de guerra. Marris agora era um “caronistas aéreo”.

Havia muita poeira e calor em Parnamirim Field, além de um barulho constante dos grandes motores aéreos ligados e guardas verificando as credenciais de todos que chegavam. Logo, os outros passageiros presentes ao setor de embarque e desembarque davam ao jornalista australiano uma ideia do caráter internacional da grande base aérea.

A importância de Parnamirim Field na época da Segunda Guerra pode ser medido pelo número de pessoas de importância política internacional que aqui estiveram. Como Eleanor Roosevelt que esteve na base em 1944

A importância de Parnamirim Field na época da Segunda Guerra pode ser medido pelo número de pessoas de importância política internacional que aqui estiveram. Como Eleanor Roosevelt, que esteve na base em 1944

Em um canto, um holandês, que trabalhava em um gabinete ministerial do seu país, dialogava com um funcionário de uma empresa aérea americana. Através de uma porta estreita, corre um coronel da Força Aérea Chinesa para pegar um avião que seguia para Washington. Mais adiante, era possível escutar histórias de pessoas que vinha de lugares tão diferentes como Chongqing (cidade no centro da China), Glasgow (Escócia) e Trípoli (capital da Líbia). Logo um grupo de militares passa a observar com muita atenção em uma determinada direção. Era um grupo de enfermeiras americanas que desembarcavam.

Em pouco tempo pousava uma esquadrilha de bimotores B-25 Mitchell, parando para reabastecer antes do salto sobre o Oceano Atlântico em direção à África. Depois o repórter australiano testemunhou outro avião que taxiava na pista, ainda trazendo manchas barrentas do solo africano em seu trem de aterrissagem. Esta última aeronave deixava um grupo de soldados feridos, que seriam levados para a principal unidade hospitalar que atendiam estes militares em Natal e hoje é conhecido como Maternidade Januário Cicco. Um dos feridos não passava de um simples garoto, mas que trazia um grande ferimento na perna e era um calejado veterano. Recuperava-se depois de dois anos de combate.

Partindo de Parnamirim Field

Finalmente J. A. Marris recebeu a noticia que iria continuar sua viagem. O avião era um bimotor Douglas C-47, de uma pequena esquadrilha de três aeronaves idênticas. Estes haviam aterrissado apenas uma hora antes, foram rapidamente reabastecidos, revisados e agora estavam alinhados na pista prontos para outra viagem.

Base Aérea de Acra durante a Guerra. localizada na atual Gana, África, foi um dos destinos dos aviadores Aliados depois de partirem de Parnamirim

Base Aérea de Acra durante a Guerra. localizada na atual Gana, África, foi um dos destinos dos aviadores Aliados depois de partirem de Parnamirim

Toda a bagagem a bordo foi empilhada no meio da fuselagem, formando um grande monte de objetos, cobertos com uma rede para evitar que se deslocassem dentro da aeronave e tudo isso era amarrado no piso. Entre tripulantes e passageiros ali estavam vinte homens; o piloto, o copiloto, um alto executivo de uma grande empresa de aviação americana, dois oficiais do exército chinês, um grupo de náufragos americanos resgatados, um trabalhador de um estaleiro da Filadélfia, três funcionários do governo de Londres e meia dúzia de outros pilotos americanos.

Durante o voo o C-47 seguiu ao longo da costa brasileira e da selva. Alguns passageiros tentavam dormir em desconfortáveis bancos que foram originariamente projetados para paraquedistas, enquanto outros jogavam cartas. De vez em quando se mudava a posição das pernas para passar as dores musculares e, ocasionalmente, ficava-se em pé, onde era possível dar três passos sem pisar em alguém e assim fazer o sangue circular.

Militares de países da Commonwealth são desembarcados de um C-47 americano. Parnamirim Field, como mostra a reportagem australiana, tinha um grande aspecto internacional

Militares de países da Commonwealth são desembarcados de um C-47 americano. Parnamirim Field, como mostra a reportagem australiana, tinha um grande aspecto internacional

Apesar de todo desconforto, ao ler a reportagem de Marris, fica evidente para este repórter australiano que Parnamirim Field era a mais importante engrenagem aérea em sistema de grande circulação de material e armas de guerra.

Ele reproduziu um interessante comentário de um observador realista, que muito sintetiza a importância de Parnamirim; “certamente Hitler daria dez de suas divisões em troca daquele lugar”.

NOTA  - Todos os direitos reservados

É permitida a reprodução do conteúdo desta página em qualquer meio de
comunicação, eletrônico ou impresso, desde que citada a fonte e o autor.

MARACAJAÚ E RIO DO FOGO – ANTIGOS CEMITÉRIOS DE BARCOS DA COSTA POTIGUAR

Yet he held his hould

Ao longo da história de duas belas praias do litoral potiguar, ocorreram vários relatos de afundamentos até hoje praticamente desconhecidos

Autor – Rostand Medeiros

Na história do Rio Grande do Norte sempre foi muito pouco relevante os fatos ligados às questões náuticas e a série de problemas que aqui existiam para quem navegava.

Era um período de navegações heroicas e arriscadas, onde os homens se aventuravam por costas ainda não totalmente mapeadas, ou passando por áreas sem os faróis para o auxílio à navegação. Coisas como as atuais maravilhas tecnológicas de navegabilidade sequer povoavam as mentes dos novelistas mais criativos. Conduzir um barco a vela, através dos oceanos era então uma tarefa que exigia muita atenção e a experiência de navegação dos seus comandantes era fundamental para uma boa viagem.

É bem verdade que já se utilizava bússolas, mapas de navegação conhecidos, sextantes, cronômetros marítimos e outras ferramentas que ajudavam na navegação. Mas nada era totalmente seguro.

A Complicada Costa Potiguar

Localizado no “cotovelo” da América do Sul, a posição geográfica do Rio Grande do Norte sempre se caracterizou para a navegação pela existência de ventos fortes em certas épocas do ano, correntes marítimas complicadas e algumas perigosas áreas com recifes de corais.

Antigos instrumentos de navegação - maxinecooper.wordpress.com

Antigos instrumentos de navegação – maxinecooper.wordpress.com

Apesar dos perigos isso não impediu que portugueses, espanhóis, franceses, holandeses e marujos de outras nacionalidades navegassem no nosso litoral e muitos naufrágios marcam a nossa história.

O interessante site Naufrágios do Brasil (http://www.naufragiosdobrasil.com.br) possui uma página específica para os afundamentos em águas potiguares. A relação traz os nomes de mais de 100 barcos e alguns aviões que repousam no fundo do mar. O mais antigo registro existente neste site é de um barco, provavelmente uma caravela portuguesa, com o nome “São João e Almas”, que se perdeu na região do Cabo de São Roque no longínquo ano de 1677.

Ao longo dos séculos seguintes não era tão raro a notícia de algum afundamento em águas costeiras do Rio Grande do Norte, especialmente nas regiões onde se encontram recifes de corais, principalmente na área das conhecidas praias de Maracajaú e Rio do Fogo.

Área de recifes de corais, ou parrachos de Maracajaú e Rio do Fogo, costa do Rio Grande do Norte

Área de recifes de corais, ou parrachos de Maracajaú e Rio do Fogo, costa do Rio Grande do Norte

Atualmente estas praias são locais de destinação turística e de veraneio, possuindo ambos os locais tradicionais comunidades de pescadores. Mas a maioria dos naufrágios ali ocorridos é desconhecida e envoltos em histórias onde o destino da carga era mais importante que a vida dos tripulantes.

Uma Região Perigosa Para um Velho Brigue Inglês

Há quase 174 anos o velho brigue inglês Orion, de 198 toneladas, bateu e afundou nos recifes de coral diante da praia potiguar de Rio do Fogo, onde nesta época já existia uma povoação de pescadores.

Construído em 1804, no estaleiro pertencente a John Holt Jr. e John Richardson, em Whitby, o terceiro maior centro de construção naval da Inglaterra, depois de Londres e Newcastle, o Orion serviu a Royal Navy (Marinha Real Britânica) como barco de transportes nos combates contra as forças de Napoleão. Este brigue, um barco que possuía normalmente dois mastros maiores, uma tripulação variável de oito a quinze homens, uma média de 40 a 90 metros de comprimento e uma tonelagem que variava de 160 a 1.150, foi depois vendido para uma empresa de transportes marítimos de Londres e já se encontrava a 36 anos navegando pelos sete mares quando encontrou seu fim no dia 30 de março de 1840, uma segunda feira.

m

Na hemeroteca do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte, encontramos nas páginas amareladas do velho jornal Publicador Natalense, edição de sábado, 2 de maio de 1840, as notícias do Expediente do Governo provincial potiguar, cuja a presidência era exercida por Manoel de Assis Mascarenhas. Nesta páginas, uma espécie de Diário Oficial da época, consta que o juiz de paz de Touros, na época um município emancipado desde 1833, trazia notícias sobre o acidente do Orion, dando conta que o mesmo vinha carregado de café do sul do Brasil.

Encontramos a informação que havia sido negado ao juiz de paz de Touros, cujo nome não foi divulgado, o seu pedido para que os jangadeiros de Rio do Fogo ficassem de posse da metade dos objetos e da carga do brigue acidentado. O pedido do juiz ia de encontro ao Artigo 18 do Tratado firmado entre os reinos do Brasil e da Inglaterra, sobre o destino das cargas de naves naufragadas.

O Presidente da Província Manoel de Assis Mascarenhas, que deixaria o cargo em julho de 1841, exigia que o juiz de Paz de Touros, que possuía jurisdição sobre Rio do Fogo, arrecadasse com os jangadeiros da localidade tudo que eles haviam salvado do Orion. Entretanto no mesmo despacho percebemos que o Presidente não parecia confiar no juiz de paz e nem estava brincando em relação a suas ordens, pois ordenava ao “Inspetor interino da Thesouraria da Fazenda” que enviasse um oficial e guardas da Alfandega para arrecadarem e inventariarem os objetos salvos. Para que a ordem ficasse mais bem transmitida, no mesmo despacho o Presidente abonava o soldo de cinco guardas do Corpo de Polícia para seguirem a Touros para participarem desta missão.

Típico brigue inglês

Típico brigue inglês

Neste caso do Orion não sabemos nada do que causou a destruição do brigue, o que houve com a tripulação e nem se os jangadeiros de Rio do Fogo, ao salvarem os objetos e a carga do barco sinistrado agiram na ânsia de conseguirem vender o que arrecadaram a revelia da tripulação e das autoridades, ou se eles foram incitados a salvarem este material pela tripulação inglesa, com a promessa de ficarem com a metade do que conseguiram tirar das águas e depois tiveram a sua parte no acordo retirado a força pelas autoridades comandadas pelo Presidente Manoel de Assis Mascarenhas.

A Barca Norte Americana Destruída em Maracajaú

Onze anos após o desastre do brigue Orion, uma barca, ou “bark” em inglês, uma nave com três ou mais mastros, com um comprimento que poderia variar de 35 a 60 metros, foi totalmente destruída nos belos recifes de coral de Maracajaú. Estes recifes de corais são conhecidos na região como parrachos.

A edição existente na internet do tradicional jornal The New York Times, de 30 de outubro de 1851, da conta que os seus jornalistas haviam recebido a notícia que a barca Ruth, que seguia do porto norte-americano de Baltimore para o Rio de Janeiro, havia se perdido em “Patagonia”, próximo “ao Cabo de São Roque”, mas a tripulação se encontrava a salvo. Parece que as informações geográficas dos jornais americanos desta época eram bem complicadas.

t

No periódico O Argus Natalense, existente na hemeroteca do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte, na sua edição de sábado, 11 de outubro de 1851, que encontramos uma notícia mais abalizada sobre o acidente da Ruth, com o destino da sua carga envolta em um rumoroso inquérito judicial.

Consta que a Ruth vinha dos Estados Unidos com 2.600 “barricas” contendo farinha de trigo, tendo se chocado com os parrachos de Maracajaú nos primeiros dias do mês de setembro de 1851. Este era um barco novo, tinha 337 toneladas e havia sido lançado ao mar em Baltimore no dia 27 de julho de 1847, sendo um dos 80 barcos construídos nos estaleiros daquele porto durante aquele ano.

Já no dia 15 daquele mês o “Inspector” da Alfandega da Cidade do Natal Manoel Pedro Alvares, informava que Antônio Francisco Nobre Câmara, o subdelegado de Maracajaú, havia firmado com John Llufrio, o capitão da barca, um norte americano de 43 anos de idade e natural de Rhode Island, um acordo onde os jangadeiros de Maracajaú e proximidades receberiam 50% da carga salva. Mas o inspetor Pedro Alvares acusava que o subdelegado Nobre Câmara participava e dava apoio ao extravio de mercadorias da barca naufragada, sem o conhecimento do capitão Llufrio.

Porto de Baltimore, quadro de Fitz Hugh Lane

Porto de Baltimore, quadro de Fitz Hugh Lane

Como a farinha de trigo é um produto que se transforma no contato com a água, tudo indica que a Ruth bateu nos parrachos e ficou com parte do casco fora da linha d’água, deixando muito de sua carga intacta. O inspetor Pedro Alvares informou, entre outras coisas, que todos os dias “de 100 a 200 barricas” desembarcavam na praia de Maracajaú, que os sete soldados do Corpo de Polícia de Maracajaú participavam do “roubo” e revendiam as barricas de farinha de trigo. Outra acusação dava conta que uma barcaça (nome e origem não mencionados) havia seguido para “portos do norte” com 120 barricas e que apenas 200 das 2.600 barricas, menos de 10% da carga, estavam sob a guarda da autoridade alfandegaria.

O inspetor Pedro Alvares informou também que contratou jangadeiros para salvarem barricas da Ruth, pagando 1.600 réis por unidade salva, mas parece que os jangadeiros preferiam realizar o transporte das barricas para um destino mais rentável. Pois no mesmo relato o inspetor pedia a seu chefe em Natal, João Bernardino Nunes, que pelo menos 30 praças do Corpo de Polícia fossem enviados para Maracajaú para evitar o extravio da carga, pois a entrega indevida deste material já se estendia por “mais de uma légua” ao longo da costa.

Pelo que está transcrito em O Argus Natalense, aparentemente o inspetor Pedro Alvares desejava cumprir o seu papel de fiscal da fazenda pública e cobrar as taxas alfandegarias pelos salvados da Ruth, independente do acordo feito pelo subdelegado Nobre Câmara com o capitão John Llufrio. Mas parece que seus esforços foram em vão.

Outros Acidentes

Quase dez anos depois do sinistro da Ruth, entre dezembro de 1860 e janeiro do ano seguinte uma pequena escuna norte americana chamada Madshler, de 350 toneladas, cujo comandante era o capitão Henshel, naufragou em Maracajaú com sua carga de ossos de animais, uma mercadoria que na época era destinada a ser reciclada como ração animal. Estas são praticamente as únicas indicações deste sinistro, que está registrado no periódico carioca Diário do Rio de Janeiro, edição de quarta feira, 30 de janeiro de 1861 e preservado na hemeroteca da Biblioteca Nacional.

h

No mesmo jornal, na edição de 25 de maio de 1869, uma terça feira, na segunda página, na seção destinada às notícias vindas de Pernambuco, dá conta que no dia 10 de abril daquele ano um barco brasileiro chamado Santa Cruz, do tipo iate, ou “hiate” na grafia da época, registrado em Recife, havia partido da capital pernambucana com uma carga de fazendas e outros gêneros, a maioria desta pertencente ao rico comerciante Pedro José Gonçalves da Silva, para a cidade cearense de Aracati.

Dois dias depois, as oito da manhã de uma segunda feira, em meio a uma tempestade, o Santa Cruz encalha defronte ao povoado de Maracajaú. Ao bater nos parrachos foi aberto um rombo no casco de madeira, o barco encalhou e passou quatro horas enchendo de água e perdendo grande parte de sua carga. Contam que pouco foi salvo e que não se perdeu foi vendido em Natal “por conta do seguro”.

Talvez por ser um barco de pequeno porte, ou pela natureza de sua carga, ou quem sabe por ser o mesmo oriundo de um porto nordestino, as notícias sobre o sinistro desta embarcação são limitadas. Não sabemos quem era seu capitão, ou “Mestre”, nem o número de tripulantes. Desta vez nada temos sobre a participação da comunidade local no salvamento da carga e não existem problemas envolvendo agentes públicos e a carga sinistrada.

Entretanto sabemos que o frete entre Recife e Aracati foi de parcos 600 mil réis e que a avaliação do sinistro ficou na casa dos 120 contos. Consta na nota deste jornal uma forte crítica pelo uso de barcos limitados como o Santa Cruz, em detrimento da utilização de vapores no transporte de cargas.

Parrachos de Maracajaú, um afamado destino turístico

Parrachos de Maracajaú, um afamado destino turístico

Oito meses depois do sinistro do Santa Cruz, o próximo barco a sofrer danos nos parrachos de Maracajaú é a barca inglesa Gabalva. Era o dia 11 de janeiro de 1870, uma terça feira, a barca Gabalva tinha 479 toneladas, era comandada pelo capitão W. Hyde, transportava uma carga de vinhos, móveis, fazendas e outras mercadorias. A nave era registrada em Londres, seguia de Boston (outras fontes apontam Baltimore), nos Estados Unidos, em direção à cidade australiana de Melbourne. Este acidente, tudo indica, ocorreu a noite, em meio a uma tempestade.

Apesar da carga valiosa e útil, nada foi comentado sobre problemas envolvendo o recolhimento indevido da carga deste barco.

Afundamentos Desconhecidos e Cargas Típicas de Uma Época

A barca americana chamada T. Jeffie Southard, de 830 toneladas, comandada pelo capitão G. R. Handy, que seguia de Nova York a São Francisco através do Cabo Horn, sul da Argentina, foi destruída por choque com os parrachos de Maracajaú no dia 18 de março de 1882. Logo foi despachado para a região o pessoal do serviço alfandegário de Natal e membros da Força Pública para evitar o desvio da carga. O registro deste afundamento se encontra no periódico cearense Gazeta do Norte, de 15 de abril de 1882, existente na hemeroteca da Biblioteca Nacional no Rio de Janeiro.

Típico padrão de uma barca americana

Típico padrão de uma barca americana

Pouco mais de um ano após este sinistro, na metade de junho de 1883, outro barco se tornou uma nova vítima dos parrachos de Rio do Fogo. Mas a nacionalidade, nome, tonelagem, nome do capitão, quantidade e destino dos tripulantes ficaram totalmente desconhecidos. Mas o jornal carioca Gazeta de Notícias, edição de sábado, 30 de junho de 1883, aponta que novamente as autoridades locais se apresavam em garantir os salvados deste barco misterioso.

f

Quase no final do século XIX é a vez do patacho holandês Catherine Klesin ir de encontro aos parrachos de Maracajaú. Os patachos eram barcos de dois mastros e tonelagem variando de 40 a 100. No caso da Catherine Klesin ela era comandada pelo capitão J. Douwes, junto com uma tripulação de quatro marinheiros (todos se salvaram) e bateu nos parrachos às três da manhã. O patacho Catherine Klesin ficou totalmente destruído, mas parte do carregamento foi salvo. Ainda sobre o que a Catherine Klesin temos a informação que o material que ela transportava era uma miscelânea de produtos que tinham sua importância no final do século XIX; carvão de pedra, malte, garrafas vazias, coque, ferro em barras, vergalhões, sal, ácido sulfúrico, tintas, cortiça e sabão de potassa.

O acidente se deu em 5 de março de 1898 e ficou registrado nas páginas do jornal natalense A República, edição do dia 8 de março.

Conclusão

Os relatos dos afundamentos em Maracajaú e Rio do Fogo ao longo do século XIX, pelas características dos barcos e de suas cargas, pouco tem do charme envolvendo as histórias dos galeões espanhóis que afundaram no Caribe abarrotados de ouro e prata. Mas o conhecimento destes sinistros mostram características praticamente desconhecidas dos problemas marítimos na costa potiguar, a relação das autoridades com estes fatos e como as comunidades tradicionais de pescadores interagiam com estes acidentes.

Relato do afundamento da barca americana T. Jeffie Southard

Relato do afundamento da barca americana T. Jeffie Southard

Através dos relatos existentes nestes jornais antigos conseguimos informações sobre oito naufrágios ocorridos entre 1840 e 1898, de diferentes nacionalidades, transportando mercadorias variadas, provavelmente ainda latente na mente e na tradição oral dos pescadores de Maracajaú e Rio do Fogo, o que pode revelar muito mais sobre estes sinistros se bem trabalhadas com uma pesquisa histórica mais profunda.

VER NO TOK DE HISTÓRIA - http://tokdehistoria.wordpress.com/2011/06/15/o-naufragio-do-sao-luiz/

Fontes – http://freespace.virgin.net/suesteph.baines/williamholt1752.html

http://www.bbc.co.uk/northyorkshire/content/articles/2005/04/04/coast05walks_stage1.shtml

http://books.google.com.br/books?id=4QcdAAAAIAAJ&pg=PA309&lpg=PA309&dq=”bark+Ruth”+”Baltimore”&source=bl&ots=EpVF7WRWFJ&sig=Z13yf_xoZflFbDWdPStb_yBN20Y&hl=pt-BR&sa=X&ei=KirCUq7-OrbIsASouYLQDQ&ved=0CDIQ6AEwAQ#v=onepage&q=%22bark%20Ruth%22%20%22Baltim

http://fultonhistory.com/Newspapers%206/New%20York%20NY%20Tribune/New%20York%20NY%20Tribune%201851%20Nov%20-%20Jan%201852%20Grayscale/New%20York%20NY%20Tribune%201851%20Nov%20-%20Jan%

http://postingsfromthepast.blogspot.com.br/2006/08/baltimore-daily-news-november-19-1978.html

http://books.google.com.br/books?id=8YgfAAAAYAAJ&pg=RA1-PA123&lpg=RA1-PA123&dq=”bark”+”Gabalva”&source=bl&ots=l968wIbIu8&sig=enoOwi4Fw8OqjvmDcd70FbFYqYc&hl=pt-BR&sa=X&ei=uTbCUryoO6axsQSeh

NOTA  - Todos os direitos reservados

É permitida a reprodução do conteúdo desta página em qualquer meio de
comunicação, eletrônico ou impresso, desde que citada a fonte e o autor.